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Revelações expõem desgaste do pré-candidato da extrema direita entre conservadores moderados
Publicado em 20/05/2026 9:23 - Semana On
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Mensagens trocadas entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelaram uma relação mais estreita do que o parlamentar vinha admitindo publicamente e colocaram sob novo escrutínio o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
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O conteúdo, divulgado inicialmente pelo site The Intercept Brasil em 13 de maio, mostra que Flávio negociou diretamente repasses milionários para a produção do longa justamente no período em que as investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master se aprofundavam. A autenticidade das conversas foi confirmada tanto por fontes ligadas ao caso quanto pelo próprio senador.
Segundo os registros, Vorcaro transferiu cerca de R$ 61 milhões para o projeto cinematográfico entre fevereiro e maio de 2025. O valor faria parte de um acordo total estimado em R$ 134 milhões — montante considerado excepcional para padrões do cinema brasileiro e que passou a levantar suspeitas sobre a real destinação dos recursos.
A repercussão ganhou força porque, até então, Flávio Bolsonaro sustentava que sequer conhecia o empresário investigado. Em março, quando a Polícia Federal revelou que o contato do senador aparecia na agenda telefônica de Vorcaro durante apurações ligadas à CPI das fraudes no INSS, Flávio afirmou jamais ter mantido relação com o banqueiro e declarou que seu telefone “não é propriamente um segredo”.
Após a divulgação das mensagens, contudo, o discurso mudou. O senador passou a afirmar que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, quando, segundo ele, “não existiam acusações nem suspeitas públicas” contra o empresário. A nova versão, porém, entrou em choque com publicações anteriores do próprio Jair Bolsonaro nas redes sociais comentando reportagens sobre investigações envolvendo o Banco Master ainda em setembro de 2024.
Os diálogos revelados mostram que a relação entre os dois se intensificou entre setembro e novembro de 2025. Em diferentes mensagens, Flávio chama Vorcaro de “irmão” e pressiona pela liberação de recursos destinados ao filme. Em um dos áudios, enviado em setembro, o senador afirma: “Eu fico sem graça de ficar te cobrando”, enquanto insiste nos pagamentos.
O contexto das cobranças chamou atenção porque, naquele mesmo período, os sinais de deterioração do Banco Master já eram públicos. Em 3 de setembro de 2025, o Banco Central vetou a venda da instituição ao BRB, indicando fragilidade financeira do grupo. Pouco depois, em 30 de setembro, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar irregularidades envolvendo Vorcaro. Ainda assim, as conversas sobre os repasses continuaram.
A última mensagem atribuída a Flávio foi enviada em 16 de novembro, um dia antes da segunda prisão do empresário. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”, escreveu o senador.
Poucas horas antes da divulgação pública desse material, Flávio esteve com o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, para apresentar-se como pré-candidato à Presidência da República. Ao ser questionado por um repórter do Intercept sobre o financiamento do filme, reagiu dizendo que a informação era “mentira”, chamou o jornalista de “militante” e deixou a entrevista improvisada. Já distante dos repórteres, afirmou que se tratava de “tudo privado”.
Com a publicação dos áudios, o senador alterou novamente a estratégia de defesa. Em vídeo, declarou apoiar a criação de uma CPI para investigar o Banco Master e sustentou que os recursos destinados ao longa eram exclusivamente privados. “Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, afirmou.
A argumentação, entretanto, passou a ser contestada porque as investigações apontam justamente para a existência de recursos públicos entre os prejuízos atribuídos ao esquema do banco. Entre os principais rombos identificados estão R$ 2,6 bilhões da Rioprevidência — fundo responsável por aposentadorias e pensões de servidores do Rio de Janeiro —, R$ 400 milhões da previdência do Amapá aplicados em ativos considerados problemáticos e ao menos R$ 12,2 bilhões em ativos fraudulentos adquiridos pelo BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal.
– Os senhores não leram errado. Impediram de acontecer e foram DEMITIDOS.
