Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Poder
Presidente brasileiro busca conter influência americana sobre eleições de outubro
Publicado em 06/05/2026 9:56 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva entrar no Salão Oval da Casa Branca, nesta quinta-feira, o principal objetivo da visita não será anunciar acordos econômicos nem lançar iniciativas bilaterais de grande impacto. A prioridade do governo brasileiro é política: estabelecer com Donald Trump um pacto informal de não ingerência na democracia brasileira em pleno período pré-eleitoral.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP
A avaliação do Palácio do Planalto é de que o momento exige uma tentativa de blindagem institucional diante de possíveis movimentos de interferência externa no ambiente político brasileiro. A estratégia da diplomacia brasileira é manter aberto o diálogo com a Casa Branca, mas delimitar com clareza o que considera temas legítimos da relação bilateral e o que seria interpretado como violação da soberania nacional.
O encontro ocorre em meio à preocupação crescente do governo Lula com a atuação de setores alinhados ao trumpismo, sobretudo por meio das big techs, de organizações ultraconservadoras da sociedade civil norte-americana e de alas radicais associadas ao bolsonarismo. A percepção dentro do Itamaraty é a de que, mesmo sem ações diretas da Casa Branca, existe potencial para iniciativas de desestabilização política com repercussão sobre o processo eleitoral brasileiro de 2026.
Nesse contexto, Lula pretende apresentar o Brasil como um parceiro estratégico dos Estados Unidos, mas sem submissão política ou alinhamento automático aos interesses de Washington. A tentativa é ocupar pessoalmente o espaço de interlocução com Trump, sobretudo em temas sensíveis para o governo republicano, como segurança pública e comércio exterior.
Um dos principais pontos de tensão será a insistência norte-americana para que organizações criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, sejam classificadas como grupos terroristas. O governo brasileiro rejeita frontalmente essa possibilidade. Durante a reunião, a delegação levará dados sobre o combate ao crime organizado e insistirá na distinção entre narcotráfico e terrorismo.
A posição brasileira será apresentada de forma direta: “não existem terroristas no Brasil”. A formulação, segundo integrantes do governo, busca impedir que o tema seja instrumentalizado politicamente pelos setores bolsonaristas e, ao mesmo tempo, evitar consequências diplomáticas e jurídicas de uma eventual classificação internacional dessas facções como organizações terroristas.
A proposta de ampliar a cooperação bilateral na área de segurança já havia sido encaminhada pelos Estados Unidos, mas vinha sendo tratada com cautela pelo Planalto. Itamaraty, Polícia Federal e Ministério da Justiça se posicionaram contra a ideia de enquadrar facções criminosas brasileiras na legislação antiterrorismo norte-americana. Ainda assim, Lula pretende demonstrar disposição para ampliar mecanismos conjuntos de combate ao crime organizado, incluindo ações contra lavagem de dinheiro e tráfico internacional de armas.
A avaliação do governo é que a segurança pública será um dos temas centrais da disputa eleitoral de 2026 e, por isso, Lula tenta impedir que a pauta fique monopolizada pela oposição bolsonarista. Ao levar dados sobre operações já realizadas em cooperação com os EUA, o presidente busca reforçar a imagem de um governo disposto à cooperação internacional, mas resistente a enquadramentos políticos externos.
No campo econômico, o encontro terá um caráter essencialmente defensivo. Lula pretende apresentar números que demonstrem a assimetria comercial favorável aos Estados Unidos na relação bilateral, numa tentativa de frear duas investigações comerciais abertas por Washington contra o Brasil. Caso avancem, os processos poderão resultar, já em julho, na retomada de tarifas sobre produtos brasileiros.
Apesar da relevância do tema, a ausência de uma grande delegação empresarial brasileira é interpretada por analistas como sinal de que não há expectativa concreta de novos acordos comerciais estruturantes no curto prazo. A viagem, nesse aspecto, funciona mais como uma ação preventiva de contenção de danos do que como uma ofensiva econômica.
