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Poder

Extradição de Zambelli expõe fragilidade da narrativa de perseguição política

Alexandre de Moraes amplia cerco judicial sobre Eduardo Bolsonaro

Publicado em 27/03/2026 8:49 - Semana On

Divulgação Igo Estrela/Metrópoles @igoestrela

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A decisão da Justiça italiana de autorizar a extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli marca um ponto de inflexão em um caso que vinha sendo explorado politicamente no Brasil. Condenada por invadir sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e inserir documentos falsos, Zambelli ainda pode recorrer — tanto no campo jurídico quanto político. No entanto, o elemento central da decisão foi o descarte da tese de perseguição política, substituída pelo entendimento de que se trata de prática criminosa comum.

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O episódio tem sido mobilizado por setores do bolsonarismo como instrumento de ataque ao Supremo Tribunal Federal (STF), reforçando a narrativa de que o país viveria sob uma suposta ditadura. Nesse enquadramento, o caso é apresentado como afronta à liberdade de expressão — argumento que, na prática, parece menos voltado à defesa da ex-deputada e mais à tentativa de desgaste institucional do Judiciário. Estratégia semelhante foi adotada anteriormente com Daniel Silveira, transformado em símbolo político em 2022 e posteriormente relegado ao segundo plano.

Há, contudo, diferenças relevantes entre o caso de Zambelli e outros episódios envolvendo aliados do bolsonarismo no exterior. Allan dos Santos, por exemplo, permanece nos Estados Unidos enquanto responde a acusações como incitação contra instituições democráticas e lavagem de dinheiro. Já Oswaldo Eustáquio está na Espanha, após ter prisão decretada por envolvimento em atos violentos ligados à tentativa de ruptura institucional em dezembro de 2022, em Brasília.

Nesses casos, fatores como pedidos de asilo político e disputas jurídicas internacionais abriram espaço para interpretações divergentes. Ainda que a tese de “crime de opinião” seja amplamente contestada, existe alguma margem para disputa narrativa. No caso de Zambelli, porém, essa ambiguidade praticamente desaparece: a invasão de sistemas do Judiciário e a falsificação de documentos configuram, de forma objetiva, delitos comuns.

A condenação se baseia em ações realizadas com o auxílio do hacker Walter Delgatti Neto, responsável por acessar o sistema do CNJ e inserir mandados falsos — incluindo ordens de prisão contra autoridades como o ministro Alexandre de Moraes. O episódio resultou em pena de dez anos de prisão, além da perda do mandato parlamentar. Em termos práticos, trata-se de uma fraude institucional comparável à inserção deliberada de ordens judiciais falsas em qualquer tribunal.

O histórico recente da ex-deputada também inclui condenação por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal, após perseguir um eleitor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com arma em punho, em São Paulo, às vésperas do segundo turno de 2022. O episódio, amplamente divulgado, expôs riscos concretos à segurança pública e foi apontado até por Jair Bolsonaro como um dos fatores que contribuíram para sua derrota eleitoral.

Um detalhe pouco explorado pelos aliados da ex-deputada é que a invasão ao CNJ teria ocorrido após a avaliação de que o sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) seria inviolável — o que contraria, na prática, discursos recorrentes de fragilidade das urnas e da Justiça Eleitoral.

Declarações anteriores de Zambelli também ganham novo significado à luz dos acontecimentos. Em entrevista à CNN Brasil, em junho do ano passado, afirmou não temer eventual prisão na Itália por possuir cidadania italiana e se considerar “intocável”. A realidade, no entanto, mostrou-se mais complexa: o processo segue agora para etapas que envolvem tanto o Judiciário quanto o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni, que decidirão os desdobramentos finais — da extradição à eventual prisão em território italiano.

O caso evidencia, sobretudo, o colapso de uma estratégia baseada na autoconfiança excessiva e na aposta em proteção política internacional. A prisão em Roma e a decisão judicial subsequente funcionam como resposta concreta a essa aposta.

Se havia a expectativa de um plano sem falhas, o desfecho indica o contrário: a narrativa de invulnerabilidade não resistiu aos fatos. Independentemente do resultado final do processo, a condição de “intocável” já não se sustenta.

Moraes amplia cerco judicial sobre Eduardo Bolsonaro

O ministro Alexandre de Moraes autorizou o envio de informações do inquérito que investiga o ex-deputado Eduardo Bolsonaro à Polícia Federal, atendendo a solicitação da própria corporação. A medida insere novos elementos no procedimento administrativo disciplinar aberto contra o ex-parlamentar, que também ocupa o cargo de escrivão licenciado da instituição.

A apuração interna da PF aponta indícios de que Eduardo teria feito declarações públicas com teor ofensivo e intimidador contra colegas da corporação. Segundo os investigadores, as manifestações teriam como objetivo constranger agentes envolvidos em investigações conduzidas sob supervisão do Supremo Tribunal Federal.

Na decisão, Moraes sustentou que o compartilhamento de provas entre instâncias é juridicamente admissível, desde que respeitados o contraditório e os limites legais quanto ao uso dessas evidências. O ministro ressaltou que o material já é público e pode contribuir para a instrução do processo disciplinar, sem configurar irregularidade.

O movimento ocorre em um contexto mais amplo de pressões judiciais sobre o ex-deputado, que se encontra nos Estados Unidos há cerca de um ano. Após perder o mandato por excesso de faltas, ele foi formalmente convocado a retomar suas funções na PF, o que não ocorreu. A ausência motivou a abertura de procedimento por possível abandono de cargo, resultando em afastamento preventivo e notificação oficial para apresentação de defesa.

Paralelamente, Eduardo intensificou o tom de confronto com o Judiciário. Em declarações recentes, acusou Moraes de promover perseguição política e afirmou que medidas judiciais — incluindo o bloqueio de contas bancárias suas e de sua esposa — teriam como objetivo inviabilizar financeiramente sua família. Também mencionou preocupações com uma eventual condenação por improbidade administrativa, que poderia torná-lo inelegível.

As declarações seguem um padrão já observado em outros episódios recentes: a tentativa de enquadrar decisões judiciais como instrumentos de repressão política. No entanto, no caso específico, os elementos em análise envolvem condutas investigadas no âmbito administrativo e criminal, com desdobramentos concretos sobre a carreira pública do ex-deputado.

Eduardo também é réu no STF sob acusação de coação no curso do processo. A investigação aponta que ele teria atuado nos Estados Unidos para pressionar autoridades brasileiras em meio ao julgamento de uma tentativa de ruptura institucional envolvendo seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A defesa sustenta que suas ações estão protegidas pelo direito à liberdade de expressão.

A decisão de Moraes, ao integrar diferentes frentes de apuração, sinaliza uma estratégia de articulação institucional entre Judiciário e órgãos de controle. Mais do que um episódio isolado, o caso evidencia o avanço de investigações que ultrapassam o campo político e passam a incidir diretamente sobre responsabilidades administrativas e legais.

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