– Não é mais questão de todo dia, mas sim a cada hora. Por isso o sistema está agindo com tanto afinco em suas ações. pic.twitter.com/LYlz6SXeME
— Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) July 12, 2024
Outro ponto que gerou desgaste foi a admissão de que Flávio visitou Vorcaro após a primeira prisão do empresário. O encontro ocorreu na residência do ex-banqueiro, em São Paulo, depois de ele deixar a prisão por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, mediante medidas cautelares como o uso de tornozeleira eletrônica. A visita foi revelada inicialmente pelo site Metrópoles e posteriormente confirmada pelo senador.
Ao comentar o episódio, Flávio afirmou que o objetivo da reunião era encerrar qualquer relação comercial com Vorcaro. “Fui lá para colocar um ponto final nessa história”, disse em entrevista concedida na sede do PL, em Brasília.
O senador também alegou existir uma cláusula de confidencialidade no contrato firmado entre o empresário e a produtora responsável pelo filme. Em entrevista à GloboNews, afirmou: “Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade”.
Na defesa apresentada publicamente, Flávio insistiu que Vorcaro não teria atuado como benfeitor político, mas como investidor interessado em retorno financeiro. “Não é banqueiro enrolado, é investidor de filme”, afirmou ao comentar a relação com o empresário. Também atribuiu as dificuldades de captação de recursos do projeto a uma suposta perseguição da Polícia Federal contra opositores do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O longa Dark Horse — expressão em inglês usada para designar um “azarão” — é dirigido pelo cineasta americano Cyrus Nowrasteh, conhecido por produções de temática religiosa e política, como O Apedrejamento de Soraya M. e O Jovem Messias. O filme retrata a trajetória de Jair Bolsonaro desde o atentado de 2018 até sua chegada à Presidência da República. O protagonista é interpretado pelo ator Jim Caviezel, conhecido mundialmente por viver Jesus em A Paixão de Cristo.
O projeto também reúne figuras ligadas ao bolsonarismo. O deputado federal Mário Frias, ex-secretário especial de Cultura no governo Bolsonaro, participa do roteiro e da produção do longa. Inicialmente, Frias afirmou que “não havia um único centavo” de Vorcaro na produção. Depois, alinhou o discurso ao de Flávio Bolsonaro e passou a defender que não haveria irregularidade por se tratar de uma relação privada.
Nas mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro, Frias aparece agradecendo diretamente o apoio financeiro ao filme. Em áudio enviado em dezembro de 2024, diz: “Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país”.
A produtora Go Up Entertainment também negou inicialmente ter recebido recursos de Vorcaro, embora os documentos analisados pela investigação apontem transferências de pelo menos R$ 61 milhões.
O volume de dinheiro envolvido ampliou as suspeitas sobre o projeto. O orçamento estimado de R$ 134 milhões supera amplamente os valores normalmente investidos em produções nacionais. Para efeito de comparação, O Agente Secreto (2025) custou cerca de R$ 28 milhões, enquanto Ainda Estou Aqui (2024), uma das produções brasileiras mais caras dos últimos anos, teve orçamento de aproximadamente R$ 45 milhões.
As investigações da Polícia Federal também avançam sobre uma possível conexão entre os recursos ligados ao Banco Master e a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde vive desde fevereiro de 2025. Segundo a PF, houve transferências da empresa Entre Investimentos e Participações, associada a Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e representado por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Eduardo negou qualquer benefício financeiro. Em publicação nas redes sociais, classificou as suspeitas como “toscas” e como um “assassinato de reputação”. Disse ainda que sua situação migratória nos Estados Unidos impediria o recebimento desse tipo de recurso.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, admitiu que valores passaram pelo fundo americano, mas sustentou que os recursos foram integralmente destinados ao filme. Segundo ele, Paulo Calixto atuava apenas como gestor do fundo e era uma pessoa de sua confiança.
