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Poder

Governo Lula encurralado

Refém de um cenário político desigual, governo perde para a desinformação e expõe as fraturas internas da esquerda

Publicado em 07/02/2025 9:01 - Semana On

Divulgação Ricardo Stuckert

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A recente “Crise do Pix”, gerada por uma fake news do deputado federal Nikolas Ferreira e impulsionada pelas redes sociais da Meta, revelou algo muito mais profundo do que apenas uma falha de comunicação do governo federal. Embora a resposta desarticulada tenha sido salva por um vídeo de Erika Hilton, o episódio expôs o que muitos analistas políticos já afirmavam: a estrutura da esquerda brasileira está enfraquecida, refém de métodos obsoletos de governança e de uma estratégia de conciliação que, em 2025, já não encontra espaço na realidade política do país.

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Essa crise de identidade não é nova. O Partido dos Trabalhadores (PT) nasceu e cresceu sob a premissa de que era possível construir pontes entre interesses divergentes, unindo trabalhadores e empresários, mercado e desenvolvimento social. A fórmula funcionou durante os primeiros mandatos de Lula, quando o crescimento econômico e as políticas de inclusão social criaram um ciclo virtuoso de prosperidade. No entanto, como a história recente demonstrou, quando os ventos econômicos mudaram e os interesses de poder se sobrepuseram aos benefícios financeiros, a conciliação se tornou insustentável.

A armadilha histórica da conciliação

Desde o primeiro mandato de Lula, o PT investiu em alianças com setores historicamente antagônicos, apostando que o desenvolvimento econômico beneficiaria a todos. Nos anos 2000, quando a economia brasileira prosperava, essa aposta parecia certeira. O agronegócio crescia, o mercado financeiro lucrava, e milhões saíam da pobreza. A conciliação, por um tempo, foi um “bom negócio” para todos. Mas, como explicou o sociólogo Jessé Souza, “o problema da conciliação é que ela é uma promessa, e promessas não se sustentam sem resultados econômicos continuados.”

O governo Dilma Rousseff foi o divisor de águas. Sem o mesmo dinamismo econômico e com o fortalecimento de grupos conservadores, as alianças desmoronaram. O impeachment de Dilma em 2016, articulado por forças políticas que antes integravam sua base, como setores do agronegócio e do mercado financeiro, evidenciou os limites da conciliação. Como bem apontou o filósofo Marcos Nobre, “o golpe não foi apenas jurídico; foi a consequência de uma ruptura entre os interesses conciliados pelo PT e as ambições de poder que se tornaram incontroláveis.”

A volta de Lula ao Planalto em 2023 reacendeu a esperança de que o carisma e a habilidade política do ex-presidente fossem suficientes para enfrentar o avanço conservador. No entanto, como o próprio Lula reconheceu, ele não poderia impedir o impeachment de Dilma e, tampouco agora, será capaz de reverter sozinho o avanço dos grupos conservadores que dominam o Congresso e as redes sociais.

O novo cenário social e político

O Brasil de 2025 é bem diferente do de 2002. A sociedade mudou profundamente, impulsionada pelas transformações tecnológicas e pela ascensão de novos grupos sociais com demandas específicas. A classe trabalhadora endividada, os chamados “novos pobres”, não se identifica com as mesmas políticas que, no passado, tiraram milhões da miséria extrema. Como destacou a cientista política Esther Solano, “a esquerda perdeu o fio condutor que conectava suas políticas à experiência cotidiana das massas.”

Enquanto nos anos 2000 o governo Lula dialogava com a fome literal, oferecendo programas como o Bolsa Família, hoje enfrenta uma fome simbólica, ligada à perda de poder de compra, ao endividamento e à insegurança econômica. Esses fatores criam um terreno fértil para a desinformação e para o discurso de figuras como Nikolas Ferreira e outros líderes da direita, que conseguem manipular o descontentamento popular.

A “Crise do Pix” exemplifica esse ponto. O boato de que o governo estaria “monitorando” as transações bancárias rapidamente se espalhou e gerou pânico. O governo foi lento na resposta, deixando a narrativa crescer até se tornar um problema nacional. O episódio mostra o quanto a estratégia de comunicação do governo está defasada. Não há uma segmentação clara das mensagens, nem uma mobilização eficaz de influenciadores progressistas. Tudo parece girar em torno da figura do presidente, uma aposta centralizada que não condiz com a complexidade do cenário atual.

A fragilidade estrutural da esquerda

Essa centralização, aliada à falta de renovação partidária, enfraqueceu o campo progressista. O PT, que outrora era conhecido por seu “trabalho de base”, hoje sofre de uma “ossificação partidária”, como definiu André Singer, ex-porta-voz de Lula. Essa rigidez impede a renovação de lideranças e o desenvolvimento de novas estratégias de mobilização. Ao mesmo tempo, a fragmentação da esquerda, dividida por disputas internas e egos inflados, compromete qualquer esforço coletivo de enfrentamento ao avanço conservador.

O resultado é que o governo se vê encurralado no Planalto, negociando em condições desiguais com o Centrão e com os representantes dos setores conservadores. A base social que poderia fortalecer o governo está desmobilizada, e sem essa pressão popular, as negociações se tornam ainda mais desfavoráveis.

O caminho possível

Se há uma saída para essa crise, ela passa por uma mudança estrutural na forma como a esquerda se organiza e comunica. Não se trata apenas de aprimorar a comunicação governamental, mas de resgatar a mobilização popular e reconstruir as conexões com os setores mais afetados pela crise econômica. Isso implica a renovação de quadros políticos, a segmentação das mensagens e o uso estratégico das redes sociais para combater a desinformação.

Lula, como figura central, não pode mais carregar sozinho o peso da governabilidade. Como bem pontuou o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “a democracia não é apenas um sistema político, mas uma prática social que exige participação constante.” O sucesso do governo dependerá dessa participação e do esforço coletivo para reverter o cenário atual.

A esquerda brasileira está diante de um dilema histórico: ou se reinventa e encontra novos caminhos para mobilizar a sociedade, ou continuará refém de seus próprios erros. Sem mudanças, a conciliação, que um dia foi a base do sucesso, pode se tornar a lápide de um projeto político que transformou o Brasil, mas que hoje luta para sobreviver.

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