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Poder

Flávio Bolsonaro indica que pré-candidatura tem código de barras

Datafolha: 01 larga atrás na disputa entre a direita, mas bolsonarismo mostra resiliência

Publicado em 08/12/2025 9:43 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Durou menos de 48 horas a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Anunciada na sexta-feira (6), com aval do pai preso, a postulação do senador transformou-se rapidamente em moeda de troca: no domingo (8), ele declarou publicamente que tem “um preço” para desistir. O valor, como o próprio deixou subentendido, seria a anistia ampla e irrestrita aos golpistas condenados pelo Supremo Tribunal Federal — com ênfase no ex-presidente Jair Bolsonaro, sentenciado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e organização criminosa armada.

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A fala, proferida sem rodeios, revela o verdadeiro objetivo da investida política de Flávio: constranger a direita institucional e forçar o centrão a pagar o resgate político da libertação de Bolsonaro. “Tá quente, tá começando a ficar quente”, respondeu o senador quando questionado se a desistência da candidatura estaria atrelada ao avanço de um projeto de anistia no Congresso.

Em outras palavras, Flávio não se lançou como presidenciável — lançou-se como o “bode na sala”, a peça incômoda colocada ali para tornar o caminho da direita dependente de uma barganha explícita por impunidade. Um “código de barras” vivo, nas palavras que se impõem à interpretação dos fatos.

Centrão sob pressão: o preço do apoio de Bolsonaro

Nesta segunda-feira (8), Flávio anunciou que se reunirá com lideranças do centrão para negociar os termos de sua retirada de cena. Entre os interlocutores, estão Valdemar Costa Neto (PL), Ciro Nogueira (PP), Antonio Rueda (União Brasil) e Marcos Pereira (Republicanos). Na terça (9), ele pretende visitar o pai na carceragem da Polícia Federal em Brasília.

A estratégia expõe os bastidores de uma chantagem política. A manutenção do apoio de Bolsonaro — ainda central para parte significativa do eleitorado de direita — é condicionada à aprovação de uma anistia que o beneficie diretamente. O Datafolha mais recente, no entanto, revela que essa exigência enfrenta resistência popular: 54% dos eleitores consideram justa a prisão de Bolsonaro, e apenas 8% veem Flávio como o melhor nome para sucedê-lo. Além disso, metade dos brasileiros afirma que jamais votaria em um candidato indicado por ele.

Os números desmontam a ilusão de força da família Bolsonaro e colocam o centrão diante de um dilema: ceder à chantagem e carregar o estigma do golpismo, ou romper de vez com o bolsonarismo e tentar construir uma candidatura competitiva por fora da tutela do ex-presidente.

A pesquisa Datafolha entrevistou 2.002 pessoas entre os dias 5 e 7 de dezembro em 113 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais.

Tarcísio, a marca do golpismo e o dilema da direita

O nome mais ventilado como herdeiro político de Bolsonaro é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que já declarou publicamente estar disposto a conceder um indulto presidencial ao ex-chefe caso seja eleito. O problema, para analistas e articuladores políticos, é que esse compromisso arrasta consigo a “marca do Zorro”: o carimbo explícito do golpismo.

Nesse cenário, o governador não seria um presidenciável competitivo, mas um presente de Natal antecipado para o presidente Lula, como ironizou o jornalista Josias de Souza, colunista do portal UOL. A eleição de 2026, que a direita não-bolsonarista sonha disputar com viabilidade, começa assim contaminada por uma disputa de facções e uma chantagem explícita.

Mesmo preso, Bolsonaro mantém o controle sobre parte do jogo. Ao colocar o filho como isca, fragiliza a candidatura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, acena para os setores mais radicais da extrema direita e deixa claro ao centrão que a “benção” em 2026 não sairá de graça. Quem quiser rir com ele no palanque, terá que antes pagar pelo silêncio e pela impunidade.

Anistia improvável: STF como obstáculo jurídico

A ideia de uma anistia ampla no Congresso enfrenta, no entanto, um obstáculo jurídico imediato. O Supremo Tribunal Federal já deu sinais de que qualquer tentativa de perdoar os condenados por tentativa de golpe será considerada inconstitucional. “A Constituição não protege ataques contra si mesma”, afirmou o ministro Luís Roberto Barroso em sessão do STF em agosto de 2023. O recado segue valendo.

Mesmo que o Congresso avance, uma “vitória” dessa natureza seria ilusória: Bolsonaro continuaria preso por decisão judicial. A direita teria pago caro por um apoio que, na prática, não conseguiria entregar o que prometeu.

