Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Poder
"Muita coisa boa resultará desta parceria", disse o presidente americano
Publicado em 03/12/2025 2:41 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Em um movimento diplomático calculado, Luiz Inácio Lula da Silva tem transformado o improvável em realidade: estabelecer uma relação produtiva com o presidente Donald Trump, mesmo diante do cerco articulado pela extrema direita bolsonarista nos Estados Unidos. Em uma nova conversa de 40 minutos com Trump, nesta semana, Lula ampliou a aproximação com o presidente americano.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A ofensiva diplomática se dá num cenário em que parte do establishment político e midiático dos EUA, estimulado por figuras da oposição brasileira como o senador Flávio Bolsonaro, vem pressionando por uma postura mais agressiva contra o Brasil, utilizando o combate ao narcotráfico como pretexto para interferência. Flávio chegou a sugerir, em outubro, que os EUA bombardeassem embarcações suspeitas na costa do Rio de Janeiro, ecoando ações norte-americanas na Venezuela — o que acendeu alertas em Brasília sobre os riscos de uma escalada coercitiva disfarçada de cooperação.
No papo desta semana, Lula agiu preventivamente. Pediu apoio a Trump para reforçar a cooperação bilateral no combate ao crime, apresentando resultados concretos das operações brasileiras que visam “asfixiar financeiramente” facções como o PCC e o Comando Vermelho, cujas ramificações internacionais são conhecidas. “Estamos fazendo a lição de casa”, afirmou o presidente, ao destacar o trabalho de inteligência e de repressão a fluxos financeiros ilícitos, muitos dos quais utilizam o estado norte-americano de Delaware como paraíso fiscal. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já havia denunciado o envio ilegal de R$ 1,2 bilhão para fundos nesse estado, numa operação de lavagem de dinheiro.
A resposta de Trump, longe do esperado ceticismo, foi de alinhamento: “Gosto dele”, declarou o republicano sobre Lula, sinalizando disposição em cooperar com o Brasil em iniciativas conjuntas contra o crime transnacional e garantindo que os EUA farão sua parte no bloqueio de ativos e repressão a estruturas financeiras ilegais. O gesto é significativo, considerando o histórico isolacionista e protecionista da política trumpista, sobretudo em relação à América Latina.
Veja a mensagem de Trump sobre conversa com Lula, traduzida para o português: “Tivemos uma conversa muito produtiva com o presidente Lula do Brasil. Entre os temas discutidos estavam comércio, formas de cooperação entre nossos países no combate ao crime organizado, sanções impostas a autoridades brasileiras, tarifas e diversos outros assuntos. O presidente Lula e eu construímos uma relação durante um encontro nas Nações Unidas, o que acredito ter aberto caminho para um diálogo construtivo e acordos futuros. Estou ansioso para vê-lo e conversar novamente em breve. Muitas coisas boas virão desta nova parceria!”
Sinalizações concretas
Lula também arrancou de Trump uma sinalização concreta na frente comercial. Desde que o governo norte-americano impôs, em 2024, tarifas de até 40% sobre produtos brasileiros — em retaliação ao julgamento e condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe —, o Brasil tem atuado para reduzir os impactos da medida. Já foram retirados da lista tarifária mais de 200 produtos, incluindo carne bovina, café, frutas tropicais e cacau, diminuindo de 36% para 22% a fatia de exportações brasileiras sujeitas ao tarifaço. Ainda permanecem sobretaxados itens de maior valor agregado, como peças industriais e componentes de tecnologia, foco atual das tratativas lideradas pelo Itamaraty.
A ofensiva de Lula mostra-se duplamente eficaz. Primeiro, porque consegue avançar em pautas sensíveis sem submeter o Brasil a pressões ou condicionantes externos — como faria um alinhamento automático, do tipo que marcou a relação entre Bolsonaro e Trump, baseada mais em ideologia (e submissão por parte do brasileiro) do que em interesse nacional. Segundo, porque desmonta a retórica bolsonarista que, em aliança com setores da extrema direita americana, tenta pintar o governo Lula como um risco à ordem democrática ou à segurança hemisférica.
