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Poder

Gabinete de Moraes nega troca de mensagens com Daniel Vorcaro

Entenda os principais pontos do escândalo do Master e como ele se espalha pelo poder

Publicado em 07/03/2026 12:07 - Semana On

Divulgação STF

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O gabinete do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou que ele tenha sido o destinatário de mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro em 17 de novembro de 2025. Em nota divulgada na noite de ontem, a assessoria do tribunal afirmou que uma análise técnica dos dados telemáticos do executivo indicaria que os contatos associados às mensagens não correspondem ao número de telefone do magistrado.

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A manifestação ocorreu após reportagem publicada pelo jornal O Globo revelar supostas trocas de mensagens entre Vorcaro e Moraes por meio do WhatsApp. Segundo o jornal, os contatos teriam ocorrido no mesmo dia em que o banqueiro foi preso durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, enquanto tentava embarcar para Dubai.

De acordo com a reportagem, as mensagens teriam sido enviadas no formato de visualização única, recurso que impede o armazenamento permanente da conversa. Ainda segundo o veículo, os interlocutores teriam escrito os textos em um bloco de notas e compartilhado as imagens com esse mecanismo de autodestruição. Parte dessas anotações, porém, acabou sendo recuperada posteriormente.

O material divulgado pelo jornal inclui nove mensagens atribuídas a Vorcaro. Em uma delas, enviada poucas horas antes da prisão, o banqueiro teria questionado: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, em referência à possível execução da ordem judicial contra ele.

A investigação conduzida pela Polícia Federal aponta que Vorcaro teria tido acesso antecipado a informações de um inquérito que tramitava contra ele na Justiça Federal em Brasília. As mensagens divulgadas indicariam ainda discussões sobre tentativas de preservar o Banco Master, instituição posteriormente liquidada pelo Banco Central após a deflagração da operação.

Em resposta às reportagens, o gabinete de Moraes afirmou que os registros analisados não associam as mensagens ao telefone do ministro. Segundo a nota, os prints extraídos do celular de Vorcaro aparecem vinculados a pastas relacionadas a outros contatos presentes na lista do executivo, e não ao magistrado.

A nota também sustenta que, nos arquivos apreendidos, as imagens das mensagens estão armazenadas em diretórios associados a números distintos do de Moraes. “Fica demonstrado que as mensagens (prints) estão vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro, jamais ao ministro Alexandre de Moraes”, afirma o texto.

O STF informou que a conclusão se baseia em uma “análise técnica” dos dados telemáticos tornados públicos pela CPMI do INSS, mas não detalhou quem realizou o exame nem quais parâmetros foram adotados. Também não esclareceu de que forma o gabinete teve acesso ao material, que integra um conjunto de documentos sob sigilo no Congresso Nacional.

Os nomes dos contatos associados aos arquivos não foram divulgados. Segundo o gabinete do ministro, a omissão ocorre em razão do sigilo decretado pelo ministro André Mendonça sobre parte do material disponibilizado à comissão parlamentar.

Entenda o escândalo

A nova etapa da Operação Compliance Zero provocou uma reviravolta no caso que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro e o colapso do Banco Master, ampliando a dimensão judicial, política e institucional da investigação conduzida pela Polícia Federal.

Na quarta-feira, Vorcaro voltou a ser preso por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo, relator do inquérito. A decisão marcou o início de uma nova fase da operação, que também resultou na prisão de outros três investigados.

A primeira detenção do empresário havia ocorrido em novembro do ano passado, quando ele foi interceptado pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar em um avião particular. Na ocasião, o celular do banqueiro foi apreendido e passou a integrar o conjunto de provas analisadas pelos investigadores. O caso envolvia suspeitas de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa.

Pouco depois da operação inicial, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e determinou a indisponibilidade dos bens de controladores e ex-administradores da instituição. A prisão preventiva de Vorcaro, contudo, foi revogada cerca de dez dias depois pelo Tribunal Regional Federal, que substituiu a medida por monitoramento com tornozeleira eletrônica.

O processo sofreu nova reviravolta institucional quando a defesa do banqueiro levou o caso ao STF. O ministro Dias Toffoli chegou a assumir a relatoria em dezembro, mas se declarou impedido em janeiro, um dia após a Polícia Federal enviar ao presidente da Corte, Edson Fachin, um relatório que mencionava seu nome no contexto da investigação. O episódio ocorreu em meio a questionamentos sobre supostos vínculos do magistrado com pessoas relacionadas ao banco.

Morte de investigado sob custódia

Outro desdobramento que intensificou a repercussão do caso foi a morte de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pela Polícia Federal como integrante de um suposto grupo ligado a Vorcaro. Nos documentos da investigação, Mourão aparecia com o codinome “Sicário”.

