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Poder
Congresso fecha os olhos para R$ 800 bilhões em renúncias fiscais
Publicado em 30/06/2025 11:27 - Semana On
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Não é com tanques, discursos inflamados ou invasões de prédios públicos que se desenha o novo ataque à democracia no Brasil. O golpe atual tem outra natureza: é tecnocrático, sutil e profundamente excludente. Nas planilhas apresentadas por economistas e nas decisões do Congresso, o que se vê é uma tentativa meticulosa de desmontar o pacto social firmado na Constituição de 1988, deslocando a responsabilidade pela crise fiscal para os ombros de quem menos tem.
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Estamos diante de uma transformação insidiosa: o neoliberalismo autoritário — expressão cunhada por autores como Wendy Brown e David Harvey — se reconfigura no Brasil como um sistema em que as elites políticas e econômicas operam, sob o verniz da racionalidade fiscal, uma nova forma de exclusão social. Não se trata de uma ruptura institucional clássica, mas de um processo de corrosão sistemática dos direitos sociais, travado com armas discursivas e sustentado por interesses corporativos incrustados no Congresso Nacional.]
A farsa do sacrifício: pobres no alvo, ricos blindados
Nos debates recentes sobre o salário mínimo, a narrativa que se impõe é conhecida: o país está quebrado, e “sacrifícios” são inevitáveis. Mas a quem se exige o sacrifício? Aos 54 milhões de brasileiros que recebem o Bolsa Família? Aos aposentados que mal conseguem cobrir os custos básicos da vida? Ao trabalhador informal que sobrevive com menos de um salário mínimo por mês?
Segundo o DIEESE, o salário mínimo necessário em abril de 2025 deveria ser de R$ 7.528,56 para garantir moradia, alimentação, saúde, educação e transporte. O valor pago hoje é de R$ 1.518, menos de 20% do ideal. Mesmo assim, parlamentares e economistas de grandes bancos têm defendido o fim da política de valorização real do salário mínimo, além da desvinculação dos benefícios previdenciários e assistenciais. A proposta, na prática, representa uma redução gradual do poder de compra dos mais pobres, sob o argumento de que isso “ajudaria a conter o déficit público”.
O problema é que essa lógica não se aplica ao topo da pirâmide social. As renúncias fiscais que beneficiam empresas e setores privilegiados somam cerca de R$ 800 bilhões por ano, segundo a Receita Federal. O Bolsa Família, programa constantemente atacado como “populista” ou “assistencialista”, custa R$ 160 bilhões e atende mais de um quarto da população brasileira.
Nas palavras do economista Thomas Piketty, “um sistema fiscal justo é aquele em que os mais ricos contribuem proporcionalmente mais para o financiamento do Estado do que os mais pobres”. No Brasil, ocorre o oposto. O sistema tributário é regressivo: quem ganha menos paga proporcionalmente mais, seja por meio de impostos indiretos (como o ICMS sobre alimentos e energia), seja pela isenção de dividendos recebidos pelos super-ricos — prática que, entre os países da OCDE, só o Brasil e a Estônia ainda mantêm.
O Congresso capturado: entre o rentismo e o corporativismo
Essa inversão de prioridades não é casual. O Congresso Nacional, cuja função institucional é representar o povo, opera hoje como representante direto dos interesses do 1% mais rico da população. A bancada empresarial é majoritária, o lobby das grandes corporações atua com liberdade, e as prioridades legislativas seguem a lógica da maximização de lucros, não da proteção social.
O exemplo mais evidente foi a derrubada do decreto do governo que aumentava o IOF. A medida buscava arrecadar recursos para programas sociais, mas foi rejeitada com rapidez — não por critérios técnicos, mas por interesses de mercado. O ministro Fernando Haddad, ao comentar o episódio, afirmou que o “regime político mudou”, sinalizando a dificuldade crescente de se negociar políticas redistributivas no atual arranjo institucional.
Essa disfunção se estende aos Três Poderes da República. O Judiciário, pressionado pela omissão do Congresso, assume decisões que deveriam ser legisladas, como a regulação das redes sociais. O Executivo, por sua vez, vê suas pautas bloqueadas ou desfiguradas por um parlamento em que o “centrão fiscalista” atua como operador dos setores mais ricos da sociedade.
Elites e privilégio: uma história de longa duração
O que vemos hoje não é um desvio recente, mas a continuação de uma tradição oligárquica profundamente enraizada na história brasileira. Desde a República Velha, passando pelo Estado Novo e pela Ditadura Militar, as elites brasileiras souberam capturar o Estado para reproduzir seus privilégios, enquanto criminalizavam a mobilização social e as tentativas de redistribuição.
Florestan Fernandes, sociólogo e deputado constituinte, já denunciava nos anos 1980 a existência de um “liberalismo autoritário”, no qual as instituições democráticas funcionam apenas na aparência, mas são instrumentalizadas pelas elites para manter a desigualdade estrutural. O golpe de 2016 e o governo Bolsonaro foram expressões brutais dessa lógica. O que se vê agora é uma versão mais sutil, mas não menos perversa.
Como lembra o sociólogo Jessé Souza, em A Elite do Atraso (2017), o Brasil se estruturou sob um pacto implícito que transfere o ônus do desenvolvimento para os mais pobres, enquanto as classes dominantes se beneficiam de um sistema estatal montado para servi-las. “O brasileiro médio é treinado para odiar o pobre e idolatrar o rico, mesmo que isso contrarie seus próprios interesses”, escreve.
A falsa neutralidade técnica e a ideologia do ajuste
A técnica econômica, apresentada como neutra, é profundamente política. A escolha de cortar direitos sociais em vez de enfrentar os privilégios fiscais é uma decisão ideológica, não uma imposição da realidade. E é nesse ponto que o discurso dominante se revela como forma de violência simbólica, nos termos de Pierre Bourdieu.
Ao afirmar que os pobres são “onerosos”, que os programas sociais são “gasto” e que o salário mínimo não pode crescer acima da inflação, o sistema político brasileiro reproduz uma lógica perversa de naturalização da exclusão. Trata-se, como advertiu o filósofo Achille Mbembe, de um projeto de necropolítica: decidir quem vive com dignidade e quem pode ser abandonado.
Um chamado à resistência: Haddad e a luta por justiça
Durante palestra na USP em maio de 2025, o ministro Haddad convocou os setores progressistas a “vestirem o uniforme do embate”. Não se tratava apenas de retórica. Sua fala expôs o esgotamento do modelo político atual e a necessidade urgente de uma reconfiguração do pacto social, baseada na justiça tributária e na redistribuição de renda.
“O pobre está no Imposto de Renda e o rico está na renúncia fiscal”, sintetizou. E acrescentou: “A desigualdade é o maior entrave ao desenvolvimento do Brasil. A verdade é o começo da solução”.
Mas a verdade, como sempre, incomoda quem se beneficia da mentira.
A democracia como campo de disputa social
O Brasil vive, mais uma vez, um momento limiar. A democracia não está sendo rompida por tanques ou discursos golpistas, mas sim minada lentamente pela lógica tecnocrática da exclusão, pelas alianças espúrias entre elites econômicas e seus representantes no Legislativo, e pela captura do Estado por interesses que se colocam acima do bem comum.
Se não houver reação social, política e intelectual à altura, o projeto iniciado em 1988 — de construção de uma sociedade mais justa, plural e solidária — pode se tornar apenas uma nota de rodapé nos livros de história. E o golpe, mais uma vez, triunfará. Só que, desta vez, sem que a maioria sequer perceba.
O que defende o mercado financeiro
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