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Poder
Bolsonaristas confundam reafirmação da legalidade com “acenos”
Publicado em 28/03/2025 8:29 - Semana On
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Num Brasil em que o bolsonarismo transformou fake news em método de governo e a negação da realidade em programa político, bastou o ministro Luiz Fux expressar dúvidas técnicas durante um julgamento no STF para que a extrema direita o saudasse como novo aliado.
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Em meio ao avanço das ações penais contra os articuladores do golpe de 2023, a súbita empolgação da base radical com palavras que, lidas com um mínimo de honestidade, reafirmam o Estado de Direito, revela não só a fragilidade intelectual do bolsonarismo, mas também sua disposição constante de manipular tudo — até mesmo o que lhes é contrário.
Fux, a toga e o delírio coletivo
Na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux ousou fazer o que todo bom magistrado deve: ponderar. Questionou a consistência da delação de Mauro Cid e sugeriu rever a pena de 14 anos imposta por Alexandre de Moraes à cabeleireira Denise, que escreveu com batom “perdeu, mané” na estátua da Justiça durante os atos golpistas de 8 de janeiro. Bastou. Em tempo recorde, bolsonaristas vislumbraram “luz no fim do túnel” e decretaram: Fux estaria acenando ao bolsonarismo.
Mas o entusiasmo durou pouco. No mesmo julgamento, Fux compôs unanimidade para transformar em ação penal a denúncia contra o “núcleo crucial” da organização criminosa que tentou o golpe. E foi além: elogiou o voto de Moraes, afirmando que o colega “não deixou pedra sobre pedra”. Ainda recordou o dia em que, como presidente do STF, enfrentou ameaças de invasão por caminhoneiros bolsonaristas. “Tenho esperança de que o país continuará a viver um Estado Democrático de Direito”, declarou — frase que, para quem insiste em confundir crítica técnica com cumplicidade política, deveria soar como alerta.
O detalhe que os entusiastas do “novo Fux” ignoraram: divergências dentro do Supremo fortalecem o tribunal, não os réus. Como destaca o jornalista Josias de Souza, “a força do direito, bem calibrada, deve superar a presunção de que se dispõe do direito da força”.
Delação frágil, provas sólidas
O caso Mauro Cid é exemplar. Ao duvidar da qualidade da delação, Fux se junta a Cármen Lúcia e Cristiano Zanin — um trio improvável de “bolsonaristas” segundo a nova lógica delirante da extrema direita. O que está em jogo não é a absolvição de Bolsonaro, mas a qualificação da prova. Mesmo se o acordo de colaboração for anulado, as provas obtidas continuam válidas, conforme prevê a Lei nº 12.850/2013.
A preocupação com a dosimetria das penas também não é uma concessão à extrema direita, mas um cuidado elementar do Estado Democrático. Há um abismo entre a pena de 14 anos proposta a Denise e as punições de 5 e 9 anos impostas a golpistas que tentaram explodir um caminhão-tanque em Brasília. Se o Judiciário deseja manter sua legitimidade, precisa demonstrar que a Justiça não age como vingança — mesmo quando julga criminosos que atentaram contra a própria existência da República.
O “sopro” de Gonet e a recaída de Aras
Enquanto o STF avança contra os articuladores do golpe, a Procuradoria-Geral da República dá sinais contraditórios. Paulo Gonet, após endossar a responsabilização de Bolsonaro pelo golpe, surpreendeu ao arquivar o caso da fraude no cartão de vacina. A justificativa: falta de elementos para denunciar o ex-presidente.
Curiosamente, os mesmos elementos já haviam sido considerados robustos pela Polícia Federal, que seguiu o rastro da falsificação desde o Planalto até o aplicativo do SUS. Mauro Cid, o braço-direito de Bolsonaro, não hesitou em dizer que forjou os certificados de imunização por ordem direta do ex-presidente. A operação foi realizada às vésperas da viagem de Bolsonaro para a Flórida — viagem, aliás, feita como se o Brasil fosse um reality show e ele, um exilado voluntário da própria consciência.
O despacho do ministro Alexandre de Moraes é cristalino: “Não é crível” que Cid tenha agido sem a “ciência e anuência” de Bolsonaro. A decisão de Gonet parece ecoar a velha PGR de Augusto Aras, apelidado nos corredores do STF de “engavetador-geral da República”. Para o jurista Oscar Vilhena Vieira, professor da FGV Direito SP, “a PGR deve ser o guardião da legalidade, e não um escudo político para o Executivo” (El País, 03/06/2021). A ver.
Lula avança, mas precisa falar mais alto
No mesmo tabuleiro em que a extrema direita distorce falas do Supremo e a PGR escorrega em decisões dúbias, o governo Lula busca consolidar sua imagem. Segundo o Ipespe, sua aprovação subiu de 39% para 41%. É pouco, mas significativo, considerando o cerco da desinformação e a herança de um país desmobilizado.
A resposta do governo vem em forma de comunicação. A nova campanha “O Brasil dando a volta por cima” mira a disputa de narrativas — terreno onde a extrema direita nada de braçada. A ideia é simples, mas poderosa: mostrar que o Estado pode ser eficiente, justo e inclusivo.
Entre os pilares da campanha estão a isenção de IR para salários até R$ 5 mil, o fortalecimento da marca “Brasil dos Brasileiros” e a divulgação de programas como o Pé-de-Meia e a Farmácia Popular. Um esforço para dizer ao povo o que, às vezes, a esquerda esquece: governar também é comunicar. E numa era de algoritmos e verdades líquidas, quem não comunica, some.
A ironia como último recurso da sanidade
O episódio das falas de Fux é mais um capítulo tragicômico da política brasileira. Não há surpresa em ver a extrema direita agarrada a qualquer fiapo de esperança — mesmo quando esse fiapo é, na verdade, uma corda estendida pela Justiça para amarrar de vez os escombros do bolsonarismo.
A lição, talvez, esteja na necessidade de resgatar o óbvio: divergência técnica não é aliança política. Crítica à dosimetria não é absolvição. E esperança de impunidade não é prova de inocência. Como dizia o filósofo Karl Popper, “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”. O STF, por ora, parece ter entendido o recado. A extrema direita, como sempre, prefere fingir que não.
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