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Poder
Perfis com milhões de seguidores são pagos para atacar adversários e beneficiar interesses conservadores
Publicado em 30/03/2026 9:03 - Semana On
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O uso de perfis de entretenimento como instrumento de influência política nas redes sociais passou a ser alvo simultâneo de investigações da Polícia Federal e de atenção do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), às vésperas de um novo ciclo eleitoral. O fenômeno, que combina financiamento privado, alcance massivo e conteúdo disfarçado de entretenimento, revela uma engrenagem que conecta interesses econômicos, articulação política e estratégias digitais de persuasão.
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Levantamentos jornalísticos indicam que páginas com milhões de seguidores — muitas delas voltadas a fofoca e variedades — vêm sendo utilizadas para publicar conteúdos que alternam críticas ao governo federal e promoção de figuras associadas ao bolsonarismo. Entre os casos mais visíveis está o de perfis que, sob aparência de neutralidade ou humor, inserem mensagens políticas em meio a conteúdos sobre celebridades, ampliando o alcance e reduzindo a percepção de propaganda.
Parte desse ecossistema envolve a atuação de empresas de apostas online, como a 7games.bet, associada ao empresário Fernando Oliveira de Lima, conhecido como Fernandin OIG. O nome da empresa aparece como patrocinadora de publicações com teor político, indicando possível financiamento indireto de conteúdo com viés eleitoral. Fernandin mantém relações próximas com o senador Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, o que adiciona um componente político relevante à estrutura.
As conexões não se limitam ao setor de apostas. Investigações já haviam identificado dinâmica semelhante envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar a contratação de influenciadores digitais que atacaram o Banco Central e tentaram desacreditar apurações sobre irregularidades envolvendo a instituição — operação que ficou conhecida como “Gabinete do Ódio do Master”.
Segundo investigadores, o modelo é uma evolução das estratégias de disparo em massa utilizadas nas eleições de 2018. A diferença central está na forma: em vez de mensagens diretas, a propaganda é incorporada a conteúdos de entretenimento, em perfis com grande capilaridade. A lógica, no entanto, permanece semelhante — impulsionamento pago, possível uso de recursos não declarados e tentativa de manipular a percepção pública.
Exemplos concretos mostram como essa estratégia opera. Perfis populares têm publicado conteúdos favoráveis a políticos como Nikolas Ferreira e Tarcísio de Freitas, ao mesmo tempo em que difundem críticas a instituições como o Supremo Tribunal Federal e ao governo federal. Em alguns casos, as postagens apresentam linguagem híbrida, combinando tom jornalístico com viés opinativo, o que contribui para reforçar a credibilidade aparente do conteúdo.
A escolha de páginas de entretenimento não é casual. Diferentemente de influenciadores políticos tradicionais, esses perfis alcançam públicos mais amplos e diversificados, permitindo que a mensagem política seja disseminada de forma mais orgânica — ou, ao menos, com aparência de espontaneidade. Especialistas descrevem a prática como uma forma de “diluição da propaganda”, em que conteúdo político é inserido em meio a publicações leves, reduzindo resistência do público.
Há ainda indícios de que esse mecanismo tenha sido utilizado para inflar artificialmente a relevância de determinados atores políticos, criando uma percepção de popularidade baseada em impulsionamento pago. Ao mesmo tempo, ataques coordenados a instituições, jornalistas e adversários políticos sugerem a existência de uma atuação estruturada, e não apenas manifestações isoladas.
No centro desse arranjo, aparecem figuras políticas com capacidade de articulação e trânsito entre diferentes setores. O senador Ciro Nogueira é citado em levantamentos como elo entre interesses empresariais — incluindo o setor de apostas e o sistema financeiro — e iniciativas políticas que se beneficiam da atuação dessas redes digitais. Sua participação em episódios como a CPI das Bets, onde defendeu interesses do setor, reforça questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse.
Diante desse cenário, o TSE se prepara para julgar ações envolvendo o uso de influenciadores e financiamento irregular de campanhas, enquanto a Polícia Federal busca rastrear fluxos financeiros e contratos que possam comprovar a existência de esquemas organizados. O foco das investigações não é a opinião individual, mas a eventual formação de estruturas pagas para interferir no debate público e no processo eleitoral.
Embora o avanço da inteligência artificial represente um risco adicional — com possibilidade de criação de conteúdos falsos altamente realistas —, investigadores apontam que o principal vetor de preocupação continua sendo a atuação coordenada de agentes humanos. São eles que estruturam as campanhas, definem alvos e operam a distribuição de conteúdo em larga escala.
