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Poder
Trump tenta punir o Brasil, mas acaba isolando o bolsonarismo
Publicado em 31/07/2025 10:56 - Semana On
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Os dados da pesquisa Latam Pulse, realizada pelo instituto AtlasIntel em parceria com a Bloomberg e divulgada nesta quinta-feira, 31, mostram que, se as eleições de 2026 fossem hoje, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceria todos os adversários em cenários de segundo turno.
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Lula supera, para além da margem de erro, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB).
Os dados indicam que, a mais de um ano das eleições, o desempenho de Lula acompanhou a melhora na avaliação do governo.
Na pesquisa anterior, o petista vencia apenas quatro dos sete cenários testados, empatando com Bolsonaro, Michelle e Tarcísio.
Na reedição do segundo turno de 2022, Lula aparece com 50,1% contra 46,3% de Bolsonaro. A pesquisa mostra uma inversão em relação ao levantamento do mês anterior, quando o ex-presidente aparecia numericamente à frente do petista.
Tarcísio e Michelle Bolsonaro são superados por Lula por margens de 3,8 a 4,7 pontos percentuais, respectivamente.
Nos cenários em que vence seus adversários, Lula tem seu melhor desempenho contra Eduardo Leite, com uma diferença de 23,9 pontos percentuais.
INTENÇÃO DE VOTO PARA PRESIDENTE – 2º TURNO
Lula X Tarcísio de Freitas
Lula: 50.4%
Tarcísio de Freitas: 46.6%
Não sabe: 3.0%
Lula X Michele Bolsonaro
Lula: 50.6%
Michele Bolsonaro: 45.9%
Não sabe: 3.4%
Lula X Jair Bolsonaro
Lula: 50.1%
Jair Bolsonaro: 46.3%
Não sabe: 3.6%
Lula X Romeu Zema
Lula: 50.7%
Romeu Zema: 40.6%
Não sabe: 8.7%
Lula X Ronaldo Caiado
Lula: 50.3%
Ronaldo Caiado: 39.7%
Não sabe: 10%
Lula X Ratinho Jr.
Lula: 50.5%
Ratinho Jr.: 39.7%
Não sabe: 9.7%
Lula X Eduardo Leite
Lula: 49.6%
Eduardo Leite: 25.7%
Não sabe: 24.7%
INTENÇÃO DE VOTO PARA PRESIDENTE – 1º TURNO
Cenário 1
Lula – 48.5%
Tarcísio de Freitas – 33.0%
Ratinho Jr. – 3.6%
Romeu Zema – 3.6%
Ronaldo Caiado – 3.0%
Ciro Gomes – 2.9%
Não sei/branco/nulo – 2.8%
Pablo Marçal – 2.2%
Eduardo Leite – 0.4%
Cenário 2
Lula – 48.5%
Michele Bolsonaro – 29.7%
Romeu Zema – 6.6%
Ronaldo Caiado – 4.6%
Ratinho Jr. – 4.2%
Ciro Gomes – 2.8%
Pablo Marçal – 1.7%
Não sei/branco/nulo – 1.6%
Eduardo Leite – 0.6%
Trump tenta punir o Brasil, mas acaba fortalecendo Lula e isolando Bolsonaro
A sanção tarifária anunciada por Donald Trump contra produtos brasileiros, na quarta-feira (30), foi menos um gesto de política comercial do que uma jogada geopolítica, marcada por motivações eleitorais e vínculos ideológicos com a extrema direita brasileira. Inspirado pelo clã Bolsonaro, o pacote tarifário veio em versão diluída, com 694 exceções, e acabou oferecendo ao presidente Lula a oportunidade de transformar um ataque em vantagem.
A ofensiva comercial foi vendida como retaliação contra o Brasil por violações à “liberdade” e “direitos individuais”, segundo narrativa da direita trumpista. Na prática, serviu para consolidar dois objetivos: desestabilizar o governo Lula e reforçar o discurso persecutório em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro, cada vez mais cercado por investigações criminais no Brasil.
O recuo parcial de Trump diante do lobby de importadores norte-americanos — ao isentar setores inteiros da tarifa de 50% — revela que o gesto teve mais peso simbólico do que técnico. Ao proteger seu eleitorado de uma eventual alta de preços, Trump buscou preservar sua base doméstica sem abdicar do aceno internacional ao bolsonarismo.
Mas, como destaca a economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, “tarifas unilaterais impostas com base em alinhamentos ideológicos tendem a gerar distorções comerciais, sem ganhos sustentáveis para nenhuma das partes”. E, neste caso, o Brasil soube explorar essa brecha.
O efeito bumerangue político
Na política, a iniciativa foi um tiro que saiu pela culatra. Ao amarrar a justificativa da medida ao apoio ao bolsonarismo, Trump acabou transferindo o desgaste da sanção diretamente para seus aliados no Brasil. Bolsonaro e seu filho Eduardo, ex-embaixador informal do trumpismo em Brasília, tornaram-se símbolos de traição nacional aos olhos de parte significativa do eleitorado conservador que valoriza o agronegócio e a soberania econômica.
