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Poder

Eduardo tenta sabotar diplomacia brasileira em Washington

Às vésperas do “tarifaço”, bolsonarismo articula contra o país e fortalece elo com extrema direita americana

Publicado em 28/07/2025 10:50 - Semana On

Divulgação Reprodução

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À beira do maior revés comercial das últimas décadas entre Brasil e Estados Unidos, o governo brasileiro se vê encurralado não apenas por uma guinada isolacionista da Casa Branca sob Donald Trump, mas também por um sabotador doméstico com acesso privilegiado aos bastidores do trumpismo. Enquanto oito senadores de distintos espectros partidários — entre eles aliados de Lula e de Bolsonaro — tentam negociar uma saída para o tarifaço de 50% que entrará em vigor em 1º de agosto, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) dedica-se a minar os esforços da missão brasileira, operando como elo informal entre a extrema direita norte-americana e interesses bolsonaristas.

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A ofensiva tarifária promovida por Trump mira exportações brasileiras com potencial devastador sobre setores como agronegócio, mineração e tecnologia. No entanto, o cenário geopolítico revela que o cerco econômico é apenas a face visível de uma disputa mais profunda: o isolamento diplomático do Brasil sob Lula diante de um eixo reacionário transnacional em expansão.

Com visitas discretas e encontros reservados, os senadores brasileiros tentam manter o sigilo sobre suas interlocuções nos Estados Unidos. O receio é que qualquer pista seja repassada a grupos trumpistas por Eduardo Bolsonaro, que, segundo fontes no Congresso americano, mantém contato direto com nomes influentes da ala mais radical do Partido Republicano, como o senador Marco Rubio e estrategistas próximos a Steve Bannon.

A delegação do Senado, que inclui o líder do governo Lula, Jaques Wagner (PT-BA), dois ex-ministros bolsonaristas — Tereza Cristina (PP-MS) e Marcos Pontes (PL-SP) — além de Fernando Farias (MDB-AL), astronauta Marcos Pontes (PL-SP), Nelsinho Trad (PSD-MS) e Espiridião Amin (PP-SC), adotou uma estratégia institucional. Marcaram audiências com parlamentares americanos, dialogaram com empresários e se dispuseram a longas esperas em antessalas em busca de respaldo político. Trata-se de uma tentativa de reconstruir pontes, mesmo que precárias, entre os dois países, em contraste com a ruptura imposta pela diplomacia bolsonarista durante o primeiro mandato de Trump.

O preço da omissão e o custo da conspiração

Apesar dos sinais de urgência, o Itamaraty patina. O chanceler Mauro Vieira, embora tenha se deslocado a Nova York, priorizou debates na ONU sobre o conflito na Palestina. Paralelamente, tentou sinalizar disposição para negociar temas comerciais com o governo Trump, mas sem abordar diretamente a questão tarifária — interpretada por especialistas como chantagem para forçar o Brasil a aliviar pressões judiciais sobre Jair Bolsonaro.

Geraldo Alckmin, vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, encaminhou duas cartas oficiais ao governo americano em conjunto com Vieira. Nenhuma foi respondida. Na semana passada, Alckmin conversou com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, ligado diretamente à administração Trump. Segundo o vice, o diálogo foi “positivo”. Mas dois dias depois, Trump reafirmou publicamente que o tarifaço entrará em vigor como previsto.

Na avaliação do cientista político e ex-embaixador Rubens Ricupero, “o Brasil vive hoje o maior grau de isolamento diplomático desde a ditadura militar. No entanto, é um erro imaginar que relações institucionais funcionam quando o interlocutor principal — no caso, Trump — opera à margem das convenções diplomáticas”.

A herança bolsonarista e a nova guerra cultural

A ação de Eduardo Bolsonaro em território americano não é um desvio eventual, mas parte de uma estratégia mais ampla de realinhamento internacional da extrema direita brasileira. Desde o início da legislatura, o deputado intensificou sua presença nos EUA, frequentando eventos conservadores, fortalecendo laços com think tanks ultraliberais e usando sua ligação pessoal com Steve Bannon como canal de influência junto a setores do governo Trump.