O funcionamento desse modelo depende, em grande medida, de sua invisibilidade. Uma vez expostos, os vínculos financeiros e operacionais tendem a comprometer sua eficácia e abrir caminho para responsabilização judicial. Para os envolvidos, o risco não é apenas reputacional, mas também econômico: a interrupção do fluxo de recursos que sustenta essas operações.
À medida que se aproxima o período eleitoral, o desafio das autoridades será identificar e conter essas práticas sem comprometer a liberdade de expressão. O que está em jogo não é apenas o conteúdo que circula nas redes, mas a transparência sobre quem financia, organiza e se beneficia da informação que chega ao público.
Bets ampliam desgaste político ao drenar renda e distorcer percepção econômica
Se, no plano institucional, a preocupação recai sobre o uso político de influenciadores e financiamento indireto de campanhas, no cotidiano das famílias brasileiras outro efeito do mesmo ecossistema começa a ganhar centralidade: a erosão da renda disponível provocada pela expansão das apostas online.
Apesar de indicadores macroeconômicos positivos — crescimento do PIB, queda do desemprego e recuperação da renda média —, a percepção de aperto financeiro persiste. Parte dessa dissociação pode ser explicada por fatores conhecidos, como o patamar elevado de preços no pós-pandemia. No entanto, um componente mais recente tem alterado silenciosamente o orçamento doméstico: o avanço das plataformas de apostas.
Estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) em parceria com a FIA Business School indica que os gastos com apostas já figuram entre os principais fatores de endividamento das famílias, superando modalidades tradicionais de crédito. Diferentemente de financiamentos ou empréstimos, esse tipo de despesa não gera ativos ou patrimônio, funcionando, na prática, como uma transferência direta de renda para plataformas digitais.
O impacto não se revela de imediato nos grandes agregados econômicos, mas aparece na microeconomia do dia a dia. Redução no consumo de bens essenciais, atraso em contas básicas e compressão de gastos com saúde e educação são efeitos relatados em pesquisas recentes. Trata-se de uma pressão difusa, mas consistente, que ajuda a explicar a sensação de empobrecimento mesmo em um cenário de melhora estatística.
Esse fenômeno produz uma distorção relevante no debate público: enquanto o governo apresenta dados positivos, parte da população experimenta deterioração concreta de sua capacidade de consumo. Na prática, as apostas operam como um mecanismo regressivo, afetando de forma mais intensa as camadas de menor renda — justamente aquelas mais sensíveis a variações no orçamento.
Há também um recorte geracional. Jovens, frequentemente expostos a campanhas publicitárias e à atuação de influenciadores digitais, aparecem entre os mais vulneráveis à promessa de ganhos rápidos. Dados da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes) apontam que uma parcela significativa de estudantes compromete recursos destinados à educação com apostas, interferindo diretamente na permanência no ensino superior.
O efeito agregado dessa dinâmica começa a ser percebido em setores da economia real. O varejo, por exemplo, registra perda de fôlego em meio à migração de gastos para plataformas digitais que não geram a mesma cadeia de empregos e produção. Em outras palavras, o consumo não desaparece — ele muda de destino, com menor impacto multiplicador.
Do ponto de vista das políticas públicas, o desafio se amplia. Além da perda de renda das famílias, cresce a demanda por serviços de saúde mental associados ao vício em jogos, pressionando o sistema público. A arrecadação tributária sobre o setor, por sua vez, ainda não compensa os custos sociais decorrentes dessa expansão.
A resposta institucional até agora tem sido considerada insuficiente. A CPI das Bets, que prometia investigar e propor mecanismos de controle, terminou sem resultados expressivos, em meio a críticas sobre sua condução. Paralelamente, o setor mantém forte capacidade de lobby no Congresso, dificultando avanços regulatórios mais rigorosos.
A regulamentação implementada pelo governo no fim de 2023 buscou estabelecer regras para o funcionamento das plataformas, mas permanece sob avaliação quanto à sua eficácia. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu a incerteza ao afirmar que medidas mais duras poderão ser adotadas caso o modelo atual não produza os resultados esperados.
O ponto central é que o fenômeno das apostas ultrapassa o campo do entretenimento e assume contornos econômicos e políticos relevantes. Ao reduzir a renda disponível e afetar a percepção de bem-estar, as bets passam a atuar, ainda que indiretamente, como fator de desgaste para o governo de turno.
Em um ambiente eleitoral, onde a percepção frequentemente se sobrepõe aos indicadores objetivos, esse tipo de impacto tende a se traduzir em comportamento político. A insatisfação difusa, mesmo quando não associada diretamente a decisões governamentais, encontra no voto um canal de expressão.
Nesse contexto, o avanço das apostas online não representa apenas um desafio regulatório ou de saúde pública, mas um elemento adicional na já complexa equação entre economia, percepção social e disputa política no país.
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