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Poder

Federação entre União Brasil e Progressistas é o retorno do Arenão

PSDB e Podemos avançam para fusão tentando se posicionar no “centro democrático”

Publicado em 30/04/2025 9:47 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Como se o tempo tivesse dado voltas para retornar a um ponto que a história parecia ter superado, a aliança entre União Brasil e Progressistas — os partidos de DNA autoritário e discurso ultraliberal — reencena os tempos da Arena, partido de sustentação da ditadura civil-militar (1964–1985). Agora sob o nome pomposo de “federação partidária”, o chamado centrãozão articula-se com vultoso capital político, recursos públicos bilionários e ambições presidenciais que soam como alerta à ordem constitucional de 1988.

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Com 109 deputados federais, 14 senadores, 1.343 prefeitos, seis governadores e quase R$ 1,2 bilhão em fundos eleitorais e partidários, a federação ocupa lugar de destaque tanto no Congresso quanto no Executivo, controlando quatro ministérios no governo Lula. A estrutura é tão monumental quanto contraditória: enquanto declara-se liberal, sustenta-se, ironicamente, por fartos repasses estatais e por articulações que turbinaram emendas parlamentares e desonerações fiscais.

Na certidão de nascimento da nova federação — lida por Ciro Nogueira e Antonio Rueda — destaca-se um manifesto que clama por “choque de prosperidade” e pela “reforma modernizadora do Estado”. Na prática, isso significa pautas como desindexação do salário mínimo, desvinculação de receitas obrigatórias (como saúde e educação), privatizações em massa e demissões no funcionalismo público. A retórica tem inspiração confessa: o presidente argentino Javier Milei. Foi o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, quem traduziu essa agenda ao afirmar que “o modelo mental atual está ultrapassado” e que “a receita está posta” — bastaria, segundo ele, “mexer três, quatro, cinco alavancas”.

Mas o que soa como modernização para parte do mercado é, para outros, um retrocesso social histórico. “A desvinculação de receitas significa, em termos claros, menos recursos garantidos para saúde e educação”, alerta o economista Pedro Rossi, professor da Unicamp, em entrevista ao Nexo Jornal. “É a desconstitucionalização dos direitos sociais.”

O discurso liberal do centrãozão, no entanto, contrasta com sua prática fisiológica. Os mesmos parlamentares que falam em “eficiência do Estado” foram protagonistas da defesa de subsídios bilionários a setores empresariais — como no caso do Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos) — e na resistência à taxação de fundos exclusivos e offshores, propostas encampadas pelo ministro Fernando Haddad (Fazenda) como forma de tornar o sistema tributário menos regressivo.

O pano de fundo ideológico dessa federação remonta à própria formação das siglas. O Progressistas é herdeiro direto da Arena, passando por PDS, PPR e PP até chegar à configuração atual. Já o União Brasil nasceu da fusão do DEM (ex-PFL, também dissidência da Arena) com o PSL, que elegeu Bolsonaro em 2018. Não por acaso, a nova federação tem se equilibrado entre o bolsonarismo e o projeto liberal radicalizado, com ambições explícitas de disputar a presidência em 2026. Ronaldo Caiado (União-GO) já se lançou como pré-candidato; Ciro Nogueira, por sua vez, flerta com uma chapa liderada por Tarcísio, com quem mantém proximidade programática.

Em meio a isso, a federação mantém elogios ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mesmo após sua tentativa frustrada de golpe em 2022. ACM Neto, vice-presidente do União Brasil, afirmou: “Ninguém pode construir um projeto competitivo sem considerar o peso de Bolsonaro” — ignorando, assim, as graves investidas antidemocráticas do ex-mandatário. Esse aceno ao extremismo evidencia que o projeto da federação não pretende romper com a herança golpista recente, mas sim incorporá-la como ativo eleitoral.

A imprensa, por sua vez, tem parte da responsabilidade nesse processo de normalização do golpismo. A crítica moderada ao bolsonarismo — tratada muitas vezes como mera “polarização” — cria um terreno fértil para que forças antidemocráticas se reorganizem sob uma nova roupagem. “O discurso do fim da polarização, quando assimétrico, acaba por legitimar forças autoritárias como se fossem apenas mais uma opinião no debate público”, observa a cientista política Esther Solano (UFMG), em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil.

O paradoxo é que esse bloco político, que se diz contra o Estado, depende visceralmente dele — como indica o controle de orçamentos, ministérios e emendas. E ao mesmo tempo em que renega o pacto social de 1988, busca capitalizar-se politicamente como alternativa viável à esquerda. Mas a que custo?

O “choque de prosperidade” que propõe não é um projeto neutro: ameaça a própria arquitetura social desenhada pela Constituição Cidadã. Significa menos proteção aos pobres, menos direitos sociais e maior concentração de poder econômico e político. É uma tentativa de resgatar o espírito da política desenvolvida sob tutela militar, agora com a roupagem democrática do século XXI.

Como bem diagnosticou o sociólogo Jessé Souza em A Elite do Atraso (Leya, 2017), “o Brasil foi sequestrado por uma elite que perpetua sua dominação através de um discurso moralista que esconde seus privilégios econômicos.” A federação liderada por União Brasil e Progressistas parece ser a corporificação atual desse diagnóstico.

Enquanto a direita ensaia um novo projeto de poder, é fundamental que o debate público exija clareza: congelar o salário mínimo, desmontar o SUS e privatizar o patrimônio público são propostas legítimas — mas devem ser ditas com todas as letras, para que o eleitorado compreenda o que está realmente em jogo.

Como nos lembra o filósofo Norberto Bobbio: “O maior inimigo da democracia é a opacidade”. E é justamente com transparência — sobre os riscos, os interesses e os nomes envolvidos — que o Brasil precisa lidar com o renascimento do antigo Arenão.