Segundo a PF, ele era suspeito de integrar uma estrutura informal usada para monitorar e intimidar adversários empresariais, ex-funcionários e jornalistas ligados às investigações sobre o banco.

Preso na mesma operação da quarta-feira, Mourão teria tentado suicídio horas depois de chegar à Superintendência Regional da Polícia Federal. Ele foi socorrido e levado a um hospital em Belo Horizonte, mas sua morte foi confirmada dois dias depois por sua defesa.

A Polícia Federal abriu um procedimento para apurar as circunstâncias do caso. De acordo com o diretor-geral da instituição, Andrei Rodrigues, todo o atendimento prestado ao investigado foi registrado por câmeras de segurança, sem interrupções nas gravações.

Conteúdo do celular amplia alcance da investigação

Parte central das apurações se concentra nas informações extraídas do celular de Vorcaro. A decisão que autorizou sua nova prisão já indicava indícios de comunicação entre o banqueiro e servidores do Banco Central.

Os investigadores suspeitam que funcionários da autoridade monetária teriam fornecido orientações estratégicas sobre decisões envolvendo o Banco Master. Entre os citados estão Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do Banco Central, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária. Na decisão judicial, Mendonça afirma que Santana atuaria, na prática, como um “empregado” de Vorcaro.

O material também passou a ter impacto político. Parte dos documentos foi enviada à CPMI do INSS, que investiga operações envolvendo empréstimos consignados para aposentados e pensionistas — mercado no qual o Banco Master também atuava.

Embora a decisão do STF previsse apenas o compartilhamento de dados relacionados ao tema do INSS, o conjunto encaminhado à comissão continha conversas mais amplas, que posteriormente foram divulgadas à imprensa.

Conversas citam políticos e autoridades

Entre os diálogos extraídos do celular do banqueiro, há referências a contatos com autoridades da política e do Judiciário.

Em mensagens trocadas com sua namorada, a influenciadora Martha Graeff, Vorcaro menciona o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, a quem descreve como “um dos meus grandes amigos de vida”. Em outra conversa, ele comenta uma proposta legislativa apresentada pelo parlamentar que, segundo ele, teria potencial de provocar forte impacto no mercado financeiro.

A iniciativa mencionada era uma emenda à proposta de autonomia do Banco Central que sugeria elevar o limite de garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A medida não avançou no Congresso.

As mensagens também registram referências a um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrido em dezembro de 2024. O encontro já havia sido revelado pela imprensa e teria ocorrido fora da agenda oficial, com participação do então indicado à presidência do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Segundo a Secretaria de Comunicação da Presidência, Vorcaro relatou ao presidente preocupações sobre concentração no sistema bancário, e Lula teria indicado que o tema deveria ser tratado tecnicamente.

Nos diálogos, o banqueiro também critica Bolsonaro após o ex-presidente repercutir notícias negativas sobre o Banco Master nas redes sociais.

Ascensão e queda do Banco Master

Fundado em 2018, o Banco Master ganhou espaço no mercado financeiro ao oferecer títulos com juros elevados e ao investir em empresas com dificuldades financeiras. A estratégia permitiu rápido crescimento da instituição, mas também gerou desconfiança entre analistas e concorrentes.

Em meio a questionamentos sobre a capacidade do banco de honrar compromissos — especialmente certificados de depósito bancário (CDBs) — surgiram negociações para a venda da instituição. O BRB, banco público do Distrito Federal, chegou a anunciar a intenção de adquirir o controle do Master por cerca de R$ 2 bilhões.

A operação recebeu aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da Câmara Legislativa do Distrito Federal, com apoio do governador Ibaneis Rocha. A transação, porém, acabou barrada pelo Banco Central, que apontou dúvidas sobre a viabilidade econômico-financeira do negócio.

As investigações da Polícia Federal tiveram início em 2024, a pedido do Ministério Público Federal, e apuram a possível emissão de carteiras de crédito consideradas fictícias. Segundo os investigadores, esses ativos teriam sido vendidos a outra instituição financeira e posteriormente substituídos por outros papéis sem avaliação técnica adequada após fiscalização do Banco Central.

A liquidação extrajudicial do Banco Master levou à ativação do Fundo Garantidor de Créditos, mecanismo que protege depositantes e investidores até o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. Valores acima desse teto dependerão do processo de liquidação e venda de ativos da instituição.

Enquanto isso, outra empresa do conglomerado, o Master Múltiplo, permanece sob regime de administração especial temporária, medida adotada pelas autoridades para tentar preservar a viabilidade de parte das operações do grupo.

DE CABO A RABO


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