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Poder

Encontro entre Lula e Trump indica disputa por influência na América Latina

Empresários apostam em queda de tarifas na reunião deste domingo

Publicado em 25/10/2025 10:05 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O aguardado encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, previsto para ocorrer durante a cúpula da ASEAN, na Malásia, neste domingo (26), vai além de tentativas de distensionar a relação comercial entre os dois países. O gesto expõe uma disputa mais ampla entre projetos políticos antagônicos que buscam influenciar os rumos da América Latina, região que volta a ganhar protagonismo nas estratégias geopolíticas globais e na agenda da Casa Branca.

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Nas últimas semanas, Trump intensificou seu discurso intervencionista: elevou o tom contra a Venezuela, criticou o governo de Gustavo Petro na Colômbia por suposta ineficácia no combate ao narcotráfico, reforçou sanções contra Cuba e pressionou a Argentina a rever sua aproximação com a China. Paralelamente, a presença militar dos EUA na região vem sendo reafirmada com ações no Pacífico.

Do outro lado, Lula tenta reposicionar o Brasil como mediador confiável e defensor do multilateralismo, propondo que a América Latina se consolide como uma “zona de paz” e alertando contra a subordinação da região às disputas entre potências globais. A estratégia visa retomar o protagonismo diplomático brasileiro e oferecer um modelo alternativo ao alinhamento automático com Washington.

“Não se trata apenas de uma disputa de lideranças pessoais”, analisa o professor Lucas Leite, da FAAP. “Trump opera com uma lógica de pressão assimétrica – tarifas, sanções –, enquanto Lula resgata a diplomacia de concertação sul-americana, com foco em mecanismos regionais e agendas sociais. Em jogo está o modelo de inserção da América Latina no mundo: como zona de influência sob condicionalidades, na perspectiva dos EUA, ou como plataforma de integração e diversificação de parcerias, na ótica brasileira.”

Brasil aposta na reconstrução de pontes

Embora o encontro ainda não tenha sido oficialmente confirmado pelo Palácio do Planalto, Lula manifestou interesse em dialogar com o presidente norte-americano. Em visita à Indonésia na sexta-feira (24), afirmou que “não há assunto proibido” na pauta bilateral. A expectativa brasileira é de que os EUA reconsiderem as tarifas e sanções aplicadas a produtos e autoridades do país desde o retorno dos republicanos ao poder.

Desde que Trump reassumiu a Casa Branca, a relação entre os dois governos foi marcada por tensões. Em ocasiões recentes, houve troca de farpas públicas: Lula acusou Trump de querer ser “imperador do mundo”, enquanto o norte-americano criticou o Judiciário brasileiro pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mesmo assim, uma primeira aproximação aconteceu durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro, seguida por uma reunião virtual considerada positiva por ambos os lados. Para especialistas, a retomada do diálogo pode representar mais que uma reaproximação pontual: pode abrir caminho para debates sobre diretrizes mais duradouras nas políticas externas de Brasil e EUA.

“Para Washington, manter a hegemonia na região é uma estratégia de longo prazo, que remonta ao século 19”, afirma Lívia Peres Milani, pesquisadora da UNESP. “O segundo mandato de Trump sinaliza uma disposição maior de impor essa hegemonia pela força, algo que já se esboçava desde Obama, mas que ganhou contornos mais agressivos.”

Por outro lado, Milani lembra que o projeto de liderança regional do Brasil também tem raízes históricas. “Essa ambição, resgatada agora por Lula, foi visível em seus primeiros mandatos e sempre focou a América do Sul — deixando de fora Caribe, América Central e México, regiões sob influência mais direta dos EUA.”

Disputa remonta à lógica de potências

O cenário atual ecoa tensões históricas. Para Milani, a América Latina voltou a ser vista como peça-chave na disputa entre grandes potências, agora simbolizadas por China e Estados Unidos. A retórica de “competição estratégica”, que já emergia discretamente sob Obama, ganhou força com Trump e persistiu no governo Biden.

“É uma reedição das disputas globais que pareciam superadas após o fim da Guerra Fria”, avalia. “Essa disputa enfraquece o regionalismo promovido pelo Brasil, mas também reforça sua urgência. A presença militar dos EUA funciona como alerta para a necessidade de consolidar formas autônomas de governança regional.”

Na visão de Lucas Leite, a disputa atual extrapola ideologias. “Trump resgata a lógica da Guerra Fria ao dividir o mundo entre aliados e inimigos, mas o foco está em cadeias produtivas, tecnologias estratégicas e rotas comerciais. A América Latina entra nesse tabuleiro como território-chave em uma disputa por poder econômico e influência tecnológica.”

Blocos regionais em xeque

Apesar do esforço de Lula para retomar a liderança regional, o cenário doméstico latino-americano impõe obstáculos. “Hoje, há pouca convergência entre os governos da região em torno de um projeto comum”, afirma Pedro Brites, professor da FGV. “Na década de 2000, havia uma maior sintonia em torno da integração regional. Hoje, isso é mais difícil.”

