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Poder

Extrema direita e elites usam mentiras e violência para minar a democracia

Do ataque a Erika Hilton às farsas sobre o Pix, a desinformação revela a estratégia para desestabilizar o país

Publicado em 20/01/2025 10:13 - Semana On

Divulgação Pix fake

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A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), símbolo de diversidade e renovação política, enfrenta uma tempestade que ilustra as ameaças contemporâneas à democracia. Após publicar um vídeo desmentindo a fake news sobre a taxação do Pix, que alcançou 112 milhões de visualizações nas plataformas X (antigo Twitter) e Instagram, a parlamentar passou a receber ameaças de morte. O episódio revela como a desinformação e a violência política estão sendo utilizadas como armas para atacar lideranças progressistas e fragilizar o debate público.

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Hilton tornou-se alvo de ataques após rebater a narrativa fabricada por Nikolas Ferreira (PL-MG), que distorceu uma norma da Receita Federal. Ferreira afirmou, falsamente, que o governo Lula utilizaria o Pix para violar sigilos bancários e cobrar impostos. A deputada explicou que a norma apenas ampliava o limite de fiscalização de R$ 2 mil para R$ 5 mil, visando combater crimes financeiros. Apesar disso, a mentira viralizou e foi amplificada por grupos de extrema-direita, gerando um impacto direto na confiança do sistema financeiro e na segurança da parlamentar.

O caso do Pix é apenas uma peça em um jogo maior. A desinformação não opera de forma desorganizada; ela é planejada para atender a interesses políticos e econômicos específicos. No Brasil, o uso de fake news tem sido central na estratégia da extrema-direita para desestabilizar governos progressistas e criar um ambiente de polarização permanente.

Dados do UOL Confere mostram que, entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023, ao menos 19 notícias falsas sobre economia se espalharam pelas redes sociais. A mentira sobre o Pix foi uma das mais eficazes, causando uma queda de 15,3% nas transações realizadas por meio do sistema em janeiro. Essa manipulação tem impacto direto na economia, mas também serve como uma poderosa ferramenta de mobilização política.

Ao acusar o governo Lula de “espiar cidadãos” e “taxar trabalhadores”, Nikolas Ferreira e outros políticos de direita reforçam a narrativa de que o Estado é um inimigo da liberdade individual. Essa retórica se conecta a um discurso global promovido por líderes como Donald Trump e Viktor Orbán, que usam desinformação para desacreditar instituições e concentrar poder em suas mãos.

A Cumplicidade da Mídia e o “Extremismo de Centro”

Um aspecto particularmente preocupante desse caso é a postura de parte da mídia brasileira. Em vez de condenar de forma clara a mentira propagada por Nikolas, alguns setores da imprensa optaram por culpar o governo Lula pela credibilidade da fake news. Argumentos como “se o governo fosse mais eficiente, as mentiras não colariam” refletem uma inversão de valores que naturaliza a desinformação e penaliza a vítima.

Essa lógica é perigosa porque aproxima a imprensa de uma narrativa que relativiza a verdade. A conivência midiática com práticas autoritárias não é nova no Brasil. Durante o golpe de 1964, a imprensa justificou o ataque à democracia sob o pretexto de “defesa da ordem”. Hoje, com um verniz de neutralidade, a mesma lógica se manifesta na forma de um “extremismo de centro” que se mostra disposto a tolerar práticas autoritárias na ânsia de encontrar uma alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo.

O caso do Pix também exemplifica como a imprensa tem sido influenciada por discursos econômicos hegemônicos. No Brasil, o “jornalismo econômico” frequentemente age como porta-voz dos interesses do mercado financeiro, ignorando outras perspectivas. Essa visão unidimensional ajuda a reforçar narrativas que favorecem desregulação, austeridade e, mais recentemente, ataques diretos ao governo Lula.

Polarização ou Criação de Um Falso Consenso?

A ideia de que o Brasil está preso em uma polarização entre Lula e Bolsonaro tem sido amplamente difundida, mas ela não reflete a complexidade do cenário político. Lula não lidera o campo progressista por imposição, mas por um histórico de lutas e conquistas que incluem sua prisão injusta e posterior absolvição. Por outro lado, Bolsonaro se consolidou como líder da extrema-direita ao promover práticas fascistas e golpistas.

Essa narrativa de polarização simplifica as dinâmicas políticas e impede uma análise mais profunda dos interesses que moldam o debate público. No caso do Pix, por exemplo, a oposição não apenas atacou o governo Lula, mas também utilizou a mentira como uma ferramenta para reforçar suas bases. Parte do problema está na falta de alternativas viáveis ao centro político. O “extremismo de centro”, que flerta com a normalização de práticas autoritárias, não oferece uma solução real para os desafios do país.

O Contexto Global e a Era da Desinformação

O Brasil não está sozinho nesse dilema. Em democracias ao redor do mundo, a desinformação se tornou uma ameaça estrutural. Nos Estados Unidos, a guinada autoritária das redes sociais sob a liderança de figuras como Elon Musk e Mark Zuckerberg demonstra como grandes empresas de tecnologia têm atuado para enfraquecer instituições democráticas.

Zuckerberg, por exemplo, anunciou recentemente a flexibilização de regras contra discursos de ódio, alegando que a “liberdade de expressão” deve prevalecer. Essa postura reflete um alinhamento com agendas reacionárias e revela o papel das “big techs” como agentes de desestabilização global.

No Brasil, a influência dessas empresas é evidente no impacto que fake news têm em eleições, debates públicos e políticas econômicas. A amplificação de discursos de ódio e desinformação é um dos maiores desafios para a democracia brasileira, que já lida com uma fragilidade institucional herdada de décadas de desigualdade e autoritarismo.

A Violência Estrutural e o Alvo Erika Hilton

As ameaças de morte contra Erika Hilton representam mais do que um ataque a uma parlamentar. Elas simbolizam o ódio enraizado contra mulheres, pessoas LGBTQIA+ e lideranças progressistas no Brasil. Hilton, que já enfrentou transfobia e racismo ao longo de sua carreira, tornou-se um alvo preferencial da extrema-direita por representar a diversidade e os direitos humanos.

A violência política contra mulheres e minorias é um fenômeno crescente no Brasil. Segundo a Human Rights Watch, o país lidera os rankings globais de violência contra pessoas LGBTQIA+. Essa violência é exacerbada pela desinformação e pela retórica de ódio amplificada nas redes sociais e na imprensa.

Respostas Necessárias e Caminhos para a Democracia

Enfrentar a crise atual exige ações concretas:

Regulação das Plataformas Digitais: As redes sociais precisam ser responsabilizadas pela disseminação de mentiras e discursos de ódio. O Marco Civil da Internet deve ser revisado para garantir transparência e responsabilização.

Educação para Mídia: Programas que ensinem a identificar desinformação são essenciais para empoderar a população contra manipulações.

Fortalecimento Institucional: A Justiça e o Congresso precisam atuar de forma integrada para proteger representantes eleitos e garantir que crimes contra a democracia sejam punidos.

A defesa da verdade e da democracia deve ser inegociável. Como mostrou o caso de Erika Hilton, a desinformação não é apenas um ataque à política; é uma ameaça direta ao Estado de Direito e à dignidade humana.

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