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Poder
Deputados e senadores rebaixam o Congresso a uma “Escolinha do Professor Bolsonaro”
Publicado em 05/08/2025 5:08 - Semana On
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A cena parece saída de um roteiro de ficção política tragicômica: parlamentares com chapelões, ternos costurados com a bandeira nacional, cosplay de policiais barbudos, ex-seguranças promovidos a “estadistas”, fanáticos religiosos e outros personagens tomaram de assalto as mesas diretoras da Câmara e do Senado nesta terça-feira (5), em mais uma performance antidemocrática da extrema direita bolsonarista. O que deveria ser a Casa do Povo, palco de debates importantes para o país, está sendo transformada pelo extremismo de direita em uma “Escolinha do professor Bolsonaro”.
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De bocas seladas com fita adesiva — metáfora involuntária de como deveriam se manter em tempos normais —, os deputados e senadores extremistas anunciaram que permanecerão nos plenários até que suas exigências sejam atendidas: a anistia para os condenados por tentativa de golpe de Estado, o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e o fim do foro privilegiado, o que livraria Jair Bolsonaro das mãos do Supremo Tribunal Federal (STF).
O roteiro do novo sequestro institucional está claro: pressionar os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), até que cedam à pauta golpista disfarçada de “pacificação nacional”. Como admitiu sem rodeios o senador Flávio Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente agora em prisão domiciliar, o plano é iniciar um “pacote de paz” que começa — ironicamente — com o impeachment do principal ministro responsável por investigar e julgar os crimes cometidos por seu pai.
A declaração é reveladora: para os bolsonaristas, pacificar o Brasil é, antes de mais nada, calar a Justiça e reescrever a narrativa de 8 de janeiro de 2023 — não como tentativa de golpe de Estado, mas como legítimo protesto. A anistia irrestrita, exigida em coro, é o instrumento final da distorção histórica que o bolsonarismo tenta impor ao país.

Golpe por dentro das instituições
A estratégia bolsonarista, agora assumidamente institucional, remonta aos momentos anteriores ao ataque às sedes dos Três Poderes, quando Jair Bolsonaro, ainda na Presidência, tentou usar as Forças Armadas para anular o resultado eleitoral. A recente decisão do STF, que decretou sua prisão domiciliar após o descumprimento de medidas cautelares, serviu de estopim para nova escalada.
No último domingo (3), o ex-presidente violou a ordem judicial que o proibia de se manifestar nas redes sociais — mesmo por meio de terceiros — ao usar o perfil do filho, senador Flávio, para divulgar um vídeo com ataques ao Judiciário. O ministro Alexandre de Moraes não hesitou: determinou a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, evidenciando que, no Estado Democrático de Direito, nem o mais popular dos populistas está acima da lei.
A reação bolsonarista foi imediata. Repetindo a lógica do “quanto pior, melhor”, os aliados do ex-presidente passaram a ocupar fisicamente o Parlamento. O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, escancarou a chantagem ao dizer que a ocupação é uma “medida extrema”, motivada pela falta de interlocução com Alcolumbre. O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL na Câmara, foi ainda mais explícito: “estamos nos apresentando para a guerra”.
O contexto histórico e a tática de ruptura
A tática da extrema direita brasileira segue um padrão global bem documentado por estudiosos como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores do livro Como as Democracias Morrem (Zahar, 2018). Segundo eles, democracias modernas não costumam ruir por meio de tanques nas ruas, mas sim pelo uso das próprias instituições democráticas para corroê-las desde dentro.
O bolsonarismo segue essa cartilha à risca. Ao ocupar o Parlamento para impedir seu funcionamento, busca inviabilizar a democracia representativa. Ao exigir o impeachment de Moraes, tenta intimidar a mais alta Corte do país. E ao pressionar pelo fim do foro privilegiado, procura desviar seus próprios julgamentos para instâncias mais vulneráveis à manipulação política.
A proposta de anistia generalizada é, nesse cenário, um símbolo da subversão. Como alerta o jurista Pedro Serrano, professor da PUC-SP, “a anistia só é admissível em regimes de exceção. Concedê-la em plena democracia para crimes contra o Estado Democrático de Direito seria institucionalizar o golpismo”.
Entre a prisão de Bolsonaro e a submissão nacional
Não é apenas a política interna que está em jogo. A prisão domiciliar de Bolsonaro tem repercussões internacionais. Após pressões documentadas do ex-presidente e de seu filho Eduardo Bolsonaro junto ao governo norte-americano para retaliar ministros do STF, os Estados Unidos anunciaram sanções contra o Brasil. A partir desta quarta (6), entram em vigor tarifas de 50% sobre diversos produtos brasileiros, como parte do endurecimento promovido pela gestão Trump — apoiador declarado do ex-presidente brasileiro.
A conexão entre a crise institucional e as penalidades econômicas não é coincidência. Ao impulsionar a instabilidade política, o bolsonarismo acena ao trumpismo e sinaliza lealdade não à nação brasileira, mas à sua própria narrativa. “Não haverá paz no Brasil”, dizem os golpistas travestidos de parlamentares, “enquanto não houver anistia”. Não há sequer disfarce.