Os principais blocos regionais também perderam tração. A Celac se consolidou como um fórum de diálogo, mas sem força executiva. O Mercosul, ainda o mais estruturado, enfrenta impasses internos e precisa se atualizar para lidar com temas como energia limpa, inovação tecnológica e infraestrutura. Já a Unasul, reativada recentemente, não figura entre as prioridades da maioria dos países sul-americanos.

Nos EUA, a política externa ainda é marcada pela Doutrina Monroe, que inspira intervenções diretas ou indiretas. “Historicamente, os americanos foram mais intervencionistas na América Central e Caribe, mas a América do Sul começa a sentir esse peso, como se vê nas ameaças recentes à Venezuela”, alerta Brites.

Enquanto isso, a China consolida sua presença na região como principal parceiro comercial de diversos países, oferecendo investimentos, crédito e transferência de tecnologia. Washington tenta conter esse avanço com acordos bilaterais e pressão diplomática em temas como telecomunicações e minerais estratégicos — uma agenda em que o Brasil tem papel central.

“Os países latino-americanos não querem escolher lados, mas são obrigados a administrar suas dependências”, resume Lucas Leite. “O desafio é transformar essa disputa em oportunidade: atrair investimentos, negociar acordos vantajosos e fortalecer a autonomia regional. Caso contrário, corremos o risco de reviver um jogo de dependência em que as decisões são tomadas fora da região.”

Trump admite negociar tarifaço e Lula promete acordo

“Acredito que vamos nos encontrar, sim”, afirmou Trump. “Sob as circunstâncias certas, com certeza”, respondeu ao ser questionado sobre a possibilidade de aliviar o tarifaço.

A sinalização positiva da Casa Branca foi bem recebida pela delegação brasileira presente na capital malaia para a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). Um funcionário graduado confirmou que o encontro entre os dois líderes está previsto para o final da tarde deste domingo (horário local), no centro de convenções da cúpula. Lula, ao comentar a expectativa sobre o encontro, afirmou: “Espero que role. Vim aqui com disposição de que a gente possa encontrar uma solução.”

Embora Trump tenha condicionado qualquer avanço às “circunstâncias certas”, Lula indicou que até o momento não houve imposições por parte dos norte-americanos. “Não tem exigência dele e não tem exigência minha. Vamos colocar na mesa os problemas e vamos encontrar uma solução”, disse o presidente brasileiro a jornalistas. O tom conciliador, entretanto, esconde um pano de fundo delicado: além das tarifas, há crescente desconforto no governo brasileiro com o avanço da presença militar americana na América do Sul.

Desde o início de setembro, os Estados Unidos intensificaram exercícios navais próximos à costa da Venezuela, com manobras agendadas neste domingo em Trinidad e Tobago — a poucos quilômetros do território venezuelano. A movimentação é vista com preocupação pelo Itamaraty, que, segundo fontes da delegação brasileira, deve se pronunciar oficialmente sobre os ataques recentes somente após a reunião com Trump. O Brasil ainda não emitiu nota formal sobre as ofensivas americanas a barcos venezuelanos supostamente ligados ao narcotráfico.

Apesar de evitar críticas diretas ao governo americano, Lula não deixou de expressar incômodo. Em conversa com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, neste sábado, mencionou que agora “temos uma perspectiva americana de colocar navios de guerra próximos à Venezuela”. A declaração ecoa a estratégia diplomática do Brasil de manter neutralidade nas disputas geopolíticas, sem abrir mão da crítica quando considera haver risco à estabilidade regional.

Enquanto isso, Lula concentrou seus ataques públicos na Rússia, ao comentar a guerra na Ucrânia. “Já era para ter terminado essa guerra”, disse, sinalizando sua frustração com a continuidade do conflito e buscando reposicionar o Brasil como defensor da paz e do multilateralismo.

Na esfera comercial, os impactos do tarifaço são sentidos especialmente no setor agrícola brasileiro, um dos principais alvos das sobretaxas impostas pelos EUA. A tarifa de 50% incide sobre produtos como carne bovina, etanol e aço — setores que respondem por uma fatia relevante das exportações brasileiras para os Estados Unidos. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), os EUA foram o segundo principal destino das exportações brasileiras em 2024, com mais de US$ 35 bilhões em vendas, apesar das barreiras tarifárias.

A negociação, portanto, tem peso estratégico para o governo Lula, que busca ampliar o acesso a mercados e retomar o protagonismo diplomático do Brasil. No entanto, há receio entre aliados do presidente sobre a forma como Trump conduzirá o encontro. Segundo interlocutores, o Palácio do Planalto trabalha para evitar exposição a “constrangimentos públicos” e ainda negocia se haverá ou não uma sessão aberta à imprensa.

Mesmo sob esse clima de cautela, a avaliação no entorno de Lula é de que o encontro poderá gerar avanços. “Trabalho com otimismo que a gente possa encontrar uma solução”, disse o presidente.

