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Poder
Tarcísio entre o cinismo e a lealdade: a fatura do pedágio ao bolsonarismo
Publicado em 30/05/2025 10:07 - Semana On
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Num Brasil ainda marcado pelas feridas do 8 de janeiro de 2023, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, escolheu seu lado ao depor como testemunha de defesa de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. Em vez de reafirmar a importância da democracia e da responsabilização institucional, optou por um discurso evasivo, tecnicamente inócuo, mas politicamente simbólico. A postura revela mais do que fidelidade: expõe o cinismo que contamina parcelas significativas da direita brasileira em sua tentativa de normalizar o inominável.
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Ao se apresentar como testemunha de defesa no processo contra Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, Tarcísio de Freitas fez o que muitos já esperavam — mas ainda assim, não sem provocar espanto: reiterou sua fidelidade política ao ex-presidente. A despeito do discurso tecnocrático e moderado que tenta cultivar desde que assumiu o governo de São Paulo, Tarcísio se revelou, mais uma vez, uma criatura do bolsonarismo — e, portanto, refém dele.
O governador, que sonha com a Presidência da República em 2026 ou 2030, prestou um depoimento de utilidade jurídica quase nula, como tantos outros que o precederam na linha de defesa do ex-presidente. Declarou que não teve conhecimento de qualquer movimentação golpista, isentou Bolsonaro de responsabilidade sobre os ataques às sedes dos Três Poderes e afirmou que o então presidente estava fora do país — como se a distância física fosse, por si só, uma absolvição.
Segundo a Polícia Federal, no entanto, Bolsonaro participou ativamente dos preparativos do golpe, inclusive por meio de reuniões realizadas em novembro de 2022 no Palácio da Alvorada — local visitado por Tarcísio nesse mesmo período. A alegação de ignorância, nesse contexto, não convence. Como bem lembrou o jornalista Jânio de Freitas, “a desinformação estratégica é um artifício comum ao autoritarismo em sua versão contemporânea, digital e cínica”.
Mais do que defender o indefensável, o governador recorreu a um artifício clássico do jogo político: falar o mínimo para sinalizar o máximo. Não atacou o STF, tampouco inflamou os ânimos da base bolsonarista com denúncias de perseguição judicial — mas foi o suficiente para manter seu nome no radar do “mito”. A equação é clara: para viabilizar-se como sucessor da extrema direita, Tarcísio precisa do selo de aprovação de Bolsonaro, mesmo que isso custe sua biografia e sua reputação como gestor técnico.
Nas redes sociais e em eventos públicos, Tarcísio tem sido menos tímido. Em novembro de 2023, publicou em seu perfil no X (antigo Twitter): “Há uma narrativa disseminada contra o presidente Jair Bolsonaro e que carece de provas. É preciso ser muito responsável sobre acusações graves como essa”. Ignorou, propositadamente, os fatos amplamente documentados, inclusive pelas investigações da Polícia Federal e da CPMI do 8 de Janeiro.
Essa estratégia de ambiguidade calculada tem raízes históricas. Desde a redemocratização, figuras políticas da direita brasileira tentam se equilibrar entre o verniz democrático e os flertes autoritários. A diferença, no caso de Tarcísio, é que o autoritarismo não está mais à sombra: está no centro da disputa política. E ao minimizar a gravidade do 8 de janeiro, o governador naturaliza o inaceitável, tornando-se cúmplice da degradação institucional.
A filósofa Hannah Arendt alertou, em sua obra Eichmann em Jerusalém, para os perigos da “banalidade do mal” — a ideia de que atos terríveis podem ser perpetrados por indivíduos comuns, não necessariamente movidos por ideologias radicais, mas por uma combinação de obediência, conveniência e oportunismo. Tarcísio, ao escolher não confrontar o golpismo, inscreve-se nessa lógica.
O preço dessa escolha pode ser alto. Políticos como Valdemar da Costa Neto já cogitam que Bolsonaro preso vale mais que solto — o que implica que o apoio do ex-presidente, longe de ser garantia de continuidade, pode transformar-se num beco sem saída para seus herdeiros políticos. A fidelidade de Tarcísio, portanto, pode acabar sendo moeda vencida.
Politicamente, o que se vê é um conservadorismo sem coragem, disposto a tolerar rupturas democráticas desde que sejam úteis ao cálculo eleitoral. A direita que se diz moderna e racional — e que Tarcísio, em tese, representa — perde a oportunidade de construir uma alternativa republicana ao bolsonarismo e acaba sendo engolida por ele.
Enquanto isso, a democracia brasileira, ainda frágil e marcada por retrocessos, assiste a mais um capítulo da sua precarização simbólica. O 8 de janeiro não foi um raio em céu azul. Foi o desfecho de anos de ataques à institucionalidade, ao Estado de Direito e à verdade factual. Fingir que não houve tentativa de golpe é colaborar para que ele, um dia, triunfe.
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