O caso também alcançou outros aliados do bolsonarismo. O senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e apontado nos bastidores como possível vice de Flávio em uma futura chapa presidencial, tornou-se alvo de operação da Polícia Federal relacionada a suposto favorecimento legislativo ao Banco Master.
No centro da apuração está a chamada “emenda Master”, apresentada por Ciro em 2024. O texto previa ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege investidores em caso de quebra bancária. A mudança beneficiaria diretamente o modelo de negócios do Master, que oferecia aplicações de alta rentabilidade cobertas pelo fundo.
Segundo a Polícia Federal, a proposta teria sido redigida por assessores ligados ao próprio banco e encaminhada ao Senado praticamente sem alterações. Em mensagens interceptadas, Vorcaro comemora o fato de o texto ter sido aprovado da maneira como havia sido enviado. Ciro Nogueira nega irregularidades e sustenta que a proposta possuía caráter técnico voltado à proteção dos correntistas.
Enquanto tenta se desvincular politicamente do escândalo — chegando a declarar que “o Banco Master é do Lula” —, Flávio Bolsonaro aposta agora na instalação de uma CPI como estratégia de defesa pública. Nos bastidores do Congresso, porém, há dúvidas sobre a viabilidade da comissão, especialmente diante da resistência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, também citado nas investigações relacionadas ao caso Master.
Revelações expõem desgaste de Flávio entre conservadores moderados
As revelações sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro produziram efeitos distintos dentro do eleitorado conservador e passaram a preocupar setores da direita que enxergam risco real de enfraquecimento eleitoral da pré-candidatura bolsonarista em 2026.
Levantamento qualitativo conduzido pelo Monitor do Debate Público (MDP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT/ReDem), identificou que os impactos mais sensíveis ocorreram justamente entre grupos considerados estratégicos para a disputa presidencial: bolsonaristas moderados e eleitores conservadores indecisos.
O estudo acompanha, desde 2023, grupos de WhatsApp compostos por diferentes perfis políticos. Atualmente, os pesquisadores monitoram seis segmentos: bolsonaristas convictos, bolsonaristas moderados, indecisos conservadores, indecisos progressistas, lulodescontentes e lulistas. Os participantes recebem semanalmente questionamentos sobre acontecimentos recentes da política brasileira. Após a divulgação dos áudios envolvendo Flávio Bolsonaro, foram estimulados a comentar o caso e seus possíveis efeitos eleitorais.
A análise mostrou que o núcleo mais fiel do bolsonarismo permaneceu alinhado ao senador do PL. Nesse grupo, prevaleceu a leitura de que o episódio seria parte de uma ofensiva política e midiática para desgastar a candidatura antes da campanha eleitoral.
Ainda assim, os pesquisadores identificaram uma mudança relevante em relação a crises anteriores envolvendo o campo bolsonarista: mesmo entre apoiadores convictos, começou a aparecer a cobrança pública para que Flávio apresente explicações mais consistentes sobre os recursos ligados ao filme Dark Horse.
Uma administradora de 47 anos, da Bahia, sintetizou essa percepção ao defender que o senador apresente “toda documentação desse patrocínio com a comprovação de origem e destinação de cada centavo”. Apesar da cobrança, ela manteve apoio político ao parlamentar e afirmou acreditar que o ex-presidente Jair Bolsonaro teria recusado qualquer recurso suspeito.
Entre os bolsonaristas mais alinhados ideologicamente, o foco das reações se deslocou rapidamente do conteúdo das denúncias para críticas à imprensa e ao momento da divulgação dos áudios. Uma enfermeira de Goiás afirmou no grupo monitorado que conversas privadas costumam ser usadas “com o único objetivo de desgastar a imagem do candidato” em períodos eleitorais.
Nos grupos classificados como bolsonaristas moderados, porém, o comportamento foi diferente. Os participantes demonstraram desconforto com as mudanças de versão adotadas pelo senador após a divulgação das mensagens.