O resultado da conversa entre os dois líderes poderá marcar um novo capítulo nas relações comerciais e diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos — hoje atravessadas por interesses econômicos, disputas regionais e uma crescente tensão militar no continente. Se haverá acordo, ainda é incerto. Mas, como declarou Lula, “pode ficar certo que vai ter uma solução”.

Empresários apostam em queda de tarifas na reunião de Trump e Lula

Às vésperas da reunião, representantes do setor privado dos dois países demonstram otimismo com a possibilidade de um primeiro entendimento comercial. Após meses de tensões diplomáticas e tarifárias, o clima entre as delegações é descrito como “positivo” e de “distensão”, segundo apurou o UOL, e há expectativa concreta de que um anúncio conjunto possa ocorrer ainda durante o encontro.

Nos bastidores, diplomatas e negociadores brasileiros avaliam que o momento político favorece um gesto mútuo, ainda que parcial, capaz de destravar pontos críticos da pauta bilateral. A dúvida recai sobre a abrangência e profundidade da redução tarifária, mas há consenso de que o gesto inicial poderá pavimentar um novo ciclo de aproximação econômica entre Brasília e Washington.

Entre os setores em negociação, o etanol surge como peça-chave. O Brasil cogita reduzir a tarifa de 18% sobre o etanol de milho importado dos Estados Unidos, como forma de atender uma demanda política da Casa Branca e oferecer a Trump um trunfo eleitoral junto ao setor agrícola americano, que enfrenta queda expressiva nas exportações para a China — cerca de 40% entre junho de 2024 e junho de 2025, conforme dados oficiais do governo dos EUA.

Em setembro, o tema foi formalmente levado ao governo americano por líderes da indústria de biocombustíveis. Geoff Cooper, CEO da Renewable Fuels Association (RFA), afirmou em audiência na Comissão de Comércio Internacional dos EUA que o Brasil “prejudica” os produtores americanos com barreiras “irracionais” e “altamente eficazes” para proteger seu mercado interno. Segundo Cooper, os EUA exportaram 489 milhões de galões de etanol para o Brasil em 2018, no valor de US$ 761 milhões. Em 2024, esse número despencou para 28 milhões de galões, o equivalente a US$ 53 milhões — uma queda de mais de 90%.

Trump, pressionado por produtores do Meio-Oeste, pode tentar vender uma abertura parcial do mercado brasileiro como símbolo de “vitória” diplomática. O Brasil, por sua vez, usaria a oferta como moeda de troca para reverter o tarifaço de 50% que atinge diversos produtos nacionais nos EUA, principalmente do setor agrícola e metalúrgico.

Outro eixo das negociações diz respeito ao investimento direto brasileiro em solo americano. Empresas brasileiras indicam que, caso as tarifas impostas sejam reduzidas, há potencial imediato para cerca de US$ 7 bilhões em novos aportes na economia dos Estados Unidos. Hoje, companhias brasileiras já mantêm operações em pelo menos 23 estados e sustentam mais de 110 mil empregos, com presença significativa em regiões estratégicas como Flórida, Geórgia, Texas e Tennessee.

Essa narrativa é funcional para Trump, que busca fortalecer sua imagem como defensor da economia doméstica às vésperas de um ciclo eleitoral conturbado. Do ponto de vista brasileiro, o gesto ajuda a reposicionar o país como parceiro confiável em meio à fragmentação das cadeias globais de valor.

Além das tarifas e dos investimentos, a agenda da reunião deve incluir minerais críticos e terras raras — itens estratégicos na disputa tecnológica entre EUA e China. Segundo o UOL, o tema entrou no radar bilateral após a assinatura de um acordo entre Estados Unidos e Austrália, nesta semana, que prevê um pacote de US$ 8,5 bilhões para ampliar a capacidade de mineração e processamento de materiais essenciais, como lítio, neodímio e outros usados em equipamentos de defesa, carros elétricos e chips de computador.

O domínio chinês sobre esse setor é esmagador: o país responde por cerca de 70% da extração e 90% do processamento mundial de terras raras. Em resposta às tarifas americanas, Pequim tem restringido o acesso global a esses suprimentos, gerando instabilidade nas cadeias de produção ocidentais. Nesse contexto, o Brasil — com uma das maiores reservas de terras raras do planeta — emerge como ator-chave. A expectativa é que o encontro entre Lula e Trump inclua discussões preliminares sobre modelos de cooperação semelhantes ao firmado com a Austrália.

Por fim, interlocutores não descartam que temas como compras governamentais e transferência de tecnologia também integrem a pauta, ainda que em estágio embrionário. O objetivo, neste primeiro momento, é construir confiança e estabelecer canais técnicos para aprofundar a cooperação em setores de interesse mútuo.

A reunião entre os dois líderes, portanto, transcende o debate imediato sobre tarifas. Ela carrega implicações geopolíticas, econômicas e até simbólicas, em um cenário internacional marcado por realinhamentos de forças, choques comerciais e tensões militares. Se bem-sucedido, o encontro poderá marcar uma inflexão nas relações Brasil-EUA e abrir espaço para uma nova etapa de interlocução entre as duas maiores economias do continente americano.

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