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Poder
Do julgamento de terroristas à responsabilização de líderes e financiadores, o Brasil encara o dilema de proteger sua democracia sem concessões à impunidade
Publicado em 09/01/2025 10:07 - Semana On
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Dois anos depois da tentativa de golpe que marcou o 8 de janeiro de 2023, o Brasil ainda busca respostas contundentes para assegurar que episódios semelhantes nunca mais se repitam. Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) acelera julgamentos, com 229 executores e 55 incitadores já condenados, os responsáveis intelectuais e financiadores da insurreição permanecem fora das grades, alimentando incertezas quanto à consolidação democrática do país.
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O ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado como peça-chave na mobilização que culminou nos atos de vandalismo e terror contra o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, segue em liberdade, numa aparente contradição que ameaça o simbolismo e a eficácia da Justiça brasileira. O ritmo desigual entre a punição dos executores e a responsabilização de líderes como Bolsonaro evidencia uma lacuna perigosa: a raiz do problema permanece intocada.
O papel de Bolsonaro e os financiadores do golpe
O inquérito da Polícia Federal, que incrimina Bolsonaro pela tentativa de golpe, revela que os atos de 8 de janeiro não foram espontâneos, mas sim o ápice de anos de desinformação, manipulação política e um fluxo ininterrupto de financiamento privado. Empresários ligados ao agronegócio e a outros setores da elite bolsonarista foram identificados como patrocinadores, tanto do tumulto que antecedeu os ataques quanto de ações conspiratórias que incluíram, segundo relatos, planos para assassinar figuras-chave como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes.
O psicanalista Tales Ab’Sáber descreveu os eventos como uma “revolução imaginária”, fruto do fanatismo da extrema-direita, que encontrou no discurso ambíguo de Bolsonaro e na omissão de autoridades de segurança o terreno fértil para se manifestar. “A dimensão popular alimentada pelo senhor do golpe não caiu, mesmo com sua fuga para os EUA antes da posse de Lula”, observou Ab’Sáber, ressaltando o impacto simbólico do ex-presidente sobre os seguidores.
Christian Dunker, professor de Psicologia da USP, complementa a análise ao descrever a atmosfera nos acampamentos bolsonaristas como messiânica e desesperadora. “Muitas dessas pessoas estavam solitárias, endividadas, e encontraram ali uma unidade delirante, alimentada pelo negacionismo histórico e pelo medo de fantasmas como o comunismo.”
A justiça internacional e os foragidos
No campo jurídico, a busca por 64 foragidos condenados pelo STF reacende debates sobre a eficácia do sistema de Justiça. A contratação de advogados internacionais pela Advocacia-Geral da União (AGU) para tratar de processos de extradição é um movimento inédito e necessário para evitar que crimes contra a democracia fiquem impunes. Ainda assim, especialistas apontam para a necessidade de maior articulação entre os poderes para garantir que as punições sejam rápidas e exemplares.
O ministro Edson Fachin, vice-presidente do STF, reiterou a importância de punir todos os envolvidos. “Existimos na democracia, vivemos pela democracia, e dela jamais desistiremos. A violência contra o pacto democrático deve ser sancionada pela Constituição.”
O Legado do 8 de Janeiro
A cerimônia organizada ontem (8) pelo governo federal para marcar os dois anos do ataque trouxe um tom de alerta e compromisso. O presidente Lula evocou o filme Ainda Estou Aqui para reforçar a resiliência da democracia brasileira. “Estamos vivos, e a democracia está viva. Precisamos lembrar para que nunca mais aconteça”, disse.
A restauração das obras de arte vandalizadas nos prédios públicos foi simbólica, mas a memória por si só não basta. Como alertou Fachin, “lembrar o horror do autoritarismo é fundamental, mas garantir a responsabilização dos culpados é imperativo”.
Riscos da Impunidade e Caminhos para o Futuro
A hesitação em punir Bolsonaro e seus financiadores tem consequências práticas e simbólicas. A manutenção de sua liberdade reforça a percepção de que líderes populistas podem desafiar a democracia sem enfrentar consequências reais. A mensagem, portanto, é clara: sem ações concretas, o Brasil corre o risco de normalizar o autoritarismo e alimentar o extremismo político.
O Brasil precisa equilibrar memória e ação. O devido processo legal deve ser respeitado, mas o tempo da Justiça não pode se tornar aliado da instabilidade política. Jair Bolsonaro e seus financiadores atrás das grades seriam não apenas um triunfo do Estado de Direito, mas também um recado contundente: no Brasil, a democracia não se dobra diante do autoritarismo.
Dois anos após a tentativa de golpe, prossegue a luta pela reconstrução do Brasil
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