A movimentação de Flávio Bolsonaro não é um ato de força. É um sinal de desespero. Ao afirmar que “tem um preço”, o senador revela mais do que pretendia: a total bancarrota moral de um projeto político que, diante do cerco judicial e da perda de apoio popular, recorre à chantagem como última cartada.

No fim, a pergunta que resta é menos sobre o preço que Flávio diz ter — e mais sobre quem, no campo político, está disposto a pagar essa conta. A julgar pelas pesquisas e pelo risco institucional, talvez o “produto” em oferta esteja prestes a encalhar.

Flávio larga atrás

Flávio Bolsonaro tem o pior desempenho entre os nomes da direita em um eventual segundo turno contra Lula, segundo o Datafolha. O levantamento revela que o senador ficaria 15 pontos atrás do petista se a eleição fosse hoje: 51% a 36%. O dado se soma a outro indicador preocupante para o clã: Flávio também lidera em rejeição, com 38% dos eleitores afirmando que não votariam nele de jeito nenhum.

Os números apontam a dificuldade da família Bolsonaro em manter protagonismo eleitoral, mesmo entre o eleitorado de direita. A performance de Flávio é semelhante à de outros nomes do núcleo familiar: Eduardo Bolsonaro (PL-SP) tem 35% das intenções de voto contra 50% de Lula, enquanto Michelle Bolsonaro marca 39%. A rejeição também os ronda de perto: 37% para Eduardo e 35% para Michelle. Lula, por sua vez, é rejeitado por 44% dos entrevistados — índice alto, mas ainda inferior ao do ex-presidente Jair Bolsonaro, que alcança 45% de reprovação e segue inelegível após condenação por tentativa de golpe em 2022.

O contraste mais evidente da pesquisa está no desempenho dos governadores de perfil conservador. Tanto Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) quanto Ratinho Jr. (PSD-PR) têm desempenho mais competitivo que os Bolsonaro. Contra Lula, Tarcísio perde por margem apertada: 47% a 42%. Ratinho Jr. aparece logo atrás, com 41% contra 47% do petista.

A rejeição também é consideravelmente menor: Tarcísio tem 20%, Ratinho Jr. e Romeu Zema (Novo-MG) aparecem com 21%, e Ronaldo Caiado (União-GO) lidera entre os menos rejeitados, com 18%. Em comparação, os índices de rejeição dos Bolsonaro superam os 35%, tornando o custo eleitoral da candidatura familiar mais elevado para a direita tradicional.

Um cálculo político, não eleitoral

A má colocação de Flávio reacende o debate sobre o papel da família Bolsonaro no xadrez político até 2026. Para analistas, o lançamento do senador é mais uma estratégia de manutenção de capital político e controle do espólio eleitoral bolsonarista, do que propriamente uma aposta real de vitória.

“Eles precisam segurar o espólio. Se o Tarcísio é o candidato, o espólio muda de mão”, avaliou à Folha de S.Paulo um ministro do governo Lula, sob reserva. A lógica, segundo ele, seria manter o controle do eleitorado fiel, mesmo ao custo de uma derrota.

A movimentação de Flávio também pode ser lida como instrumento de barganha: ao manter-se como nome competitivo (ainda que pouco viável), ele se posiciona como peça de negociação para o segundo turno, com a possibilidade de apoiar outro nome da direita em troca de anistia ao pai, Jair Bolsonaro. Um ex-deputado ouvido pela reportagem sintetiza: “Se Flávio for candidato e ficar fora do segundo turno, ele negocia o perdão ao pai como moeda de apoio ao opositor de Lula.”

Michelle: carisma inicial, futuro incerto

Entre os nomes testados, Michelle Bolsonaro se destaca pela maior retenção inicial de votos. Ainda assim, seu potencial de crescimento é questionado por aliados da própria direita. “O problema da Michelle não é a largada, é a chegada”, disse um conselheiro do governador Ronaldo Caiado.

A avaliação se sustenta na falta de experiência administrativa da ex-primeira-dama e na ausência de realizações políticas concretas. Mesmo Jair Bolsonaro, que chegou a promovê-la como possível herdeira política, reconheceu em entrevistas que ela “não seguraria até a chegada”. A aposta, segundo um marqueteiro ouvido pela Folha, é manter Michelle em posição segura: uma vaga no Senado, onde teria foro privilegiado e visibilidade sem o desgaste de uma campanha presidencial.

