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Poder
Discurso trumpista, ataques ao sistema eleitoral e apelos por pressão internacional revelam um projeto político distante do centro
Publicado em 29/03/2026 2:14 - Semana On
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Ao projetar sua pré-candidatura presidencial em solo norte-americano, Flávio Bolsonaro reforçou vínculos explícitos com o trumpismo e desmontou, na prática, a narrativa de que representaria uma versão moderada do bolsonarismo. A participação na conferência CPAC, realizada em Dallas, serviu menos como vitrine internacional e mais como evidência de alinhamento ideológico com a extrema direita global.
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O senador reiterou que continuará consultando Jair Bolsonaro em decisões políticas, ao mesmo tempo em que tenta construir uma imagem de autonomia. A ambiguidade não se sustenta: ao ancorar sua candidatura no legado e na influência direta do ex-presidente — condenado a 27 anos por tentativa de golpe — Flávio sinaliza continuidade, não ruptura.
Durante o discurso, recorreu a comparações com Donald Trump para sustentar a tese de perseguição política contra seu pai, insinuando paralelos entre os contextos brasileiro e norte-americano. A estratégia retórica ignora diferenças institucionais relevantes e reforça uma narrativa já conhecida: a deslegitimação preventiva de decisões judiciais e processos democráticos.
A mesma lógica apareceu ao abordar as eleições brasileiras. Sem apresentar evidências, Flávio sugeriu dúvidas sobre a lisura do pleito de 2022 e condicionou a legitimidade de futuras eleições àquilo que chamou de “contagem correta dos votos” e liberdade irrestrita nas redes sociais. Trata-se de um roteiro clássico de erosão institucional: plantar desconfiança antes mesmo do processo eleitoral ocorrer.
Mais grave foi o apelo explícito por monitoramento internacional e “pressão diplomática” sobre instituições brasileiras. Ao convidar atores externos a interferirem no funcionamento interno do país, o senador ultrapassa o discurso político convencional e flerta com a relativização da soberania nacional — um movimento recorrente em agendas populistas que buscam validação fora das próprias instituições.
Outro ponto central do discurso foi a defesa da classificação de facções criminosas como organizações terroristas, em sintonia com pautas do trumpismo. A proposta ignora distinções fundamentais reconhecidas no direito internacional e na legislação brasileira: o crime organizado opera por lógica econômica, enquanto o terrorismo possui motivação política, religiosa ou ideológica. A confusão não é apenas conceitual — abre espaço para justificar intervenções externas sob pretextos securitários.
Nesse contexto, ganha relevo a articulação de Eduardo Bolsonaro junto a autoridades norte-americanas para internacionalizar o debate sobre o crime organizado brasileiro. A combinação entre essa agenda e o discurso de Flávio levanta um cenário delicado: a eventual instrumentalização do tema para legitimar ações unilaterais estrangeiras em território nacional.
No plano geopolítico, o senador também alinhou o Brasil à disputa estratégica entre Estados Unidos e China, ecoando a retórica de Trump. Ao sugerir que o país seria peça-chave para reduzir a dependência americana de minerais chineses, Flávio reposiciona o Brasil não como ator soberano, mas como ativo estratégico de interesses externos — especialmente preocupante considerando que a China é o principal parceiro comercial brasileiro.
A tentativa de se apresentar como um nome de centro, portanto, esbarra na materialidade dos fatos. O discurso em Dallas não revela moderação, mas continuidade — e até aprofundamento — de uma agenda marcada por radicalização retórica, questionamento de instituições e alinhamento automático a lideranças estrangeiras da extrema direita.
A moderação, neste caso, parece menos uma posição política e mais uma estratégia de marketing eleitoral. Sustentá-la exige ignorar evidências públicas reiteradas. E, como costuma ocorrer em campanhas, a distância entre o discurso e a prática tende a se tornar visível apenas depois que os votos já foram contados.
Histórico político de Flávio reforça incoerência da narrativa moderada
A tentativa de reposicionar Flávio Bolsonaro como um nome de centro enfrenta um obstáculo estrutural: sua própria trajetória política. Mais do que um problema de comunicação, trata-se de uma incompatibilidade entre discurso recente e prática consolidada.
