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Poder
A estratégia de repassar investigações sobre golpistas para a Justiça comum é uma tentativa de reduzir o desgaste das Forças Armadas.
Publicado em 10/01/2025 10:07 - Semana On
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Dois anos após a tentativa de golpe de 8 de janeiro, que abalou as sedes dos Três Poderes em Brasília, as investigações sobre o envolvimento de militares seguem marcadas pela falta de transparência das Forças Armadas. Enquanto a Polícia Federal (PF) e o Supremo Tribunal Federal (STF) centralizam a responsabilização dos envolvidos, as instituições militares optaram por um caminho de discrição e terceirização das punições. A postura evidencia um padrão histórico: a dificuldade do Brasil em enfrentar a impunidade de seus agentes de farda.
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A estratégia de repassar investigações para a Justiça comum parece ser uma tentativa de reduzir o desgaste das Forças Armadas. A Marinha, o Exército e a Aeronáutica abriram procedimentos administrativos internos, mas os resultados foram escassos. Relatórios da PF revelam que militares não apenas participaram das invasões, mas chegaram a elaborar planos para assassinar líderes como o presidente Lula, o vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes. Ainda assim, as Forças Armadas não divulgaram dados sobre o número de investigados ou punidos, demonstrando uma falta de compromisso com a transparência.
Essa omissão contrasta com a magnitude das acusações. Dos 40 indiciados pela PF, 27 são militares, muitos de alta patente. Como destacou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, “é necessário separar a instituição das pessoas”. Contudo, a perpetuação de uma cultura de impunidade dentro das Forças Armadas levanta questionamentos sobre o papel das instituições militares em um regime democrático.
Um histórico de impunidade e seus reflexos
A história brasileira é repleta de episódios que ilustram a falta de responsabilização dos militares. Desde o golpe de 1964, que instaurou uma ditadura de 21 anos, até os abusos cometidos durante aquele período, a ausência de justiça para crimes cometidos sob o pretexto da segurança nacional é um ponto de crítica constante. Bianca Santana, jornalista e ativista, enfatiza que “enquanto a gente não responsabilizar os militares pelos crimes que eles cometem, eles vão repetir”. Esse padrão histórico de impunidade não é apenas um legado do passado, mas uma ferida aberta que continua a desafiar a consolidação democrática.
O verde-amarelismo como máscara
O apelo aos símbolos patrióticos é outra dimensão do problema. Como explica o jornalista Leandro Demori, os militares frequentemente se beneficiam de uma visão idílica que associa a farda à disciplina, austeridade e patriotismo. Esse “verde-amarelismo”, utilizado para mobilizar parte da população, mascara interesses políticos e a instrumentalização de instituições para agendas autoritárias. O retorno recorrente desses símbolos durante crises institucionais revela como a narrativa militar se insere no imaginário popular como solução redentora, mesmo quando associada a momentos de ruptura democrática.
As forças armadas e a democracia: uma relação em construção
O protagonismo dos militares na política brasileira tem sido um desafio desde a redemocratização. A transição para o regime civil em 1985 não resultou em reformas estruturais nas Forças Armadas ou na educação de seus quadros. Como apontado por Juliana Dal Piva, “o país erra ao não reformar as instituições que preparam esses militares”. Essa falha perpetua um ethos autoritário que ameaça a estabilidade democrática.
Por outro lado, especialistas reconhecem que as Forças Armadas não são monolíticas. Antonio Tabet, publicitário e comentarista, ressalta que “o golpe de fato só não aconteceu porque alguns militares foram ponta firme”. Essa distinção é crucial para evitar generalizações e fortalecer o diálogo democrático. No entanto, é preciso avançar para que o conjunto das instituições militares atue como guardião da Constituição e não como ator político.
Um futuro de desafios e oportunidades
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta o desafio de nomear um novo ministro da Defesa em um momento crítico. A eventual saída de José Múcio Monteiro simboliza o encerramento de uma gestão marcada por conciliação, mas também por dificuldades em enfrentar diretamente as tensões entre militares e o governo civil. Entre os nomes cotados, figuras como Alexandre Padilha e Jaques Wagner refletem opções que podem moldar a relação entre as Forças Armadas e a democracia nos próximos anos.
Enquanto isso, a sociedade brasileira precisa decidir se continuará a tolerar a impunidade ou se exigirá reformas profundas. Como disse o ministro Gilmar Mendes, “o Brasil precisa debater com coragem o papel dos militares no arranjo político”. Essa coragem passa por enfrentar as verdades incômodas do passado e construir uma base sólida para o futuro.
A democracia como um ser vivo
A democracia brasileira, que se aproxima de 40 anos de vigência ininterrupta, é uma conquista que precisa ser constantemente nutrida e protegida. Os eventos de 8 de janeiro são um lembrete de sua fragilidade, mas também de sua resiliência. Resta saber se as instituições terão maturidade para transformar este momento em aprendizado e justiça, fortalecendo os pilares de um país que ainda busca seu equilíbrio entre passado e futuro.
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