PSDB e Podemos avançam para fusão tentando se posicionar no “centro democrático”

Num movimento que resgata o dinamismo das reconfigurações partidárias da Nova República e tenta evitar a irrelevância no xadrez político nacional, a executiva nacional do PSDB aprovou por unanimidade, na terça-feira (29), a continuidade do processo de fusão com o Podemos. A nova sigla — ainda sem nome definitivo — busca consolidar-se como uma força de centro liberal, “inclusiva no social e pragmática na política externa”, segundo definição do deputado Aécio Neves (MG), presidente do Instituto Teotônio Vilela, à TV Globo e ao g1.

A fusão, que ainda precisa ser chancelada pelas convenções nacionais dos dois partidos e homologada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), deverá ser finalizada até julho. A nova legenda, por ora chamada “PSDB+Podemos”, nasce com musculatura considerável: 28 deputados federais (7ª maior bancada da Câmara), sete senadores (4ª força do Senado), três governadores, 405 prefeituras, e direito à 6ª maior fatia do Fundo Eleitoral de 2024, estimada em R$ 384,6 milhões.

O centro sob nova roupagem

A estratégia é clara: reagir à crise que há anos consome o PSDB — outrora protagonista da redemocratização e força dominante na política nacional, agora reduzido a disputas internas e perdas simbólicas, como a do governo de São Paulo em 2022, após quase três décadas de hegemonia. A legenda, que não lançou candidato à Presidência pela primeira vez desde 1989, enfrentou seu pior desempenho eleitoral justamente no ano em que mais se discutiu a necessidade de um polo democrático entre os extremos do espectro político.

Nesse sentido, a fusão aparece não apenas como tentativa de sobrevivência institucional diante do endurecimento da cláusula de barreira — que exige desempenho mínimo para acesso a recursos públicos e tempo de TV —, mas como rearticulação de um projeto de poder com viés reformista e liberal. A nova legenda será moldada por uma comissão mista de dirigentes dos dois partidos, que decidirá nome, número, programa, estatuto e identidade visual. Também serão consideradas pesquisas qualitativas junto à base partidária, na tentativa de construir um projeto mais representativo e menos personalista.

Do protagonismo ao declínio: o PSDB em perspectiva histórica

Fundado em 1988 por expoentes da social-democracia brasileira — como Mário Covas, Franco Montoro e Fernando Henrique Cardoso —, o PSDB tornou-se símbolo do reformismo liberal no Brasil pós-Constituinte. Assumiu a presidência em 1994 e em 1998, conduziu reformas estruturais (como o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal), e polarizou a política brasileira com o PT por duas décadas.

No entanto, a crise que abateu a legenda não é apenas eleitoral. É também simbólica, programática e geracional. A adesão de setores do partido ao antipetismo radical no pós-2013, somada ao enfraquecimento da identidade programática e à fragmentação interna, levou à perda de quadros históricos e à debandada de governadores. Raquel Lyra (PE) já migrou para o PSD. Eduardo Leite (RS), embora tenha elogiado a fusão, ainda não confirmou permanência. Eduardo Riedel (MS) também avalia outras alternativas.

“A fusão dará tranquilidade a todos aqueles que acreditam na necessidade e fortalecimento do centro”, afirmou Aécio Neves, reconhecendo que a decisão “vai muito além da sobrevivência do partido”. Já o presidente nacional do PSDB, Marconi Perillo, foi direto ao afirmar que o novo partido “vai propor, debater ideais e discutir soluções para o Brasil”.

Repercussões e cálculo político

O movimento de fusão também responde a uma lógica pragmática: garantir maior acesso aos recursos públicos e ao tempo de propaganda. Em 2026, a soma do desempenho eleitoral de 2022 — 25 deputados federais eleitos — permitirá à nova legenda escapar da cláusula de barreira e manter o financiamento público e visibilidade nacional.

Segundo os critérios legais vigentes, os partidos precisam, a partir de 2027, de ao menos 2,5% dos votos válidos para a Câmara (distribuídos em nove estados) ou da eleição de 13 deputados em pelo menos nove unidades da federação. Sem isso, ficam à margem do sistema político. A fusão, nesse contexto, não é apenas reestruturação: é sobrevivência.

O lugar do centro na democracia

O esforço de recomposição do campo democrático-liberal, ainda que impulsionado pela necessidade, abre espaço para a reflexão sobre o papel do centro na democracia brasileira. Como afirma o cientista político Sérgio Abranches, “as forças centristas precisam ser mais do que instrumentos de conciliação — precisam oferecer sínteses políticas robustas, que mobilizem valores democráticos e visão de futuro”.

Historicamente, o centro político brasileiro oscilou entre a moderação republicana e a neutralidade paralisante. O desafio da nova legenda será construir um discurso coerente, que não seja mera soma aritmética de sobreviventes, mas projeto com densidade programática e vocação majoritária.

Um novo capítulo?

Ainda é cedo para saber se o “PSDB+Podemos” — ou como venha a se chamar — terá sucesso em reverter o declínio tucano e consolidar uma nova força política. Mas o passo dado representa mais do que um rearranjo administrativo: é tentativa de reorganizar o centro democrático diante da polarização e do esgarçamento institucional que marcam a política brasileira contemporânea.

Em um país que historicamente alterna entre rupturas e acomodações, a fusão entre PSDB e Podemos pode representar uma nova tentativa de construir estabilidade dentro da democracia. O futuro dirá se será um novo começo ou apenas o epílogo de uma trajetória que marcou profundamente o Brasil da redemocratização.

O BRASIL DAS RUAS


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