Outro tema sensível da agenda envolve os minerais críticos e as chamadas terras raras, consideradas estratégicas para a indústria tecnológica e militar. Os Estados Unidos pressionam por uma aproximação maior com o Brasil nesse setor, mas as negociações ainda estão longe de um desfecho.
Washington já apresentou duas propostas ao governo brasileiro. A primeira previa uma espécie de reserva regional de mercado para minerais estratégicos em favor dos norte-americanos, envolvendo também países como Argentina e Bolívia. O Brasil recusou aderir ao modelo. Posteriormente, os EUA propuseram um acordo bilateral mais amplo, mas sem oferecer contrapartidas relacionadas ao desenvolvimento industrial e à agregação de valor em território brasileiro — ponto considerado essencial pelo Planalto.
Temas geopolíticos mais amplos, como Venezuela, Cuba e Irã, também poderão surgir durante a conversa entre os dois presidentes, embora o governo brasileiro tente limitar a discussão aos interesses bilaterais. A situação venezuelana, em particular, permanece sensível para o Planalto. Embora Lula compartilhe com Trump o interesse pela estabilidade regional, a forma como ocorreu a saída de Nicolás Maduro foi interpretada pelo governo brasileiro como um sinal preocupante sobre os métodos de atuação dos Estados Unidos na América Latina.
Em relação a Cuba, não há expectativa de convergência entre os dois líderes. Ainda assim, o governo brasileiro considera importante expor sua visão sobre a crise na ilha, repetindo a postura adotada por Lula durante encontro anterior com Joe Biden, em 2023. Já sobre o Irã, interlocutores admitem que o presidente brasileiro poderá defender a busca por um acordo diplomático e de paz.
A própria configuração da visita reforça o caráter pragmático — e cauteloso — do encontro. A Casa Branca definiu a agenda como uma simples “reunião de trabalho”, sem cerimônias protocolares ampliadas, homenagens ou participação de delegações numerosas. A programação prevê uma conversa no Salão Oval seguida de almoço, além de breves declarações à imprensa dentro do gabinete presidencial. Não há previsão de entrevista coletiva conjunta.
Mesmo diante da frieza diplomática do formato, Lula decidiu manter a viagem. A leitura do governo é a de que o encontro servirá para estabelecer limites claros sobre a forma como o Brasil espera ser tratado por Donald Trump até o fim do ano — especialmente em relação à estabilidade democrática, à soberania nacional e ao processo eleitoral brasileiro.
Debate sobre terrorismo expõe riscos diplomáticos
A possível classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas se consolidou como o ponto de maior atrito político entre Brasília e Washington. Mais do que uma divergência conceitual sobre segurança pública, o tema passou a concentrar preocupações diplomáticas, eleitorais e estratégicas dentro do governo Lula.
No Palácio do Planalto, a avaliação é de que uma eventual decisão da Casa Branca nesse sentido abriria margem para formas mais agressivas de atuação dos Estados Unidos em território latino-americano, sob a justificativa do combate ao terrorismo. O receio ganhou força após a escalada envolvendo a Venezuela no ano passado, quando embarcações foram bombardeadas por forças americanas sob suspeita de transporte de drogas — acusação que jamais foi comprovada —, culminando posteriormente na invasão do país e na prisão de Nicolás Maduro, em janeiro.
O temor brasileiro não se restringe ao campo diplomático. Integrantes do governo também enxergam potencial de desgaste interno caso a oposição consiga transformar o tema em arma eleitoral. O senador Flávio Bolsonaro, apontado como principal adversário de Lula na disputa presidencial, passou a defender publicamente o enquadramento das facções como grupos terroristas e utiliza o assunto para atacar a política de segurança do governo.
Durante evento de pré-campanha realizado na Paraíba, em abril, o parlamentar afirmou que, se estivesse na Presidência, o Brasil já teria aderido a um acordo internacional de cooperação para “prender esses marginais e libertar o povo”. A fala foi interpretada no Planalto como um indicativo de que a oposição pretende explorar a resistência do governo à proposta americana como suposta leniência no combate ao crime organizado.