Essa atuação se insere no que o sociólogo norte-americano Michael Lind chama de “internacional do nacionalismo”, uma aliança informal de forças políticas que compartilham valores antiliberais, conservadorismo cultural e rejeição a instituições multilaterais (The New Class War, 2020).

Para Lula, o desafio não é apenas econômico, mas estruturalmente político. Durante seus mandatos anteriores, cultivou relações sólidas com líderes democratas e republicanos, incluindo George W. Bush e Barack Obama. Com Trump, não há sequer diálogo. O contraste é flagrante: de uma diplomacia ativa e reconhecida no G20 e BRICS, o Brasil agora tenta encontrar espaço num cenário hostil, onde velhos aliados viraram adversários ideológicos.

A metáfora usada por diplomatas brasileiros resume o drama: “É como procurar um gato preto numa sala escura, sabendo que não há nenhum gato ali.” Por enquanto, no escuro, quem se faz ouvir é Bolsonaro — e não o Brasil.

Lula chama Trump “para conversar”

Na sexta (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi induzido a acreditar “em uma mentira”, de que o ex-presidente Jair Bolsonaro está sofrendo perseguição no Brasil. “O Bolsonaro não é um problema meu, é um problema da Justiça brasileira”, disse Lula durante evento em Osasco (SP).

“O Bolsonaro não está sendo perseguido, ele está sendo julgado com todo o direito de defesa. Ele tentou dar um golpe nesse país, ele não queria que eu e o [vice-presidente, Geraldo] Alckmin tomássemos posse e chegou a montar uma equipe para matar o Lula, o Alckmin e para matar o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o Alexandre Moraes. Isso já está provado por delação deles mesmos”, disse o presidente.

Lula se colocou à disposição para negociar a taxação de 50% que os EUA querem impor às exportações brasileiras. “Se o presidente Trump tivesse ligado para mim, eu certamente explicaria para ele o que está acontecendo com o ex-presidente”, afirmou.

Para o presidente, o filho de Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro se licenciou do mandato na Câmara e foi para os Estados Unidos pedir intervenção no Brasil, “numa total falta de patriotismo”. “Vocês na Câmara tem que tomar uma atitude”, disse Lula aos deputados presentes na cerimônia.

No último dia 9 de julho, o presidente Trump enviou uma carta a Lula anunciando a imposição da tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros a partir do dia 1º de agosto. No documento, Trump justifica a medida citando o ex-presidente Jair Bolsonaro, que é réu no STF por tentativa de golpe de Estado; ele pede a anistia a Bolsonaro.

Diálogo

Lula, então, acionou o vice-presidente Alckmin, que também é ministro da Indústria, Comércio e Serviço, e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para negociarem uma solução diplomática com o país norte-americano. O governo também criou um comitê para discutir as taxações com o setor produtivo brasileiro.

“Trump, o dia que você quiser conversar, o Brasil estará pronto e preparado para discutir, para tentar mostrar o quanto você foi enganado com as informações que te deram e você vai saber a verdade sobre o Brasil. E quando você souber da verdade, você vai falar: ‘Lula, eu não vou mais taxar o Brasil, vamos ficar assim do jeito que está’. É isso. Mas é preciso conversar. E está aqui o meu conversador número 1”, disse Lula, citando o vice-presidente.

“Ninguém pode dizer que o Alckmin não quer conversar. Todo dia ele liga para alguém e ninguém quer conversar com ele. Este país é o país de um povo generoso. Então, eu quero que o Trump nos trate com a delicadeza e o respeito que eu trato os Estados Unidos e o povo americano”, acrescentou Lula.

O presidente dos Estados Unidos também justifica as taxações citando “ataques contínuos do Brasil às atividades comerciais digitais de empresas americanas” e suposta “censura” contra plataformas de redes sociais dos Estados Unidos, “ameaçando-as com multas de milhões de dólares e expulsão do mercado de mídia social brasileiro”. A pressão dessas empresas contra a regulação do setor no Brasil teria influenciado a decisão do presidente Trump de aplicar as tarifas.

Lula reafirmou que vai promover a regulação das chamadas big techs – as gigantes que controlam as plataformas digitais. “Nós vamos fazer regulação porque eles têm que respeitar a legislação brasileira. Não pode ficar promovendo ódio entre os adolescentes, contando mentira, tentando destruir a democracia e o Estado de direito e democrático. Esse país tem lei e mais do que lei, esse país tem um povo que tem vergonha na cara, caráter e coragem para saber se defender”, afirmou.