Parte das críticas se concentrou no fato de Flávio ter inicialmente negado qualquer negociação envolvendo repasses ao filme e, horas depois, admitir a existência de tratativas privadas para financiar a produção cinematográfica. Um pensionista de 72 anos, do Rio de Janeiro, afirmou que o senador estaria “se enrolando nas próprias alegações”, avaliando que isso corroía sua credibilidade e enfraquecia a narrativa de distanciamento em relação a Vorcaro.
Ao mesmo tempo, esse mesmo segmento revelou preocupação com os efeitos políticos do desgaste para todo o campo conservador. Um eletrotécnico do Rio Grande do Norte afirmou que a direita estaria “entregando de mão beijada a eleição para o atual sistema”, defendendo a manutenção da unidade política mesmo diante dos problemas envolvendo o senador.
A coordenadora da pesquisa, a cientista política Carolina de Paula, avalia que o receio de enfraquecer a direita ainda impede uma ruptura mais ampla entre os bolsonaristas moderados e a candidatura de Flávio Bolsonaro. Segundo ela, o antipetismo continua funcionando como elemento de coesão nesse grupo, sobretudo pela ausência de um nome conservador alternativo considerado competitivo nacionalmente.
O ambiente mais crítico apareceu entre os eleitores classificados como indecisos conservadores. Nesse segmento, os pesquisadores identificaram aumento da desconfiança em relação à coerência do senador e à relação entre empresários investigados e figuras políticas.
Uma maquiadora de 30 anos, do Rio de Janeiro, destacou a contradição entre a admissão de Flávio sobre os recursos e a negativa pública apresentada pela produtora responsável pelo filme. “Não confio em ninguém dessa família”, afirmou durante a discussão monitorada pelos pesquisadores.
Segundo Carolina de Paula, esse grupo não demonstra necessariamente migração direta para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou para candidatos de esquerda. O movimento percebido até agora é mais associado ao aumento do desencanto com a política institucional, com possibilidade de crescimento da abstenção, do voto branco ou da busca por alternativas dentro da própria direita.
Já entre os indecisos progressistas, o episódio foi interpretado menos como surpresa e mais como confirmação de percepções negativas já existentes sobre o bolsonarismo. O próprio filme Dark Horse passou a ser visto nesse grupo como instrumento de propaganda política voltado à mobilização emocional do eleitorado conservador.
A pesquisadora avalia que o desgaste pode abrir espaço para candidaturas que tentem ocupar uma posição mais moderada e menos vinculada diretamente ao núcleo bolsonarista. Nesse contexto, ela cita a movimentação do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, que classificou como “imperdoável” a conversa em que Flávio pede recursos a Vorcaro. Posteriormente, contudo, Zema recuou parcialmente e afirmou que o caso seria uma “página virada”, movimento interpretado como tentativa de evitar conflito aberto com a base conservadora.
Apesar do desgaste identificado qualitativamente, Carolina de Paula afirma que ainda não há sinais concretos de ruptura da polarização política nacional. O cenário mais provável, segundo ela, continua sendo uma disputa presidencial polarizada entre Flávio Bolsonaro e Lula em eventual segundo turno.
A pesquisadora observa que nomes que tentam se apresentar como alternativas ao embate tradicional entre lulismo e bolsonarismo ainda permanecem fortemente conectados ao campo conservador liderado pela família Bolsonaro, o que dificulta a construção de uma candidatura realmente desvinculada da polarização.
Os responsáveis pelo levantamento ressaltam que o monitoramento não possui valor estatístico e não pretende representar numericamente o eleitorado brasileiro. O objetivo da pesquisa é captar mudanças de percepção, emoções e dinâmicas discursivas em segmentos específicos do eleitorado antes que essas transformações apareçam nas pesquisas quantitativas tradicionais.
Mesmo assim, os primeiros sinais de desgaste começaram a aparecer também em levantamentos eleitorais. Pesquisa AtlasIntel divulgada em 19 de maio, encomendada pela Bloomberg, indicou que Lula abriu sete pontos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno — primeiro levantamento realizado após a divulgação dos áudios envolvendo Vorcaro.
