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Após Eduardo flertar com sanções e intervenção estrangeira, o irmão repete o gesto ao propor bombardeios em águas brasileiras
Publicado em 23/10/2025 5:59 - Semana On
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Em uma declaração que flerta abertamente com a traição à pátria, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sugeriu que os Estados Unidos realizem operações militares na costa do Rio de Janeiro para atacar embarcações supostamente ligadas ao tráfico de drogas. O gesto, que ignora princípios constitucionais, normas internacionais e coloca civis em risco, escancara a disposição do bolsonarismo em submeter a soberania brasileira aos interesses — e armas — de uma potência estrangeira.
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A declaração foi publicada por Flávio nas redes sociais, em resposta a uma postagem do ex-secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, sobre o bombardeio de uma embarcação envolvida com narcotráfico. O senador escreveu: “Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”
O comentário foi feito sem rodeios: um parlamentar brasileiro pedindo, publicamente, que militares estrangeiros bombardem território nacional.
Mais do que um gesto isolado, trata-se de uma repetição do padrão bolsonarista: Eduardo Bolsonaro já havia pedido a interferência do governo Trump para pressionar instituições brasileiras e influenciar decisões políticas internas. A resposta dos EUA, à época, foi clara: sanções econômicas e tarifas contra produtos brasileiros — um tarifaço que prejudicou empresas, trabalhadores e a imagem do Brasil.
How envious!
I heard there are boats like this here in Rio de Janeiro, in Guanabara Bay, flooding Brazil with drugs.
Wouldn’t you like to spend a few months here helping us fight these terrorist organizations? https://t.co/mT6mZ2wAvu— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) October 23, 2025
Soberania não é uma figura de retórica
O jurista e ex-desembargador Wálter Maierovitch classificou a fala de Flávio como “ignorância crassa” ao direito constitucional e internacional. Segundo ele, “pela nossa Constituição, integram o conceito de soberania as nossas 12 milhas marítimas, cerca de 22 km de mar territorial. À luz do direito internacional — e basta atentar para a Convenção das Nações Unidas de 1982 — um Estado não pode invadir o mar territorial de outro. Simples assim”.
Ou seja, além de perigosa, a proposta de Flávio é juridicamente absurda. Permitir que embarcações militares dos EUA operem no Brasil violaria diretamente tratados internacionais e transformaria o país, na prática, em um protetorado estrangeiro — uma degradação completa da autonomia nacional.
O projeto de rendição bolsonarista
O apelo por intervenção estrangeira tem um nome no vocabulário político: rendição. Incapazes de formular políticas públicas eficazes, os parlamentares do clã Bolsonaro optam por uma saída performática, midiática e perigosamente irresponsável.
A guerra às drogas, tema complexo que exige cooperação institucional, inteligência policial, investimento social e combate às milícias, é reduzida por Flávio a um espetáculo de mísseis e fumaça — como se o lançamento de bombas em território urbano fosse uma resposta viável ao narcotráfico.
E quem pagaria esse preço? A população civil do Rio de Janeiro. É possível imaginar o ataque a um morro? Dá para imaginar a quantidade de civis mortos numa situação como essa?
Latino-americanos já viram esse filme — e o final é sempre trágico
A história da América Latina oferece exemplos abundantes dos riscos da tutela militar estrangeira. Da Colômbia ao Panamá, passando por intervenções dos EUA em El Salvador e Guatemala, os resultados foram catastróficos: destruição de infraestrutura, mortes de civis, fortalecimento de cartéis e desestabilização política.
Nenhuma dessas operações representou uma solução duradoura. Pelo contrário: criaram dependência, agravaram desigualdades e destruíram instituições democráticas.
Traição como prática política
As falas de Flávio e Eduardo não são apenas simbólicas. Elas revelam um padrão de comportamento político. Quando Eduardo Bolsonaro pediu ajuda a Donald Trump para interferir no Brasil, o resultado foi a aplicação da Lei Magnitsky contra aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, além de restrições comerciais que afetaram diretamente a economia nacional.
Agora, Flávio repete o gesto com um verniz de combate ao crime, mas com o mesmo objetivo: criar uma narrativa onde o Brasil é incapaz de se governar e só pode ser “salvo” com o auxílio de potências estrangeiras — de preferência, da extrema-direita americana.
Um país, um projeto, uma farsa
O bolsonarismo segue performando patriotismo enquanto age contra a pátria. É o projeto de poder de quem aposta no colapso das instituições e da soberania para legitimar sua própria relevância política.
Trata-se de um populismo que se recusa a governar, mas se especializou em implodir pontes — com o Judiciário, com o Legislativo, com a imprensa, com a diplomacia internacional e, agora, com o próprio território nacional.
O que Flávio Bolsonaro propõe não é combate ao crime: é espetáculo para as redes sociais, é provocação para consumo interno e, principalmente, é subserviência travestida de bravura.
A guerra às drogas exige inteligência, ação coordenada e enfrentamento da promiscuidade entre o poder público e o crime organizado — especialmente no Rio de Janeiro, onde milícias e narcotráfico já contam com cobertura institucional.
Mas, como bem pontuou o cientista político Christian Lynch, “a extrema-direita brasileira não tem projeto de país, tem projeto de se manter no poder mesmo que seja à custa do país”.
