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Poder
Mas será que a centro-direita vai se curvar a um rei posto, a príncipes falidos e a uma rainha sedenta por poder?
Publicado em 05/12/2025 7:23 - Semana On
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O anúncio feito por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de que será o candidato da direita à Presidência em 2026, respaldado pelo pai preso e ainda entronizado como “líder moral” do bolsonarismo, soa menos como uma aclamação e mais como um movimento preventivo: conter rebeldes, acomodar herdeiros e evitar que a coroa escape das mãos da família. Embora o PL tenha corrido para ungir o nome do “01” com discursos bíblicos e frases de efeito, a escolha tem tudo para aprofundar, e não resolver, as rachaduras no campo da direita. Michelle Bolsonaro, cada vez mais protagonista e em guerra aberta com os enteados, parece ter engolido a decisão. Será? Tarcísio de Freitas, o preferido da elite econômica e símbolo da “direita palatável”, vê seu projeto presidencial empurrado para escanteio, ao passo que outros nomes do centrão agora ensaiam movimentos próprios, farejando fragilidade no clã. O bolsonarismo, que sempre operou como um sistema dinástico com lógica de guerra, agora entra em sua fase mais explícita de Game of Thrones tropical: um rei deposto, príncipes divididos, uma rainha em ascensão e uma corte que finge unidade enquanto prepara a próxima traição.
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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) escolheu o senador Flávio Bolsonaro como o nome do bolsonarismo das eleições presidenciais de 2026.
“É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação. Eu não posso, e não vou, me conformar ao ver o nosso país caminhar por um tempo de instabilidade, insegurança e desânimo. Eu não vou ficar de braços cruzados enquanto vejo a esperança das famílias sendo apagada e nossa democracia sucumbindo”, disse o senador, em postagem no X.
É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação.
Eu não posso, e não vou, me conformar ao ver o nosso país caminhar por um tempo de… pic.twitter.com/vBvHS7M0hJ
— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) December 5, 2025
A escolha vem após Flávio visitar o pai na prisão nesta semana, em Brasília. Acontece também depois de um racha entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente sobre um possível apoio do PL à candidatura de Ciro Gomes no Ceará, que irritou também integrantes do PL.
“Se Bolsonaro falou, está falado”, disse Valdemar da Costa Neto, presidente nacional do PL, no Instagram. “Como presidente do PL, informo que o senador Flávio Bolsonaro é o nome indicado por Jair Bolsonaro para representar o partido na disputa presidencial. Flávio me disse que o nosso capitão confirmou sua candidatura. Seguiremos juntos, trabalhando com responsabilidade e compromisso com o Brasil”.
MIchelle também deu seu apoio a Flávio. “Que Deus te abençoe nesta nova missão pelo nosso amado Brasil. Que o Senhor te dê sabedoria, força e graça em cada passo, e que a mão d’Ele conduza o teu caminho para o bem da nossa nação”, publicou no Instagram. A esposa de Jair Bolsonaro entrou em conflito com enteados nesta semana após criticar —e derrotar— a articulação do PL para apoiar Ciro Gomes no Ceará.
Tarcísio de Freitas
A decisão de Bolsonaro dificulta a candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) ao Planalto. Um dos principais cotados para ser o representante do bolsonarismo nas urnas e nome favorito da Faria Lima para a disputa, o governador vinha condicionando a entrada na corrida a um apoio explícito do ex-presidente.
Com a indicação de Flávio, crescem as chances de Tarcísio concorrer à reeleição para o governo do Estado. Um aliado do governador avaliou ao UOL que a escolha do senador visa “ocupar um vácuo” deixado no bolsonarismo pela prisão do ex-presidente e que acredita que a decisão pode não ser definitiva. “Vão testar as águas”.
Tarcísio vinha sendo criticado por Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O deputado, que está nos Estados Unidos, também tinha manifestado intenção de disputar a presidência. Ele chegou a dizer que o governador de São Paulo é “o candidato do sistema” e “não é um líder”.
Em entrevista ao UOL há dez dias Eduardo defendeu a candidatura do irmão. Disse que Flávio é “mais preparado” que Michelle para concorrer à Presidência.
Governo vê Flávio mais fraco que Tarcísio
O Palácio do Planalto não viu como uma má notícia a possível candidatura do senador Flávio Bolsonaro. A avaliação de aliados de Lula é que, apesar do sobrenome, ele seria menos competitivo do que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Flávio é visto por governistas como um nome mais regionalizado e segmentado. Aliados do presidente Lula (PT) apontam que, diferentemente de outras figuras da direita com maior abrangência nacional, o senador tem força mais restrita ao Sudeste e entre bolsonaristas, que já votariam em qualquer candidato que o ex-presidente indicasse.
Sem nunca ter sido eleito para um cargo no Executivo, membros do governo apontam que ele teria dificuldade em falar em realizações e se contrapor aos dados de Lula em busca do eleitor mais ao centro —ou seja, sem apoio prévio a Bolsonaro ou ao PT—, visto em Brasília como o público definidor da próxima eleição.
Com Tarcísio, é diferente. Além de estar diretamente vinculado à gestão de Bolsonaro, o governador falaria ainda das realizações à frente do maior estado do país e é visto com um perfil muito mais técnico ou “moderado”, o que agrada este eleitorado.