Para o cientista político e professor da Florida International University Guilherme Casarões, a discussão representa hoje a principal vulnerabilidade de Lula na relação bilateral com os Estados Unidos. Segundo ele, ainda que política externa raramente ocupe o centro do debate eleitoral brasileiro, o tema pode produzir efeitos indiretos sobre parcelas mais moderadas do eleitorado.
Na avaliação do especialista, o desafio do governo será sustentar o discurso de defesa da soberania nacional sem provocar rupturas na relação com Washington, especialmente em um momento em que preservar uma interlocução estável com os EUA se tornou prioridade estratégica para o Planalto.
Nos bastidores, o Itamaraty tenta neutralizar o avanço da proposta americana ampliando iniciativas de cooperação bilateral no combate ao crime transnacional. A intenção é demonstrar disposição concreta para ações conjuntas de segurança sem aceitar a narrativa de terrorismo aplicada às facções brasileiras.
O assunto já havia sido tratado diretamente entre Lula e Trump em conversa telefônica realizada em dezembro. Poucos meses depois, em 10 de abril, os dois governos anunciaram um acordo entre a Receita Federal brasileira e autoridades de fronteira dos Estados Unidos voltado ao enfrentamento do tráfico internacional de drogas e armas.
Além disso, Brasília tenta aprofundar mecanismos de cooperação relacionados ao rastreamento de fluxos financeiros ilícitos, à lavagem de dinheiro operada por organizações criminosas e ao comércio ilegal de armamentos que abastecem facções brasileiras. Em entrevista à Globonews, o vice-presidente Geraldo Alckmin confirmou que esses temas voltarão à mesa nas conversas entre Lula e Trump.
Segundo Alckmin, o objetivo é construir uma agenda de investigação conjunta sobre crimes transnacionais, envolvendo desde tráfico de drogas e armas até esquemas financeiros ligados ao abastecimento das organizações criminosas.
Apesar do aumento da pressão política, setores da diplomacia brasileira ainda tratam a ameaça americana com cautela. Um integrante do Itamaraty ouvido pela BBC News Brasil afirmou que a cooperação entre os dois países na área de segurança “é antiga e muito boa” e classificou a discussão sobre terrorismo como um possível “balão de ensaio”.
Dentro do governo, há a percepção de que a ofensiva se conecta ao mesmo ambiente político que levou à imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros no ano passado, medida impulsionada após articulações de Eduardo Bolsonaro junto à Casa Branca. O ex-deputado, que vive nos Estados Unidos desde 2025, mantém interlocução com integrantes do governo Trump e atua para pressionar Washington contra decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo Jair Bolsonaro.
A resistência brasileira à classificação de PCC e CV como organizações terroristas se apoia também em fundamentos jurídicos. O governo argumenta que a Lei Antiterrorismo brasileira estabelece critérios específicos para esse enquadramento, relacionados à motivação ideológica, religiosa, racial ou política dos atos violentos.
Na interpretação do Planalto, as facções criminosas brasileiras operam prioritariamente com objetivos econômicos ligados ao narcotráfico, à extorsão e a outras atividades ilícitas, sem finalidade política ou ideológica que caracterize terrorismo segundo a legislação nacional.
Essa diferenciação é compartilhada por especialistas em relações internacionais e segurança pública. Guilherme Casarões afirma que organizações terroristas e grupos de crime organizado possuem estruturas, métodos e objetivos distintos, exigindo instrumentos jurídicos específicos de enfrentamento.
Segundo ele, a ampliação indiscriminada da categoria “terrorismo” após os ataques de 11 de setembro permitiu aos Estados Unidos expandirem mecanismos de intervenção internacional sob justificativas de segurança nacional. Na avaliação do professor, o enquadramento de facções brasileiras nessa lógica poderia abrir precedentes para ações unilaterais em território estrangeiro sem respaldo jurídico internacional robusto.
Além das implicações diplomáticas, especialistas alertam para potenciais efeitos econômicos. Empresas brasileiras que mantenham relações indiretas — ainda que periféricas — com cadeias produtivas infiltradas por organizações criminosas poderiam enfrentar restrições para operar no mercado americano caso PCC e CV fossem formalmente classificados como entidades terroristas pelos EUA.
SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON
Deixe um comentário