O Planalto, por sua vez, agiu com pragmatismo. Sem adotar retórica de confronto, o governo Lula aproveitou o momento para reforçar sua imagem de defensor dos interesses nacionais, mantendo diálogo aberto com setores afetados e articulando medidas compensatórias — incluindo estímulos à diversificação de mercados e eventual uso de estoques reguladores para segurar preços internos.
Pesquisas de opinião já apontam recuperação da popularidade presidencial, justamente nos segmentos mais afetados pela alta da inflação alimentar. A leitura política é clara: se Lula conseguir entregar comida a preços mais baixos, mesmo que temporariamente, amplia suas chances eleitorais. Como disse certa vez o sociólogo francês Pierre Bourdieu, “a economia doméstica é o lugar onde a política se transforma em experiência concreta”.
Trump, Moraes e o uso da diplomacia como arma pessoal
A sanção contra o Brasil foi acompanhada de outro movimento inédito: a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A legislação, originalmente criada para punir violações de direitos humanos por governos autoritários, foi distorcida por Trump para atacar uma das principais figuras do Judiciário brasileiro, associando-o a um “regime opressor”. A ironia não passou despercebida: trata-se de um chefe de Estado tentando blindar um aliado envolvido em graves acusações, inclusive tentativa de golpe.
Na prática, Moraes continua em pleno exercício de suas funções, e Bolsonaro segue cada vez mais próximo de uma condenação penal. Como indicam fontes do STF, seu julgamento pela Primeira Turma está previsto para setembro, com expectativa de mandado de prisão expedido até o fim do ano.
É nesse cenário que Trump transforma a diplomacia norte-americana em uma extensão de sua campanha presidencial e em ferramenta de proteção a um aliado político pessoal. Um uso instrumental das instituições do Estado, semelhante ao observado durante os anos finais de Bolsonaro na Presidência, quando estruturas públicas foram colocadas a serviço de sua defesa jurídica.
A erosão ética da extrema direita global
O episódio escancara a crescente tendência de autocratas em potencial — como Trump e Bolsonaro — de corroer limites entre o público e o privado, entre o Estado e o partido, entre a lei e a conveniência. Como argumenta o filósofo Michael Sandel, “a crise da democracia liberal não é apenas institucional, mas também moral: trata-se da degradação dos padrões de responsabilidade pública”.
Ao instrumentalizar tarifas comerciais e leis de sanção internacional para proteger aliados e atacar adversários políticos, Trump compromete a credibilidade dos EUA como referência democrática. E, ao mesmo tempo, isola ainda mais Bolsonaro dentro e fora do Brasil, enquanto fortalece paradoxalmente o governo que pretendia enfraquecer.
Quando a geopolítica vira cabo eleitoral
Com sua investida mal calculada, Trump entregou de bandeja a Lula um discurso forte de defesa da soberania, um alívio inflacionário e o inimigo ideal: um bolsonarismo que, ao se alinhar de forma submissa ao estrangeiro, se descola da realidade nacional. A pergunta agora não é se Bolsonaro ainda tem força política, mas para quem ela está servindo.
Como símbolo do que há de mais antidemocrático na política internacional recente, o trumpismo reforça sua afinidade com o projeto de poder de Jair Bolsonaro — ambos em rota de colisão com os próprios países. O problema, para eles, é que os brasileiros parecem estar aprendendo a diferença entre patriotismo e servilismo.
Nova trama golpista se articula com apoio de Trump e do bolsonarismo
A mais recente ofensiva bolsonarista contra a democracia brasileira já está em curso — e tem a digital estrangeira de Donald Trump. Como refletiu o articulista Josias de Souza, do UOL, não é mais o QG do Exército o centro de comando da subversão institucional, mas a Casa Branca. E a arma não são tanques ou fardas, mas sanções econômicas, ataques diplomáticos e discursos sincronizados com objetivos políticos claros: reabilitar Jair Bolsonaro e desestabilizar o governo Lula.
Em entrevista à Folha de S.Paulo em 6 de novembro de 2024, Bolsonaro não disfarçou a estratégia. Ao vincular sua possível candidatura em 2026 ao retorno de Trump à presidência dos Estados Unidos, o ex-capitão explicitou a lógica de dependência: “É igual a uma caminhada de mil passos, você tem que dar o primeiro, tem que dar o décimo. E o Trump é um passo importantíssimo”, afirmou.
Pouco depois, em 7 de junho, Trump publicou em sua rede social Truth Social uma mensagem direta: “Estarei assistindo à caça às bruxas de Jair Bolsonaro, sua família e milhares de seus apoiadores muito de perto. O único julgamento que deveria estar acontecendo é um julgamento pelos eleitores do Brasil.” A frase reeditou o mesmo enredo usado por Trump para se blindar de acusações criminais nos EUA, e agora aplicado em defesa de Bolsonaro: o da “perseguição política”.