Na prática, Lula antecipa-se a tentativas de enquadramento internacional e vira o jogo: transforma o Brasil em parceiro confiável no combate ao crime e em ator responsável na política comercial, mesmo em um tabuleiro adverso. Sua estratégia se distancia da lógica da “salvação de cima”, que historicamente pautou as intervenções norte-americanas na América Latina — como analisou o sociólogo Immanuel Wallerstein ao criticar o intervencionismo como forma de perpetuação da desigualdade entre centro e periferia.
Ao reivindicar apoio técnico, e não tutela política, Lula reconfigura os termos da cooperação com os EUA. A diplomacia do Planalto propõe uma relação de soberania compartilhada, em que o Brasil lidera suas ações internas e convida os Estados Unidos a somar forças onde realmente têm capacidade de contribuir — como no rastreio de fluxos financeiros e no cerco a tecnologias utilizadas por redes criminosas.
Esse gesto não passa despercebido num cenário global em que as democracias enfrentam ofensivas autoritárias cada vez mais sofisticadas, inclusive com o uso de fake news e articulações transnacionais da extrema direita. A aproximação de Lula com Trump, por mais paradoxal que pareça, representa também uma contenção das pontes bolsonaristas com os bastidores republicanos nos EUA. Ao se colocar como interlocutor legítimo, o presidente brasileiro reduz o espaço para aventuras diplomáticas paralelas e reforça o Estado como único canal de diálogo com Washington.
A lição, nesse caso, vem mais da Realpolitik do que da diplomacia sentimental: em tempos de desordem global e rearranjos imprevisíveis, é preciso saber dialogar com todos — inclusive com adversários ideológicos — sem perder o rumo nem os princípios. Lula parece compreender isso com clareza. E age com a prudência de quem conhece o terreno, mas também com a ousadia de quem sabe que soberania se exerce, antes de tudo, com inteligência política.
Eduardo no mundo da lua
Diante da aproximação de Lula e Trump, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) mudou significativamente o tom. Depois de se mudar para os EUA com o objetivo de influenciar autoridades americanas a adotar sanções e retaliações contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e até contra o próprio país — em uma tentativa de blindar seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro —, o parlamentar agora afirma enxergar com “otimismo” o diálogo entre os dois governos.
A guinada ficou clara em publicação feita ontem (2) no X (antigo Twitter), horas após um telefonema de aproximadamente 40 minutos entre Lula e Trump.
Nos últimos meses, Eduardo Bolsonaro vinha defendendo abertamente que o governo Trump mantivesse ou até ampliasse sanções contra autoridades brasileiras — medidas que atingiram integrantes do STF e setores da economia nacional, com o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros. O deputado comemorou publicamente a adoção dessas punições, vistas por ele como forma de pressionar o Judiciário brasileiro e criar constrangimentos ao governo Lula.
A mudança de postura veio após Trump elogiar Lula mais uma vez e sinalizar uma relação pragmática com o petista. Mesmo assim, Eduardo buscou relativizar sua posição pretérita ao defender que as sanções seriam “instrumentos legítimos para corrigir violações graves”, sem mencioná-las diretamente como parte de sua militância política no exterior.
“O diálogo entre os dois países pode abrir caminhos importantes”, escreveu o deputado. Para ele, Trump teria condições de “proteger os interesses estratégicos dos Estados Unidos no hemisfério” ao mesmo tempo em que pressionaria pela “restauração das liberdades civis e do Estado de Direito” no Brasil — uma formulação alinhada ao discurso bolsonarista sobre uma suposta crise institucional.