Outro argumento de Donald Trump para a taxação seria o prejuízo na relação comercial com o Brasil. “A terceira coisa que também o presidente americano foi mal informado”, disse Lula. “Se você pegar serviços e comércio, os Estados Unidos tem um superávit, em 15 anos, de US$ 410 bilhões. Então, quem deveria estar reclamando éramos nós. E nós não estamos reclamando, estamos querendo negociar”, acrescentou.

Por fim, Lula afirmou que está tranquilo, mas que o Brasil vai tomar as suas posições. O governo estuda responder ao tarifaço com a Lei de Reciprocidade Econômica, mas não sem antes esgotar as vias de diálogo.

“Eu não só estou negociando, como estou colocando o meu companheiro, o vice-presidente da República, que é um homem calejado, para ser um negociador. E ele, obviamente, que não fala rouco como eu, não parece bravo como eu, ele é todo gentil. Mas ele sabe que o Brasil tem razão”, disse o presidente em Osasco.

Investimentos brasileiros nos EUA crescem 52% em uma década, aponta CNI

O investimento de empresas brasileiras nos Estados Unidos avançou 52,3% nos últimos dez anos, alcançando US$ 22,1 bilhões em 2024. É o que revela um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado na semana passada. Segundo o estudo, ao menos 70 companhias brasileiras mantêm operações produtivas em 23 dos 50 estados americanos.

Entre 2020 e 2024, empresas brasileiras anunciaram aportes superiores a US$ 3,3 bilhões em novos empreendimentos nos EUA. Os setores que mais concentraram os investimentos foram: alimentos e bebidas (28%), plásticos (12,4%), produtos de consumo (9,8%), software e serviços de TI (9,6%) e metais (9,3%).

A Flórida lidera entre os estados americanos que concentram empresas brasileiras com unidades produtivas, com 12 companhias instaladas. Na sequência aparecem a Geórgia (7), Michigan, Minnesota, Missouri e Nova York (6 cada), além do Tennessee e do Texas (5 cada).

Nos últimos cinco anos, 70 empresas brasileiras anunciaram projetos nos EUA. Entre os maiores aportes estão os da JBS (US$ 807 milhões), Omega Energia (US$ 420 milhões), Companhia Siderúrgica Nacional – CSN (US$ 350 milhões), Bauducco Foods (US$ 200 milhões) e Embraer (US$ 192 milhões).

De janeiro a maio de 2025, nove companhias brasileiras já anunciaram novos investimentos em território americano. A Embraer, por exemplo, implantará um centro de manutenção no Texas, com aporte de US$ 70 milhões e previsão de geração de 250 empregos. A JBS anunciou uma nova planta em Iowa, com investimento de US$ 135 milhões e 500 vagas diretas. Já a Sustainea — joint venture entre a Braskem e a japonesa Sojitz — prevê US$ 400 milhões em uma nova instalação no estado de Indiana.

Ao todo, 2.962 empresas brasileiras possuem algum tipo de investimento nos EUA, segundo o mapeamento da CNI. Para o presidente da entidade, Ricardo Alban, os dados reforçam a solidez da relação bilateral. “Essa é a prova de que o setor produtivo brasileiro vê na integração com os Estados Unidos muito mais que comércio: vê parceria. O avanço dos investimentos de ambos os lados, ao longo dos anos, reforça o caráter complementar e os benefícios mútuos dessa relação”, afirmou.

O estudo também indica movimento inverso: 186 empresas norte-americanas anunciaram novos empreendimentos no Brasil entre 2015 e 2025. Entre os principais aportes estão os da Bravo Motor Company (US$ 4,3 bilhões), Microsoft (US$ 3 bilhões), CloudHQ (US$ 3 bilhões), Amazon (US$ 2,8 bilhões) e New Fortress Energy (US$ 1,6 bilhão).

Os setores que mais atraíram investimentos americanos no Brasil nesse período foram comunicações (31%), montadoras de automóveis (13,5%), carvão, petróleo e gás (11,4%), serviços financeiros (10,9%) e energias renováveis (7,1%).

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