De tarifaço a asfixia financeira: uma nova forma de intervenção
Diferentemente das tentativas anteriores, essa nova investida golpista não se apoia mais em tanques nem em quartéis. Seu eixo está no exterior — com sanções econômicas, pressão diplomática e instrumentos legais distorcidos, como a Lei Magnitsky, usada para impor restrições financeiras ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A GLO (Garantia da Lei e da Ordem) da vez veio na forma de um tarifaço. A sobretaxa de 50% aplicada por Trump a certos produtos brasileiros afetou setores chave do agronegócio, especialmente café e carne, base de sustentação política do bolsonarismo. Os principais beneficiados dessa agenda externa — as big techs americanas e os lobbies protecionistas — são os mesmos que alimentam financeiramente o trumpismo. A operação, ao mesmo tempo, pressiona a economia brasileira e força o governo Lula a agir, testando os limites da frente ampla que sustenta a governabilidade.
Mais do que um ato comercial, o pacote é parte de uma tentativa coordenada de produzir instabilidade institucional. Ainda que as exceções tarifárias — como suco, petróleo e aviões — tenham reduzido o impacto prático, a narrativa política foi construída para fortalecer o discurso de “vítima” de Bolsonaro e insuflar sua base contra o Supremo e o Congresso.
Crises recorrentes, projetos autoritários
Desde que perdeu as eleições de 2022, Bolsonaro e seus aliados têm sistematicamente tentado emplacar versões diferentes do mesmo enredo: um apocalipse institucional que justifique sua volta como “salvador da pátria”. A primeira tentativa foi a deslegitimação das urnas, que terminou em multa milionária ao PL, seu partido. A segunda foi a famigerada minuta de golpe, barrada pela resistência de parte da cúpula militar. A terceira culminou nos atos golpistas do 8 de janeiro de 2023 — um fracasso retumbante, com prisões em massa e condenações que seguem sendo proferidas pelo STF.
Agora, a quarta tentativa emerge em novo formato: com aval internacional e disfarce institucional. A proposta de anistia aos condenados do 8 de janeiro — articulada nos bastidores por aliados do Centrão — e a ameaça de impeachment contra Alexandre de Moraes são peças do mesmo tabuleiro. O objetivo é reverter, via Congresso, os efeitos jurídicos do levante golpista anterior e impedir novas condenações. A “asfixia financeira” promovida pela Lei Magnitsky, ao atingir membros do Judiciário, tem um claro recado: ou se cala, ou se paga caro.
Isolamento político e desgaste interno
Mas a aposta no caos pode custar caro ao bolsonarismo. A tática de alinhar-se abertamente a interesses estrangeiros tem produzido um efeito colateral destrutivo: a perda de apoio entre seus aliados tradicionais, especialmente no agronegócio e nos governos estaduais. Governadores conservadores, que dependem da estabilidade comercial com os EUA e da recuperação econômica, têm se afastado em silêncio. O chamado “núcleo duro” do bolsonarismo tornou-se uma ilha — barulhenta, mas cada vez mais isolada.
A análise política revela um paradoxo: ao tentar enfraquecer Lula, Bolsonaro fortaleceu a retórica presidencial de soberania e proteção nacional. E ao subordinar os interesses do Brasil ao apoio de Trump, enfraqueceu seu próprio discurso de “patriota”. Como ironiza o cientista político Christian Lynch, da UERJ, “o bolsonarismo virou a vanguarda do entreguismo”.
O fio da navalha democrática
Enquanto nos Estados Unidos Trump enfrenta dezenas de processos e tenta manipular a eleição de 2024 com estratégias de guerra cultural e desinformação, no Brasil Bolsonaro aguarda julgamento por tentativa de golpe, corrupção e obstrução da Justiça. A condenação de Jair é esperada para setembro, e o indiciamento de seu filho Eduardo Bolsonaro é considerado iminente.
A diferença entre os dois contextos é reveladora. Ao contrário do que Trump tenta sugerir, o Brasil respira hoje um ar democrático mais limpo do que o dos EUA. O STF age com independência, o Congresso — ainda que pressionado — tem resistido à anistia ampla, e a imprensa mantém vigilância ativa. O Brasil de 2025 não é o de 1964, e mesmo com todas as fragilidades institucionais, há freios e contrapesos em funcionamento.
A conspiração vem de fora — mas é velha conhecida
A nova tentativa de golpe liderada pelo bolsonarismo, com apoio aberto de Donald Trump, não deve ser subestimada. Ela não se veste mais de farda, mas de paletó. Não ocupa quartéis, mas redes sociais. E não precisa de tanques, porque conta com tarifas, sanções e fake news em escala global.
Mas seu roteiro é velho: instaurar o medo, inventar um inimigo interno e apresentar o messias autoritário como única salvação. Se há algo que a história das democracias ensina, é que os golpes nunca chegam dizendo seu nome. Mas sempre deixam pegadas — e essas já estão visíveis.
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