Segundo o instituto, Flávio registrou queda de seis pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, enquanto sua rejeição alcançou 52%. O levantamento mostrou ainda que 55% dos entrevistados que tomaram conhecimento das mensagens consideraram os áudios evidência de uma investigação legítima sobre possíveis irregularidades, enquanto 33% avaliaram que o episódio representa tentativa de perseguição política ao senador.
Mercado financeiro se acomoda
A crise não impediu parte do mercado financeiro de manter interlocução política com o principal herdeiro eleitoral do bolsonarismo. Pelo contrário: mesmo diante do desgaste crescente da pré-candidatura presidencial do senador, setores influentes da Faria Lima demonstram disposição para sustentar pontes com o projeto político da família Bolsonaro.
O movimento ficou evidente após a confirmação de que Flávio participaria, nesta quarta-feira, de encontros com executivos de bancos, gestores de fundos e operadores do mercado financeiro. A reunião ocorre logo depois de o senador admitir publicamente que esteve pessoalmente com Vorcaro após a prisão do empresário investigado no caso Banco Master.
Nos bastidores do mercado, a avaliação predominante é de que o episódio produziu danos políticos relevantes, mas insuficientes para inviabilizar o senador como nome competitivo da direita em 2026. Ainda que investidores e agentes financeiros reconheçam o desgaste provocado pela sucessão de versões contraditórias apresentadas por Flávio Bolsonaro, prevalece a lógica pragmática de preservação de um campo político identificado com pautas econômicas liberais e oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A aproximação revela também uma contradição recorrente dentro do mercado financeiro brasileiro. Parte dos operadores que hoje mantém diálogo político com Flávio participou, nos últimos anos, da comercialização de produtos financeiros ligados ao Banco Master, embora o ambiente de desconfiança em relação a Vorcaro já circulasse nos bastidores do setor financeiro antes mesmo das operações da Polícia Federal.
O constrangimento, porém, não se converteu em afastamento político. Ao contrário, setores relevantes da elite econômica passaram a tratar o escândalo como um episódio administrável, apostando que a fidelidade do eleitorado bolsonarista e a ausência de uma alternativa robusta à direita ainda mantêm Flávio Bolsonaro como ativo eleitoral viável.
A postura da Faria Lima também reflete o esvaziamento de opções conservadoras capazes de unificar o campo antipetista sem carregar o passivo político do bolsonarismo. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, visto durante meses como favorito do mercado financeiro para uma candidatura presidencial moderada, continua condicionado politicamente à influência de Jair Bolsonaro e evita movimentos que possam ser interpretados como ruptura com o grupo político do ex-presidente.
Sem uma alternativa consolidada, parte do empresariado passou a tratar o desgaste de Flávio Bolsonaro menos como um fator de veto e mais como um custo político aceitável diante da perspectiva de manutenção de influência sobre um eventual governo conservador.
Esse cálculo político ocorre apesar do avanço das investigações sobre o Banco Master e do impacto negativo que as revelações produziram em segmentos moderados do eleitorado. Pesquisas qualitativas recentes identificaram aumento da desconfiança entre conservadores indecisos e desgaste da credibilidade do senador fora do núcleo bolsonarista mais fiel.
Ainda assim, interlocutores do mercado avaliam que a polarização política tende a preservar a competitividade eleitoral do senador. Nesse cenário, a manutenção do apoio ao filho do ex-presidente funciona como uma forma de preservar acesso político e influência sobre a reorganização da direita para 2026.
O episódio também expõe como parte da elite financeira brasileira passou a relativizar crises éticas e contradições políticas em nome da estabilidade de interesses econômicos e da preservação de alianças estratégicas. Em vez de buscar uma ruptura mais clara com o desgaste produzido pelo escândalo envolvendo Vorcaro, setores da Faria Lima optam por administrar o constrangimento e seguir vinculados ao projeto político liderado pela família Bolsonaro.
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