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Poder

Bolsonaro tenta driblar Lei da Ficha Limpa

Ex-presidente continua apelando para as fakes: desta vez o tema é o preço dos alimentos

Publicado em 06/02/2025 10:03 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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O desespero de quem vê o futuro político desmoronar pode ser um motor potente, mas nem sempre eficaz. Jair Bolsonaro, inelegível até 2030 por decisão da Justiça Eleitoral e com uma série de investigações criminais nas costas, tenta agora reescrever as regras do jogo. Com uma articulação na Câmara dos Deputados, o ex-presidente tenta reduzir de oito para dois anos a pena de inelegibilidade prevista pela Lei da Ficha Limpa. A estratégia, vista como um “golpe preventivo” contra novas derrotas eleitorais, revela não só a busca por sobrevida política, mas a dificuldade de um grupo que confunde anistia com absolvição.

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Articulada por uma base fiel, mas desgastada, a proposta é um reflexo direto do desprezo pelas instituições que caracterizou a gestão Bolsonaro. Sua inelegibilidade não é fruto de um evento isolado, mas do acúmulo de escândalos: falsificação de cartões de vacina, desvios de joias sauditas e, mais grave, a tentativa de golpe de Estado. Cada um desses casos está registrado em inquéritos no Supremo Tribunal Federal, e as previsões jurídicas não são animadoras para o ex-capitão. Se condenado, sua inelegibilidade pode se estender até meados da década de 2060. Para muitos, o projeto de mudança na Ficha Limpa não passa de uma tentativa desesperada de evitar uma lápide precoce sobre sua carreira política.

“A inclusão do desvirtuamento da Lei da Ficha Limpa no caldeirão do despautério é pior do que o esperado”, resume o cientista político Cláudio Couto, da FGV. Afinal, não se trata apenas de uma questão técnica de prazo, mas de um ataque simbólico a um dos pilares da moralidade política instituídos desde 2010. A tentativa de reescrever a lei revela uma visão deturpada do processo democrático, em que crimes são relativizados pela lógica de conveniência eleitoral.

Bonés e inflação: a guerra simbólica

Enquanto Bolsonaro luta para se manter relevante politicamente, seus apoiadores tentam construir narrativas alternativas no campo simbólico. Na abertura dos trabalhos legislativos de 2025, bolsonaristas apareceram com bonés estampados com a frase: “Comida barata novamente. Bolsonaro 2026”. Uma frase provocativa, mas longe da realidade.

Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), a inflação dos alimentos foi um pesadelo para as famílias brasileiras, especialmente as de baixa renda. Dados do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) mostram que, em três dos quatro anos de sua gestão, os preços dos alimentos subiram acima da média geral da inflação. Em 2020, sob o impacto da pandemia, a alta foi de 14%, impulsionada pelo aumento de itens básicos como arroz, óleo de soja e batata. Nessa época, ao ser questionado sobre o preço elevado do arroz, Bolsonaro ironizou: “É só parar de comer”.

O resultado dessa política negligente foi sentido diretamente no prato do brasileiro. Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o desmonte dos estoques reguladores contribuiu para a volatilidade dos preços. O governo Lula, ao assumir, fez da reconstrução desses estoques uma prioridade, mas as condições climáticas adversas em 2024 dificultaram a estabilização dos preços.

A inflação dos alimentos no governo Lula 3, embora em recuperação gradual, enfrenta um cenário ainda delicado. Em 2024, itens como carne, café e leite longa vida registraram altas expressivas. Especialistas apontam múltiplos fatores: o ciclo pecuário, que após dois anos de abates intensos reduziu a oferta de bois; as secas prolongadas que prejudicaram os pastos; e o aumento das exportações, especialmente para a China. “O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo. Isso traz divisas importantes, mas pressiona o mercado interno”, explica o economista José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília.

Os bolsonaristas, ao usar o boné com a promessa de comida barata, tentam reescrever a história recente, ignorando a responsabilidade de sua própria gestão pela escalada inflacionária. Em resposta, aliados de Lula lançaram um boné azul com os dizeres: “O Brasil é dos brasileiros”, em uma tentativa de recuperar o discurso popular. A estratégia de comunicação partiu de Sidônio Palmeira, o marqueteiro responsável por realinhar a narrativa governamental em um momento de pressão inflacionária.

Lula e o desafio de estabilizar os preços

No primeiro ano do governo Lula 3, a inflação de alimentos foi contida, registrando 1,03% no IPCA e 0,33% no INPC, índices consideravelmente baixos. No entanto, em 2024, as condições climáticas desfavoráveis e a alta do dólar dificultaram a tarefa de manter os preços sob controle. A inflação dos alimentos chegou a 7,69% pelo IPCA, superando a marca de 6,37% registrada no primeiro ano de Bolsonaro. O governo petista sabe que conter os preços da comida é fundamental não apenas para aliviar a pressão sobre os lares mais pobres, mas também para preservar o capital político.

Reuniões ministeriais foram intensificadas desde janeiro, e a formação de uma força-tarefa interministerial busca medidas coordenadas para garantir o abastecimento e reduzir a volatilidade dos preços. Segundo o economista Marcio Pochmann, o aumento da renda das famílias, combinado com políticas de subsídio à produção, é uma estratégia-chave para evitar que a inflação alimentar volte a ser uma dor de cabeça permanente.

O futuro em jogo

O embate entre bolsonaristas e o governo Lula transcende o campo econômico. A tentativa de Bolsonaro de reescrever a Lei da Ficha Limpa é um sintoma de uma crise maior: o embate sobre o papel das instituições democráticas no Brasil. Se, por um lado, a Justiça tem imposto limites ao bolsonarismo, por outro, os desafios econômicos testam a capacidade do governo Lula de manter o apoio popular.

Em última análise, o Brasil encontra-se em uma encruzilhada. O desespero bolsonarista de reverter punições legais e o esforço governamental de estabilizar os preços da comida simbolizam duas visões de país em disputa: uma que despreza a institucionalidade e outra que luta para reafirmá-la.

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