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Poder

Entenda o pedido da PGR de investigação contra Eduardo Bolsonaro

Deputado é alvo de inquérito por tentar articular intervenção estrangeira contra decisões do STF

Publicado em 27/05/2025 9:31 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O que começou como uma série de encontros diplomáticos e declarações públicas de um deputado licenciado transformou-se, agora, em inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF). Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, está sob investigação por atuar nos Estados Unidos para pressionar aquele que é hoje o principal magistrado no combate à tentativa de golpe de Estado de 2022: Alexandre de Moraes. O caso, formalizado por um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), lança luz sobre uma nova etapa da ofensiva bolsonarista contra as instituições democráticas brasileiras — desta vez, com métodos transnacionais e respaldo em redes de extrema direita globalizadas.

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Segundo a PGR, Eduardo Bolsonaro trabalha para convencer autoridades norte-americanas a sancionar não apenas Moraes, mas também membros da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. A intenção, segundo o órgão, seria abalar a credibilidade do sistema de Justiça brasileiro, interferir em investigações sensíveis e, no limite, inviabilizar o funcionamento pleno dos Poderes da República.

A conduta do deputado licenciado revela a consolidação de uma estratégia que já vinha sendo gestada desde o início do governo Bolsonaro: a construção de uma rede internacional de apoio político, financeiro e ideológico. Eduardo, por exemplo, mantém relações próximas com figuras como Steve Bannon, estrategista de Donald Trump, condenado por fraude e um dos arquitetos da “nova direita” global, caracterizada pelo ultranacionalismo, negação das instituições e deslegitimação da imprensa.

Ao tentar envolver o Departamento de Estado dos EUA em uma disputa institucional brasileira, Eduardo repete, com roupagem contemporânea, o modelo de submissão a interesses estrangeiros que marcou o golpe de 1964, quando os EUA ofereceram apoio logístico e político aos militares brasileiros. Como lembrou o historiador Carlos Fico, especialista em ditadura militar, “a Operação Brother Sam, que previa apoio da Marinha norte-americana ao golpe, foi uma das mais claras evidências da ingerência externa na política interna brasileira”.

Hoje, a forma é diferente, mas a lógica se repete: setores conservadores brasileiros recorrem a aliados externos para enfraquecer adversários internos — neste caso, ministros da Suprema Corte que atuam na defesa da ordem constitucional.

As acusações e os crimes em análise

Segundo a petição da PGR, a conduta de Eduardo Bolsonaro pode configurar crimes como coação no curso do processo (Art. 344 do Código Penal), embaraço à investigação de infração penal que envolva organização criminosa (Art. 2º, §1º da Lei 12.850/2013) e, mais gravemente, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito (Art. 359-L do Código Penal, incluído pela Lei 14.197/2021).

A denúncia sustenta que a permanência do deputado nos EUA não tem caráter pessoal ou privado, mas sim político e deliberado. Ele busca, segundo o documento, “impedir, com a ameaça de sanções, o funcionamento pleno dos Poderes do mais alto tribunal do Judiciário”. Entre as medidas sugeridas por ele e seu entorno estariam a proibição de entrada de Moraes nos EUA, a revogação de seu visto e o bloqueio de contas bancárias eventualmente existentes em solo americano.

Essa atuação ocorre no contexto em que Eduardo e aliados próximos de Jair Bolsonaro esperam, conforme revelou a Pauta 2, que o governo Trump — em caso de vitória eleitoral ou influência política atual — aplique as sanções dentro de dez dias. A “torcida” do grupo inclui também a exclusão de ministros considerados mais alinhados ao ex-presidente, como Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux, numa evidente tentativa de dividir o STF e isolar Moraes.

Moraes no centro da disputa institucional

Alexandre de Moraes tornou-se figura central na contenção de investidas autoritárias desde os atos antidemocráticos de 2020, intensificados com os ataques de 8 de janeiro de 2023 e o avanço da investigação sobre a tentativa de golpe de 2022. Sua atuação firme o transformou no principal alvo do bolsonarismo. O ex-presidente e seus aliados veem no ministro uma barreira intransponível à reconstrução de seu projeto de poder.

A ofensiva contra Moraes, portanto, não é apenas jurídica: é simbólica. Representa o esforço da extrema direita de subverter o Judiciário como espaço de equilíbrio republicano e convertê-lo em mais uma arena de disputa ideológica. Como analisou o jurista Oscar Vilhena Vieira, da FGV, “quando a política é incapaz de controlar seus próprios excessos, é inevitável que o Judiciário atue como elemento de contenção. Mas, quanto mais ele se impõe, mais se torna alvo de ataques” (A Batalha dos Poderes, Companhia das Letras, 2021).

O STF como último bastião da institucionalidade

As instituições democráticas, historicamente frágeis no Brasil, enfrentam mais um teste de resistência. Em democracias consolidadas, o Judiciário atua como contrapeso legítimo ao poder Executivo. No Brasil, esse papel tem sido tensionado por grupos que, derrotados nas urnas, veem nas instituições um obstáculo ao seu retorno ao poder. Essa dinâmica, porém, não é exclusiva do país: segue o mesmo padrão observado na Hungria de Orbán, na Polônia do PiS, na Turquia de Erdogan e na própria América de Trump.

Segundo a cientista política Yascha Mounk, “as democracias liberais não morrem mais por golpes militares, mas por líderes eleitos que minam instituições de dentro” (O Povo contra a Democracia, Companhia das Letras, 2019). A erosão institucional, nesse modelo, ocorre passo a passo — sempre com respaldo de uma parcela da população, com discursos de combate à corrupção, defesa da moral e apelos à soberania popular. No Brasil, esse projeto foi parcialmente interrompido, mas segue vivo no exílio voluntário de Eduardo Bolsonaro e nos bastidores de Washington.

A quem interessa a desestabilização institucional?

Ao desafiar abertamente o STF e articular sanções contra seus membros, Eduardo Bolsonaro repete uma lógica populista já conhecida: a construção de inimigos para mobilização política. Se antes eram os petistas, os artistas, os jornalistas, hoje o alvo principal é o ministro Moraes. O intuito não é apenas vencê-lo politicamente, mas anulá-lo juridicamente — o que, se bem-sucedido, abriria precedente perigoso: a intimidação internacional de juízes por seus atos jurisdicionais.

Essa prática compromete a soberania nacional. Não se trata de um deputado pedindo asilo ou denunciando perseguições; trata-se de um parlamentar tentando usar a máquina diplomática de uma potência estrangeira para punir um magistrado de sua própria nação. É a antítese da soberania e da responsabilidade institucional que se espera de um representante eleito.

PGR pede investigação de Eduardo Bolsonaro por articulação contra o STF


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