Nisso, pontuam, não ter o sobrenome conta paradoxalmente como algo positivo. Para Tarcísio, seria muito mais fácil cooptar votos bolsonaristas, mas se desvincular da imagem radical geralmente atrelada ao ex-presidente, enquanto para o filho isso é tido como impossível por palacianos. Para petistas, o anúncio também expõe mais um racha na direita, algo vantajoso para Lula.
Balão de ensaio?
Cautelosos, apoiadores do presidente dizem que a indicação de Flávio pode ser um “balão de ensaio” e que, caso seja rejeitado publicamente, possa dar ainda mais força para o governador de São Paulo, que viria como um “antídoto” para tentar reunir a direita.
O governador teria ainda mais chance de reunir partidos de centro. Atual secretário de Governo e Relações Institucionais de São Paulo, Gilberto Kassab, presidente do PSD, já afirmou que apoia o chefe. O partido é uma das maiores forças do Congresso e tem três ministros no governo Lula.
Outras legendas ao centro, como o MDB, também ficariam mais propensas a fechar com Tarcísio. As lideranças do partido no Sul e no Sudeste, oposição a Lula, também já declararam a intenção de marchar junto ao governador, enquanto os caciques do Norte e do Nordeste seguiriam com o presidente. Nenhum deles, no entanto, se pronunciou sobre Flávio.
O PL pode optar por lançar Flávio Bolsonaro ao Senado, mesmo com o senador tendo sido escolhido pelo pai para concorrer à Presidência da República.
Flávio enfrenta um histórico de investigações e desgaste, o que tornaria a campanha presidencial mais arriscada. O sobrenome Bolsonaro também dificulta alianças partidárias amplas e amplia o escrutínio sobre seu passado.
Uma eventual candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro tende a ser acompanhada por um peso considerável: seu próprio passado. Casos que hoje estão adormecidos no noticiário devem retornar ao centro do debate político com força total.
O senador já foi alvo de investigações sobre o esquema das “rachadinhas” quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. Também enfrentou questionamentos sobre a compra de uma mansão em Brasília avaliada em R$ 6 milhões, feita com um empréstimo de condições consideradas atípicas. Além disso, sua ligação com o ex-policial Adriano da Nóbrega — morto em operação policial e apontado como líder de milícia — e sua loja da Kopenhagen, envolta em suspeitas sobre a origem dos recursos, são temas que devem ser retomados com intensidade em um cenário de campanha.
Como lembrou um aliado próximo ao presidente Lula, campanhas presidenciais colocam os candidatos sob escrutínio total. “Tudo volta, especialmente a compatibilidade entre renda e patrimônio”, afirmou. Em eleições, o passado dos postulantes ao Planalto costuma ser revisitado à exaustão, sobretudo em um ambiente de exposição constante na imprensa e nas redes sociais.
Nos últimos anos, Flávio adotou uma postura mais discreta no Senado. Aproximou-se do centrão, articulou nos bastidores e evitou polêmicas, numa tentativa de se descolar do noticiário negativo que o marcou no início da legislatura. Ainda assim, o peso do sobrenome Bolsonaro continua sendo um desafio para alianças políticas.
Mesmo fora do centro das atenções, Flávio carrega o legado da família, o que complica a formação de coligações — sobretudo com partidos de perfil mais moderado. “Como formar uma aliança com o centro tendo que embarcar em um nome Bolsonaro?”, questiona um interlocutor da base governista. A simples presença do nome na cabeça de chapa ou mesmo como vice pode inviabilizar apoios estratégicos.
Embora o movimento de Flávio sinalize alguma articulação de olho em 2026, dentro do próprio partido já se avalia que o cenário pode mudar. Diante dos custos elevados de uma campanha presidencial e da necessidade de tempo de TV, estrutura e capital político, a eventual candidatura pode ser revista no ano que vem.
Candidatura de Flávio racha o centro e fortalece nomes alternativos da direita
A movimentação em torno do nome de Flávio causou ruído imediato no cenário político e econômico. A reação foi negativa: o mercado financeiro reagiu mal, a bolsa caiu, e lideranças do centro político demonstraram desconforto. “Melhor deixar isso decantar”, disse, em reserva à jornalista Daniela Lima (UOL), o presidente de um partido de centro, ao comentar a viabilidade da candidatura.
Quem saiu fortalecido com o impasse foram os governadores Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Ratinho Júnior (PSD-PR), cujos entornos reagiram com entusiasmo à fissura provocada no campo bolsonarista. A pré-campanha dos dois pode ganhar fôlego diante da fragmentação interna da direita.
Nos bastidores, porém, há ceticismo. Políticos experientes e profissionais de marketing político aconselham cautela. O movimento, dizem, pode ter mais a ver com uma estratégia interna do clã Bolsonaro do que com uma definição real sobre 2026.
O anúncio em favor de Flávio tem o objetivo de frear a ascensão de Michelle Bolsonaro, que vinha sendo testada como opção eleitoral pela base bolsonarista. Em outras palavras, trata-se de um movimento de contenção interna, não necessariamente de projeção nacional. Ambos, Flávio e Michelle, devem se encontrar com Jair Bolsonaro na próxima terça-feira.
O gesto embaralha o jogo sucessório, mas está longe de encerrar a disputa. Como definiu o dirigente de centro, é hora de “deixar decantar”. O tempo — e os humores do bolsonarismo — ainda terão papel decisivo na configuração final do tabuleiro da direita.
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