Nos bastidores, aliados apostam na diferenciação em relação a Jair Bolsonaro como estratégia para reduzir rejeição e ampliar alcance eleitoral. A equação é simples no papel — suavizar a retórica sem romper com a base. Na prática, porém, esbarra em limites evidentes: o capital político de Flávio deriva justamente da identidade bolsonarista que agora tenta recalibrar.
Levantamentos de opinião indicam que o senador disputa terreno com Luiz Inácio Lula da Silva em patamares elevados de rejeição, cenário que alimenta a aposta de que haveria espaço para reconfiguração de imagem. O problema é que essa rejeição não nasce de ruído comunicacional, mas de associação direta a um projeto político marcado por confrontos institucionais e posições extremadas.
Essa tensão aparece com clareza quando se observam suas propostas e declarações recentes. A defesa da redução da maioridade penal para 14 anos e da castração química para estupradores revela a permanência de uma agenda punitivista radical, em sintonia com o núcleo ideológico do bolsonarismo. Não há moderação substantiva — apenas uma tentativa de reembalar o conteúdo.
Paralelamente, o senador ensaia gestos calculados em direção a segmentos historicamente distantes do bolsonarismo. Publicações voltadas a mulheres, negros e à população LGBTQIA+ indicam uma estratégia de reposicionamento simbólico, típica de campanhas que buscam reduzir rejeição em nichos específicos. A eficácia, contudo, é limitada quando confrontada com o histórico público do próprio campo político ao qual pertence.
A inconsistência não é nova. Em 2016, ao disputar a prefeitura do Rio de Janeiro, Flávio já havia tentado se apresentar como uma versão mais palatável do pai — sem sucesso eleitoral. O padrão se repete: ajuste de tom sem revisão de conteúdo.
Especialistas em ciência política apontam que a dificuldade não é circunstancial, mas conceitual. O bolsonarismo, enquanto fenômeno político, está ancorado na radicalização — especialmente no tensionamento com instituições, na retórica de confronto e em visões excludentes de democracia. Nesse contexto, a ideia de um “bolsonarismo moderado” deixa de ser uma posição intermediária e passa a operar como contradição em termos.
Essa leitura é reforçada pelo próprio percurso de Flávio. Ao longo de sua atuação parlamentar, ele não apenas acompanhou, mas defendeu posições emblemáticas do bolsonarismo. A condecoração do ex-PM Adriano da Nóbrega — posteriormente apontado como líder de milícia — é um dos episódios mais simbólicos dessa trajetória. Não se trata de um deslize isolado, mas de um indicativo de alinhamento com práticas e figuras controversas.
O mesmo padrão se observa na defesa recorrente de declarações do pai, inclusive aquelas marcadas por teor discriminatório ou elogios a figuras associadas à ditadura militar. Ao rejeitar o chamado “politicamente correto” e relativizar episódios desse tipo, Flávio reforçou, ao longo dos anos, os pilares culturais do bolsonarismo.
Mais recentemente, sua atuação em defesa de Atos de 8 de janeiro de 2023 como um “crime impossível” evidencia a persistência de uma estratégia de negação de fatos amplamente documentados. A retórica não apenas minimiza a gravidade dos მოვლენos, mas também contribui para corroer consensos básicos sobre o funcionamento da democracia.
A proposta de uso de força institucional para garantir eventual anistia ao ex-presidente aprofunda esse quadro. Ao sugerir que decisões do Judiciário poderiam ser neutralizadas por ação do Executivo, Flávio tangencia uma ruptura com o princípio da separação de poderes — fundamento elementar do Estado democrático de direito.
Diante desse conjunto, a reação do governo e de adversários políticos tornou-se previsível: deslocar o foco do discurso para o histórico. A estratégia é simples — e eficaz — ao expor a distância entre a imagem projetada e os fatos documentados.
Há, é verdade, vozes dissonantes que defendem a possibilidade de uma inflexão no bolsonarismo, argumentando que movimentos políticos tendem a se moderar ao longo do tempo. O problema, no caso de Flávio, é empírico: até aqui, não há evidências consistentes de revisão de posições — apenas de recalibragem retórica.
No fim das contas, a questão central não é se um político pode mudar — isso é parte da dinâmica democrática. O ponto é outro: sem ruptura verificável com práticas e ideias que definem sua trajetória, a moderação deixa de ser um movimento político real e passa a operar como peça de marketing.
E marketing, como se sabe, pode até suavizar a embalagem. Mas dificilmente altera o conteúdo.
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