A atuação de Eduardo nos EUA e o contraste atual
A reação suave do deputado ao telefonema contrasta com sua atuação recente em solo americano. Desde que se estabeleceu nos EUA, Eduardo Bolsonaro:
– buscou autoridades conservadoras e integrantes do Congresso americano para denunciar decisões do STF
– defendeu endurecimento de sanções contra ministros e instituições brasileiras
– pregou retaliações diplomáticas que elevassem o custo político para o governo Lula
– participou de eventos da direita radical nos EUA, nos quais alimentou narrativas de fraude eleitoral e perseguição política no Brasil.
A conversa entre Trump e Lula, no entanto, não seguiu essa linha. Pelo contrário: o diálogo foi descrito por ambas as partes como construtivo e focado na retomada de laços econômicos e de segurança.
Até o momento, os outros filhos do ex-presidente — Flávio, Carlos e Jair Renan — não se pronunciaram sobre os elogios de Trump a Lula nem sobre a perspectiva de reaproximação entre os países. Flávio Bolsonaro chegou a comentar recentemente questões familiares e políticas envolvendo o pai, mas evitou tratar do telefonema entre os dois presidentes.
A debacle bolsonarista
Segundo o jornal britânico Financial Times, o lobby conduzido por Eduardo Bolsonaro “fracassou espetacularmente” e expôs ainda mais o clã ao desgaste político. A publicação afirma que o movimento conservador no Brasil passa por um momento de crise aguda, intensificada por decisões equivocadas dos filhos de Jair Bolsonaro.
“A estratégia do clã de buscar ajuda em Washington fracassou espetacularmente”, destaca a reportagem. Eduardo Bolsonaro, que permanece nos EUA em uma espécie de “exílio autoimposto”, teria atuado junto a aliados do ex-presidente Donald Trump para pressionar o governo americano a intervir indiretamente no cenário brasileiro — uma tentativa que não apenas falhou, como gerou reações negativas em diversos setores.
O jornal destaca que o lobby resultou, entre outras consequências, na imposição de tarifas comerciais de até 50% a produtos brasileiros, medida que irritou empresários e aumentou a desconfiança sobre a atuação de Eduardo. As tarifas, ainda segundo o FT, não surtiram qualquer efeito no Supremo Tribunal Federal, que manteve as ações contra Jair Bolsonaro. Parte dessas medidas comerciais foi suspensa por Trump neste mês devido ao impacto nos preços dos alimentos nos EUA, o que agravou a percepção de fracasso da estratégia bolsonarista.
Além de Eduardo, o senador Flávio Bolsonaro também é citado como peça-chave no atual desgaste. Ao organizar vigílias em apoio ao pai, preso desde agosto, Flávio teria causado desconforto até mesmo entre aliados do governador Tarcísio de Freitas, que temem que a associação direta com o bolsonarismo puro contamine sua imagem junto ao eleitorado de centro-direita.
De acordo com o Financial Times, Jair Bolsonaro “apresentava uma figura abatida e solitária” no momento da prisão. A publicação relembra que, em seu auge político, o ex-presidente era capaz de mobilizar multidões e desestabilizar instituições com seu discurso inflamado. Hoje, porém, o cenário é outro. Fontes ouvidas pelo jornal relataram que os filhos do ex-presidente “enlouqueceram politicamente” e que o capital político da família se deteriorou consideravelmente. Um executivo do setor financeiro chegou a classificar a tentativa de Eduardo de interferir no Judiciário brasileiro via articulações internacionais como “absolutamente repreensível”.
Apesar do desgaste, o jornal britânico reconhece que a direita segue com força eleitoral no Brasil. A pauta da segurança pública deve ser um dos principais temas da campanha presidencial de 2026, especialmente diante das dificuldades do governo Lula em responder de forma efetiva à crescente sensação de insegurança nas grandes cidades. “Se a eleição fosse daqui a dois meses, Lula venceria. Mas ainda falta quase um ano”, observa o Financial Times.
Deixe um comentário