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Poder
Kassab ocupa o vácuo da direita e pauta o debate sem apostar em favoritos
Publicado em 30/01/2026 9:15 - Semana On
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Há casos na política em que a autoimagem de um líder entra em choque com a percepção pública construída ao longo do tempo. É o que ocorre hoje com Tarcísio de Freitas. Embora o governador de São Paulo ainda se apresente como um gestor técnico com vocação nacional, sua trajetória recente indica um movimento inverso: a redução deliberada de suas ambições presidenciais, condicionada à fidelidade ao grupo de Jair Bolsonaro, atualmente preso.
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A relação de dependência política impôs a Tarcísio um encolhimento progressivo. Na prática, o governador aceitou limitar seu horizonte eleitoral a 2026, restringindo-se à tentativa de reeleição no Palácio dos Bandeirantes. O compromisso foi assumido na quinta-feira (29), durante visita a Bolsonaro na chamada “Papudinha”, gesto que simbolizou a renúncia formal a qualquer projeto presidencial no próximo pleito.
O movimento teve efeitos imediatos no tabuleiro da direita. Atento à paralisia do governador, o secretário de Governo paulista e presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, intensificou articulações para construir uma candidatura alternativa ao bolsonarismo. A estratégia passa por uma lista de possíveis presidenciáveis que inclui Ratinho Júnior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado, este último recém-filiado ao PSD.
Ao se manter acorrentado ao bolsonarismo, Tarcísio acabou se autoexcluindo de um projeto que busca organizar uma direita de perfil conservador, mas comprometida com a institucionalidade democrática. O isolamento ficou ainda mais explícito na véspera do compromisso com Bolsonaro, quando o governador recebeu Carlos Bolsonaro para um almoço no Palácio dos Bandeirantes. Em publicação nas redes sociais, o filho do ex-presidente revelou ter o aval do pai e dos irmãos para a visita e se referiu ao anfitrião como “eterno ministro” — expressão que reforça a ideia de subordinação permanente.
Apesar de manter índices elevados de aprovação em São Paulo, Tarcísio não conseguiu se afirmar como um nome agregador no campo da centro-direita. O efeito prático é sua retirada antecipada da disputa presidencial de 2026 e a perda de capital político como alternativa nacional no período pós-Luiz Inácio Lula da Silva. Com a provável última candidatura de Lula neste ciclo, abre-se um vácuo que tende a ser disputado intensamente por forças da direita e da centro-direita — espaço que o governador paulista tinha condições objetivas de ocupar.
Essa oportunidade, no entanto, foi bloqueada pela lógica do clã Bolsonaro. A falta de iniciativa de Tarcísio em construir pontes além do eleitorado bolsonarista frustrou Kassab, que ingressou no governo paulista com a expectativa de ampliar o alcance político do governador. O presidente do PSD aguardou até o limite por um gesto de autonomia que nunca veio.
A trajetória de Tarcísio ajuda a explicar esse desfecho. Técnico de formação, ele ganhou projeção nacional inicialmente no governo Dilma Rousseff, no Dnit, e ascendeu politicamente sob Bolsonaro, que o transformou em “superministro” e o lançou candidato ao governo paulista. Desde então, sua carreira permanece fortemente vinculada ao capital eleitoral do ex-presidente.
Enquanto isso, Kassab segue operando com sua conhecida habilidade: evita confrontos diretos, constrói alianças pelas margens e ocupa os espaços deixados por adversários imobilizados. Ao fortalecer o PSD como polo da centro-direita, ele sinaliza que, na política, não existe vácuo. Quem hesita, perde lugar.
Bem avaliado em São Paulo e favorito à reeleição, Tarcísio parece ter feito sua escolha: permanecer sob as asas do bolsonarismo. O custo é alto — a abdicação, ao menos por ora, de qualquer voo nacional.
Kassab ocupa o vácuo da direita e pauta o debate sem apostar em favoritos
Sem apresentar um nome com reais chances de vitória presidencial, Gilberto Kassab conseguiu algo raro no atual estágio da corrida eleitoral: capturar a pauta. A filiação de Ronaldo Caiado ao PSD, acompanhada da exposição conjunta com Ratinho Júnior e Eduardo Leite, não reposicionou o favoritismo da disputa, mas deslocou o foco do noticiário e do debate político por alguns dias — movimento tático em um cenário de escassez de alternativas à polarização.
A operação teve êxito não pelas probabilidades eleitorais dos envolvidos, hoje modestas, mas pelo efeito simbólico. A imagem dos três governadores juntos circulou com rapidez e foi recebida com entusiasmo por setores da imprensa e do eleitorado que seguem à espera de uma “terceira via” liberal-conservadora — expectativa recorrente, quase messiânica, à espera de alguém que nunca chega, como em Esperando Godot.
Do ponto de vista aritmético, o quadro permanece praticamente inalterado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue como nome garantido no segundo turno, amparado pela vantagem de ocupar o cargo e pela máquina pública. Do outro lado, a força eleitoral do bolsonarismo tende a se concentrar, no primeiro turno, em Flávio Bolsonaro, que capitaliza o sobrenome e a transferência de apoio do pai. Nesse contexto, governadores fora do clã dificilmente ultrapassariam essa barreira inicial, ainda que apresentem desempenho competitivo em simulações de segundo turno.
Kassab, contudo, não parece jogar esse jogo imediato. Em entrevista recente ao UOL News, ao ser questionado sobre a hipótese de apoiar Tarcísio de Freitas caso o senador Bolsonaro deixe a disputa, o dirigente do PSD deixou aberta a possibilidade de recuo diante de “uma candidatura forte, que una tudo”. Ainda assim, indicou que a tendência é o partido avançar com um dos três governadores, decisão prevista para abril — mês-limite para desincompatibilização de cargos executivos por quem pretende concorrer ao Planalto.
O timing não é aleatório. O movimento ocorre enquanto Lula divide sua agenda entre temas domésticos e compromissos internacionais e enquanto o núcleo bolsonarista enfrenta isolamento político, agravado pela prisão do ex-presidente. Nesse vácuo relativo, Kassab apresentou um bloco, produziu ruído e obrigou os demais atores a reagir.
Não por acaso, ao comentar o papel de Tarcísio, o presidente do PSD afirmou, em conversa com Josias de Sousa, que há uma diferença clara entre “gratidão, reconhecimento, lealdade” e “submissão”. A observação soou menos como conselho abstrato e mais como recado direto a quem hesita em construir autonomia política.
Ainda é incerto qual função eleitoral concreta o PSD pretende desempenhar — se a de lançar um nome competitivo, maximizar bancadas no Congresso ou se posicionar como fiador de alianças futuras. O que já está claro é o ganho imediato: tempo, espaço e poder de barganha. Em uma eleição que tende a ser decidida mais por rejeições do que por projetos, pautar o debate pode ser tão estratégico quanto liderar pesquisas.
Num tabuleiro em que a maioria das peças permanece imóvel, Kassab resolveu mover as suas. Não colocou um rei em xeque, mas venceu a rodada ao ocupar um espaço que estava deserto. Por ora, isso foi suficiente.
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