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Poder

Extremista de direita é indicado por Trump para comandar relações EUA-Brasil

Ligado a supremacistas, desinformação e ataques à democracia Darren Beattie levanta dúvidas sobre estratégia do trumpismo para o país

Publicado em 24/04/2026 9:27 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A escolha de Darren Beattie como articulador das relações entre Estados Unidos e Brasil expõe mais do que uma simples decisão administrativa: revela uma estratégia política carregada de implicações ideológicas e geopolíticas. Com histórico marcado por vínculos com o extremismo de direita, discursos racistas e atuação em plataformas de desinformação, Beattie emerge como um dos personagens mais controversos associados ao entorno de Donald Trump — agora com papel direto na interlocução com o governo brasileiro.

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Desde o início do ano, Beattie foi designado para liderar contatos bilaterais. Sua atuação, no entanto, já começou envolta em controvérsia. Em episódio recente, ele tentou obter visto para o Brasil omitindo informações relevantes: havia planejado visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro durante sua prisão, intenção que não constava na missão oficial. A revelação levou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva a revogar a autorização de entrada, sinalizando desconforto diplomático diante do perfil do emissário.

A trajetória de Beattie no trumpismo é marcada por episódios que ultrapassam o campo da polêmica e adentram o território do extremismo ideológico. Como destacou o jornalista Jamil Chade, no ICL Notícias, em 2018, quando integrava a equipe da Casa Branca como redator de discursos, foi demitido após vir à tona sua participação em uma conferência associada a nacionalistas brancos. À época, tentou minimizar o episódio, alegando caráter acadêmico de sua fala — argumento que não foi suficiente para conter a repercussão negativa.

O conteúdo de suas produções reforça esse alinhamento. Em texto daquele mesmo ano, Beattie elaborou uma interpretação distorcida sobre o Brasil, descrevendo o país como um possível modelo de “utopia” para elites econômicas dominarem massas vulneráveis — uma leitura que mistura retórica ideológica com desprezo por dinâmicas sociais complexas.

Fora do governo, ele fundou o site Revolver News, que ganhou notoriedade pela disseminação de teorias conspiratórias e informações falsas. Entre elas, a narrativa de que a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, teria sido orquestrada por agentes federais — versão amplamente desmentida. Mais do que difundir essas ideias, Beattie celebrou publicamente o episódio, exaltando manifestantes ligados ao movimento MAGA e atacando adversários políticos e movimentos sociais, em especial grupos ligados à pauta racial.

Suas manifestações públicas revelam ainda um padrão consistente de misoginia e racismo. Em redes sociais, defendeu explicitamente a supremacia de “homens brancos competentes” como condição para o funcionamento adequado da sociedade, ao mesmo tempo em que desqualificava mulheres e minorias. Em outro episódio, reagiu a críticas da cantora Taylor Swift a homenagens à Ku Klux Klan com comentários de cunho sexual e depreciativo, reforçando um discurso de ataque a figuras públicas que se posicionam contra símbolos racistas.

O desprezo por países em desenvolvimento também aparece em suas declarações. Beattie elogiou a fala de Trump que classificava determinadas nações como “países de merda”, evidenciando alinhamento com uma visão hierárquica e excludente das relações internacionais.

Apesar desse histórico, sua influência dentro do trumpismo não apenas resistiu, como se expandiu. Após um retorno à administração republicana, foi alçado ao cargo de subsecretário de Estado para Diplomacia Pública e Assuntos Públicos, posição estratégica na formulação da comunicação internacional dos Estados Unidos.

No contexto brasileiro, sua atuação ganha contornos ainda mais sensíveis. O próprio site que fundou passou a retratar o governo brasileiro como “regime”, utilizando linguagem típica de propaganda política. Em textos não assinados, Beattie é apresentado como articulador de medidas punitivas contra o Brasil, incluindo sanções e tarifas comerciais, celebradas como instrumentos de pressão política.

A retórica adotada nessas publicações extrapola o debate diplomático e assume tom abertamente hostil, comparando o Brasil a uma “Coreia do Norte 2.0” e acusando autoridades de conduzirem um sistema de censura e perseguição política. O próprio Beattie é exaltado como peça central nessa estratégia, recebendo agradecimentos por ações que visariam impor custos ao país.

Sua atuação também se estende à interferência discursiva em processos democráticos brasileiros. Em 2022, ao comentar as eleições no país em um podcast ligado a Steve Bannon, Beattie endossou alegações infundadas de fraude eleitoral, alinhando-se a narrativas sem evidência que buscavam deslegitimar o resultado das urnas. As declarações ignoraram conclusões oficiais, como o relatório do Ministério da Defesa, que não identificou irregularidades no processo eleitoral.

Diante desse conjunto de fatos, a nomeação de Beattie levanta questionamentos inevitáveis: trata-se de uma escolha meramente técnica ou de um movimento deliberado do trumpismo para tensionar relações internacionais com base em uma agenda ideológica? Ao colocar um agente com histórico de proximidade com supremacistas brancos, disseminação de desinformação e ataques a instituições democráticas no centro da relação com o Brasil, o governo Trump sinaliza uma estratégia que vai além da diplomacia tradicional.

Mais do que um interlocutor, Beattie parece funcionar como vetor de uma política externa orientada por confrontação, alinhamento com movimentos de extrema direita e tentativa de influenciar cenários políticos internos de outros países. No caso brasileiro, isso se traduz em uma atuação que mistura pressão econômica, retórica agressiva e apoio indireto a narrativas antidemocráticas — um conjunto que redefine, de forma inquietante, os termos da relação bilateral.

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