Uma farsa perigosa
Quase três anos após o ataque de 8 de janeiro, a nova ocupação do Congresso expõe a falência moral e institucional de parte da oposição bolsonarista. Ao invés de exercerem o papel de fiscalização e proposição, seus membros se dedicam a sabotagens e chantagens. Tratam o Legislativo como palco de reality show, onde cada ato performático é cuidadosamente calculado para alimentar a base radicalizada nas redes.
Diante disso, a pergunta que se impõe não é se haverá conciliação, mas até quando as instituições resistirão. O silêncio dos presidentes da Câmara e do Senado, até o momento, é cúmplice. A eventual conivência será imperdoável.
A democracia brasileira, já testada até o limite nos últimos anos, enfrenta novamente seus fantasmas. Fantasmas com mandato, microfone, chapelão, paletó verde-amarelo — e, infelizmente, poder real.
Reprovação ao Congresso cresce
A imagem do Congresso Nacional voltou a se deteriorar junto à opinião pública. Levantamento realizado pelo instituto Datafolha nos dias 29 e 30 de julho mostra que 35% dos brasileiros classificam como ruim ou péssimo o desempenho de deputados federais e senadores. A aprovação é de apenas 18%, mesmo patamar registrado no fim de 2023. Outros 43% consideram o trabalho regular.
Além da queda nos índices de aprovação, a pesquisa revela uma percepção consolidada de que o Legislativo atua de forma autocentrada: 78% dos entrevistados acreditam que os parlamentares tomam decisões pensando mais em benefícios próprios do que no interesse da população. Apenas 18% enxergam o contrário.
O levantamento ouviu 2.004 pessoas em 130 municípios de todas as regiões do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Desde o fim de junho, o Congresso se tornou alvo de uma ofensiva nas redes sociais promovida por governistas e aliados do presidente Lula (PT). Sob o slogan “ricos contra pobres”, as peças — muitas produzidas com apoio de inteligência artificial — denunciam a atuação parlamentar como protetora de privilégios e interesses das elites, especialmente após a suspensão, no Legislativo, do pacote de aumento de impostos proposto pelo Executivo.
Em meio a esse cenário, Hugo Motta assumiu neste ano a presidência da Câmara dos Deputados, enquanto o Senado passou a ser comandado por Davi Alcolumbre. Ambos evitam confrontos diretos com o Planalto, mas enfrentam crescente desgaste entre eleitores de diferentes perfis.
Congresso é visto como aliado dos ricos
A pesquisa mostra ainda que a percepção de favorecimento às classes mais abastadas é majoritária: 73% dos brasileiros acreditam que deputados e senadores tratam melhor os ricos do que os pobres. Apenas 5% veem o oposto.
Essa visão se aprofunda quando cruzada com as preferências políticas dos entrevistados. Entre eleitores que declaram intenção de voto em Lula numa eventual reeleição em 2026, há empate técnico na avaliação do Congresso: 28% o consideram ruim ou péssimo, e 26%, ótimo ou bom. Já entre os bolsonaristas, a reprovação chega a 38%, contra apenas 14% de aprovação.
A diferença também aparece na questão sobre atuação em causa própria: 71% dos lulistas acreditam que os parlamentares agem motivados por interesses próprios, índice que sobe para 83% entre bolsonaristas — sugerindo que, mesmo com agendas divergentes, a crítica à elite política une polos opostos do eleitorado.
Conhecimento sobre tarifas de Trump amplia rejeição
Outro dado relevante do levantamento diz respeito à recente sanção tarifária dos Estados Unidos contra produtos brasileiros, medida adotada pelo governo Donald Trump. Entre os entrevistados que declararam estar bem informados sobre o chamado “tarifaço”, 48% avaliam negativamente o Congresso. Já entre os que não tinham conhecimento da medida, a reprovação cai para 20%.
O dado sugere que a percepção negativa do Legislativo se intensifica entre os mais informados, reforçando a ideia de que o desgaste está associado não apenas à crise política, mas também à percepção de passividade ou conivência diante de temas estratégicos de política externa.
Rejeição histórica e o desafio da representatividade
A desaprovação do Congresso não é fenômeno novo. Desde o início das séries históricas do Datafolha, nos anos 1990, a soma dos que classificam como ótimo ou bom o desempenho dos parlamentares nunca ultrapassou os 25% — percentual alcançado no fim de 2010, último ano do segundo mandato de Lula. A única ocasião em que a aprovação superou numericamente a reprovação foi em 2003, primeiro ano de governo petista, com 24% de avaliação positiva ante 22% de negativa.
O pior momento ocorreu em novembro de 2017, quando 60% dos brasileiros desaprovavam o Congresso, em meio ao episódio em que a Câmara dos Deputados barrou, pela segunda vez, o andamento de uma denúncia contra o então presidente Michel Temer (MDB). Na época, apenas 5% avaliavam positivamente o Legislativo.
A pesquisa atual confirma uma tendência duradoura de descrédito da instituição parlamentar — agora agravada por episódios como a tentativa de setores bolsonaristas de aprovar uma anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023, manobra barrada até o momento por articulação do PT e do centrão.
Em meio à desconfiança crescente, a pressão da opinião pública se torna um fator cada vez mais relevante para o futuro político dos parlamentares. A retomada da confiança dependerá menos de slogans e mais de reformas efetivas que rompam com a lógica de autobenefício — ainda dominante, como mostra a pesquisa.
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