Trump, “narcoterrorismo” e a militarização do discurso no continente
A sugestão de Flávio Bolsonaro não ocorre em um vácuo geopolítico. Ela se encaixa, com desconcertante precisão, na escalada militarista promovida por Donald Trump, que retomou em seu discurso político a retórica do “narcoterrorismo” como justificativa para ações armadas unilaterais na América Latina.
Na última quarta-feira (22), os Estados Unidos confirmaram o bombardeio de mais uma embarcação no Oceano Pacífico, em águas internacionais próximas à Colômbia, matando três pessoas acusadas sumariamente de serem “narcoterroristas”. Foi o segundo ataque em dois dias e o nono em poucas semanas — já são pelo menos 37 mortos. A ofensiva, que começou no Caribe, tem ampliado a tensão diplomática com Venezuela e Colômbia, revelando o reaparecimento de uma velha prática: o uso da “guerra às drogas” como instrumento de intervenção política.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, reagiu com dureza, acusando Washington de promover execuções extrajudiciais que violam o direito internacional. Seu governo pediu oficialmente a suspensão dos ataques. Mas, nos bastidores, o que está em curso é mais do que um desacordo diplomático: é uma disputa sobre soberania, controle territorial e narrativas políticas.
A volta do discurso “narco” como arma de guerra
“Não se trata só de ‘narcoterroristas’. Agora também temos ‘narcoestados’ e ‘narcopresidentes’”, observa Leonardo Gómez Ponce, jornalista investigativo equatoriano e fundador da unidade Tierra de Nadie. Segundo ele, o prefixo “narco”, popularizado nos anos 1980 com a ascensão do Cartel de Medellín, evoluiu de forma preocupante. Hoje, é utilizado como ferramenta para justificar ofensivas militares, demonizar adversários políticos e fragilizar regimes civis.
Donald Trump intensificou esse discurso ao acusar Gustavo Petro de ser um “chefão do tráfico”. Rebecca Bill Chávez, presidente do Diálogo Interamericano, alerta para os riscos dessa retórica. “Na pior das hipóteses, isso pode levar a tarifas, sanções, bloqueios de ajuda, ataques marítimos ou aéreos e até erros de cálculo que resultem em mortes de civis”, afirmou à DW Brasil. Segundo ela, essa escalada retórica “não ajuda a resolver a crise do narcotráfico — apenas a agrava”.
E os efeitos já são visíveis: Trump anunciou o corte de subsídios de até US$ 2 bilhões anuais que os EUA repassavam à Colômbia para ações de combate ao tráfico. Para Chávez, a medida tende a “enfraquecer a capacidade da Colômbia de controlar seu território e fortalecer as redes criminosas”.
Termos sem valor jurídico, mas com alto potencial destrutivo
Apesar da gravidade das acusações, o uso de termos como “narcoestado” ou “narcopresidente” carece de respaldo legal. Para o pesquisador Jonas von Hoffmann, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA), “esses rótulos têm valor analítico limitado e são usados de forma estratégica para deslegitimar atores políticos. Não têm relevância jurídica”. Ainda assim, causam impacto real — tanto na diplomacia quanto nas urnas.
A experiência do México é ilustrativa: opositores de Andrés Manuel López Obrador o rotularam de “narcopresidente” durante seu mandato, sem apresentar provas concretas. As acusações não prosperaram judicialmente, mas alimentaram a polarização política e fragilizaram o debate público.
No caso colombiano, as acusações contra Petro omitem o contexto: o aumento do cultivo de coca começou antes de sua posse, e sua gestão tem defendido políticas alternativas para enfrentar o tráfico, focadas em redução de danos e desenvolvimento social. Associá-lo ao narcotráfico, como faz Trump, distorce os fatos e agride o princípio da autodeterminação dos povos.
Brasil na mira de uma geopolítica regressiva
É nesse cenário que se insere a declaração de Flávio Bolsonaro. Ao ecoar o discurso militarista de Trump e pedir sua aplicação em território brasileiro, o senador não apenas viola preceitos constitucionais e tratados internacionais — ele também legitima uma lógica perigosa: a de que a segurança nacional pode (ou deve) ser terceirizada a potências estrangeiras.
Na prática, essa retórica fortalece uma geopolítica de narrativas regressivas, onde o “combate ao narcotráfico” serve de cortina de fumaça para projetos autoritários e intervenções externas. Enquanto isso, como lembra Gómez Ponce, “os grupos criminosos continuam operando e crescendo à vontade”.
O jornalista aponta ainda a formação de uma espécie de “triângulo estratégico” com os governos de Trump, Petro e Daniel Noboa, no Equador — este último já propôs a reabertura de bases militares estrangeiras no país, o que poderia pavimentar o caminho para ações coordenadas de maior escala na região.
A guerra às drogas como cavalo de Troia
O discurso de Flávio Bolsonaro, à luz dos fatos recentes, não é apenas ignorante. É sintoma de um alinhamento ideológico com forças que enxergam o narcotráfico menos como um problema real a ser enfrentado e mais como uma justificativa conveniente para a intervenção militar e a desestabilização política.
Ao copiar o vocabulário e a postura de Trump, o bolsonarismo não só reforça sua subserviência estratégica, como se mostra disposto a transformar o Brasil em mais um tabuleiro da geopolítica militarizada. Um país onde a soberania é moeda de troca e onde civis — como sempre — pagam o preço mais alto por decisões tomadas de cima, com interesses alheios ao bem-estar nacional.
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