A disputa interna na direita

Com os Bolsonaro em queda e governadores em ascensão, a direita vive uma disputa interna silenciosa entre a manutenção do bolsonarismo como força dominante e a busca por uma nova liderança capaz de reunir o campo conservador em torno de uma candidatura mais viável.

A performance de Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr. indica que esse novo centro de gravidade pode estar se deslocando para os gestores estaduais. Ambos apresentam taxas de rejeição bem menores e performance eleitoral mais competitiva, sem o ônus jurídico e político que ainda pesa sobre a família Bolsonaro.

Ainda assim, a pesquisa mostra que Lula permanece em posição confortável — liderando todos os cenários testados — mesmo com índices de rejeição elevados e um governo que enfrenta desafios econômicos e políticos. A vantagem do presidente pode ser explicada pela fragmentação da oposição e pela ausência de um nome forte que una a direita, seja dentro ou fora da família Bolsonaro.

Resiliência política e a percepção da população

Mesmo após denúncias formais, indiciamentos, julgamentos e até uma confissão em vídeo de que derreteu a tornozeleira eletrônica para tentar escapar da Justiça, a opinião dos brasileiros sobre Jair Bolsonaro permanece praticamente inalterada. A polarização segue firme: uma parcela o vê como criminoso e defende sua punição, enquanto outra acredita que ele é vítima de perseguição e nega qualquer irregularidade.

Segundo o Datafolha, 54% dos entrevistados acreditam que Bolsonaro derreteu o equipamento para fugir, enquanto 33% atribuem o episódio a um surto paranoico. O instituto também revela que 54% consideram sua prisão justa, contra 40% que a veem como injusta — números que se repetem com pouca variação ao longo dos últimos meses, mesmo com mudanças no formato das perguntas.

Desde dezembro de 2024, a percepção da sociedade sobre Bolsonaro apresenta uma notável estabilidade. Em diferentes momentos, a maioria sempre se manteve crítica à sua conduta. Em março de 2024, 55% acreditavam que ele tentou um golpe de Estado, enquanto 39% discordavam. Esse índice se manteve em 52% nos meses seguintes. Em janeiro, 52% disseram que ele tentou dar um golpe; em abril, o mesmo percentual defendia sua prisão por esse motivo.

A rejeição à anistia também é consistente: em setembro, 54% eram contra uma medida para beneficiá-lo; 39% eram a favor. Em agosto, 51% apoiavam a prisão domiciliar, e 42% eram contra.

Apesar dos indícios e da prisão — que hoje é um fato consumado, com Bolsonaro cumprindo pena de 27 anos e três meses na carceragem da Polícia Federal em Brasília —, o núcleo de apoio ao ex-presidente permanece forte. Mais do que isso: é resiliente. E representa mais do que o chamado “bolsonarismo-raiz”, composto por seguidores fiéis que vivem no ecossistema paralelo de desinformação, o “Bolsoverso”.

Esse núcleo endurecido do eleitorado ajuda a explicar por que o centrão ainda vê Bolsonaro como um ativo estratégico para 2026. Os partidos do bloco não possuem figuras com capital eleitoral próprio suficiente para projetar candidaturas viáveis. Já o ex-presidente de extrema direita, mesmo preso, mantém sua força de influência. A inquietação do mercado financeiro diante do anúncio de Flávio Bolsonaro como pré-candidato, feito por Jair na última sexta-feira, é reflexo disso. A Faria Lima, por exemplo, prefere Tarcísio de Freitas como opção de “terceira via” e ficou em alerta com a benção do patriarca ao primogênito.

No segundo turno das eleições de 2022, Bolsonaro obteve 49,1% dos votos válidos contra 50,9% de Lula. Em números absolutos, foram 58.206.354 votos — o equivalente a 37% do total de eleitores cadastrados à época. É evidente que parte desse eleitorado pode ter revisto sua posição, mas os índices atuais sugerem que o apoio ao ex-presidente continua semelhante ao de então.

O que mudou, de fato, foi a percepção sobre a possibilidade real de sua prisão. Há oito meses, 52% dos brasileiros acreditavam que Bolsonaro não seria preso por tentar um golpe; 41% achavam que sim. A desconfiança generalizada nas instituições, alimentada por décadas de impunidade, fazia com que muitos duvidassem da efetividade da Justiça. Hoje, com o ex-presidente atrás das grades, essa percepção começa a ser desafiada.

A prisão de Bolsonaro não só representa um marco institucional, como também pode ser um ponto de inflexão simbólico. Mostra que, mesmo no país da proverbial “pizza”, há espaço para que o sistema funcione. E essa constatação pode ajudar a minar a crença de que, no Brasil, nada nunca muda.

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