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Poder

Eduardo Bolsonaro vê seu castelo de sonhos desmoronar

A lição é direta: Trump não se associa com perdedores

Publicado em 13/12/2025 11:41 - Semana On

Divulgação STF

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O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sofreu uma série de derrotas em sua articulação internacional, especialmente nos Estados Unidos, em um momento marcado pela aproximação diplomática entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente americano Donald Trump. A revogação das sanções impostas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes representou o maior revés na estratégia do parlamentar.

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Nesta semana, o governo norte-americano retirou Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, da lista de sanções previstas pela Lei Magnitsky, encerrando um processo que estava em vigor desde 30 de julho. A aplicação da Magnitsky era a principal bandeira de Eduardo Bolsonaro desde que desembarcou em Washington, em fevereiro deste ano, acompanhado do comentarista Paulo Figueiredo. A dupla atuou em reuniões com representantes do governo dos EUA em defesa da medida, numa tentativa de pressionar o ministro do STF, relator da ação que apura a tentativa de golpe de Estado envolvendo Jair Bolsonaro (PL).

Em nota, o deputado lamentou a decisão. “Lamentamos que a sociedade brasileira, diante da janela de oportunidade que teve em mãos, não tenha conseguido construir a unidade política necessária para enfrentar seus próprios problemas estruturais”, declarou.

Outro baque sofrido pelo filho do ex-presidente foi a reversão das tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, inicialmente impostas pelos EUA em julho. À época, Eduardo reconheceu que o aumento não era “o cenário desejado”, mas afirmou que se tratava da “única esperança que restava”. “Não tenho como criticar o Donald Trump. Lamento que o povo brasileiro inteiro possa vir a pagar essa conta”, disse em entrevista à CNN Brasil.

A deterioração da influência de Eduardo Bolsonaro em Washington ocorreu em paralelo ao estreitamento de laços entre Lula e Trump. Os dois líderes se encontraram pela primeira vez no dia 23 de setembro, durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. O encontro foi descrito por Trump como positivo: ele afirmou que “gostou” de Lula e destacou que houve “uma ótima química” entre ambos.

Bastidores da negociação

O diálogo bilateral avançou após o encontro na ONU. No dia 6 de outubro, Lula e Trump voltaram a conversar por telefone. Dois dias depois, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, falou com o chanceler brasileiro Mauro Vieira, e ambos agendaram uma reunião presencial em Washington, realizada em 16 de outubro. O tema central foi o fim das tarifas, além da organização de um novo encontro entre Lula e Trump, que aconteceu em 26 de outubro, durante um evento na Malásia.

Além de Vieira, outros membros do governo brasileiro passaram a integrar as negociações. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) foram mobilizados para conversas com autoridades e empresários norte-americanos. Até mesmo o empresário Joesley Batista, da JBS, atuou nos bastidores: em setembro, antes da reunião entre Lula e Trump, ele esteve na Casa Branca pedindo diretamente a Trump a revogação das tarifas sobre a carne brasileira.

Em contraste, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo passaram a perder espaço na interlocução com o governo dos EUA. Com o avanço das tratativas diplomáticas, as tarifas começaram a ser suspensas. Em 20 de novembro, os Estados Unidos anunciaram o recuo da maior parte das medidas, citando diretamente os diálogos entre Lula e Trump, além do papel das reuniões entre Mauro Vieira e Marco Rubio.

Pressões no Brasil

Enquanto vê seu capital político esvaziar nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro enfrenta problemas no Brasil. Em 14 de novembro, a Primeira Turma do STF aceitou denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) e tornou o deputado réu por coação no curso do processo. Os ministros entenderam que Eduardo articulou pressões internacionais contra instituições brasileiras com o objetivo de beneficiar seu pai, o ex-presidente.

A proposta de anistia aos envolvidos na tentativa de golpe – bandeira defendida por Eduardo – também perdeu força. Em vez disso, a Câmara dos Deputados aprovou o chamado PL da Dosimetria, que atenua as penas, mas não concede perdão total.

Além disso, Eduardo poderá enfrentar um processo de cassação. Nesta semana, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), notificou o parlamentar sobre o início do processo por excesso de faltas às sessões da Casa.

Revogação de sanção enterra plano internacional do bolsonarismo

A revogação das sanções a Moraes e sua esposa representou o capítulo final de uma estratégia que já dava sinais de colapso. Como analisou o jornalista Josias de Souza, no UOL, a medida caiu como uma pá de cal sobre a principal frente internacional articulada pelo bolsonarismo — capitaneada por Eduardo Bolsonaro a partir de seu autoexílio político no Texas.

A eliminação da aplicação da Lei Magnitsky foi interpretada por aliados de Lula como o ponto final de uma narrativa construída por Eduardo Bolsonaro e seu principal articulador nos EUA, o comentarista Paulo Figueiredo. Em reação protocolar, os dois publicaram uma nota atribuindo a “derrota” à suposta incapacidade da sociedade brasileira de se unir para enfrentar “problemas estruturais” — uma tentativa de transferir responsabilidades enquanto o plano ruía.

O revés não atingiu apenas a família Bolsonaro. Governadores alinhados à retórica extremista, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), também veem agora sua aposta na hostilidade internacional render pouco ou nenhum dividendo político. A diplomacia paralela, conduzida com base em acusações infundadas contra instituições brasileiras, resultou no isolamento de seus próprios articuladores.

Lula, por sua vez, sai fortalecido do episódio. Conseguiu reverter sanções, manter o canal aberto com a Casa Branca e demonstrar que sua estratégia de reposicionar o Brasil no cenário internacional pode render frutos concretos. No tabuleiro eleitoral de 2026, o episódio pode servir como trunfo: o presidente resistiu a pressões externas sem ceder à retórica beligerante e, no fim, contou com o aval — ainda que silencioso — daquele que já foi o aliado mais ruidoso do bolsonarismo fora do país. A lição é direta: Trump não se associa com perdedores.

Bolsonaristas se voltam contra Trump

A guinada de Donald Trump em direção ao diálogo com o governo Lula gerou uma reação inesperada — e reveladora — no campo bolsonarista: a decepção. Após anos de reverência quase religiosa ao ex-presidente norte-americano, parlamentares e apoiadores do bolsonarismo passaram a atacá-lo nas redes sociais, como se só agora tivessem compreendido o que significa a máxima “America First”, lema que norteia a política externa de Trump.

Fosse o movimento bolsonarista mais comprometido com uma educação básica sólida, talvez seus expoentes tivessem aprendido, já nas aulas de inglês, que “America First” significa, antes de qualquer coisa, defesa intransigente dos interesses dos Estados Unidos — não de seus aliados de ocasião. Em vez disso, assistimos a uma sequência de lamentos públicos, muitos carregados de indignação cômica.

Um deputado da extrema direita escreveu estar “decepcionado” com Trump por ele ter, vejam só, decidido negociar com o governo brasileiro. Um senador criticou o ex-presidente dos EUA por reduzir tarifas sobre produtos brasileiros, como se esperasse que Trump priorizasse o combate à inflação brasileira em detrimento da americana. Houve até quem sugerisse que, ao se aproximar de Lula, Trump se tornava cúmplice dos “crimes” cometidos no Brasil. A crítica virou caricatura.

A reação não ficou restrita ao Congresso. Um vereador defendeu uma moção de repúdio ao ex-presidente americano — tornando, ao menos simbolicamente, Trump persona non grata em uma cidade litorânea brasileira. E até militantes sem mandato engrossaram o coro: um deles chegou a afirmar que Lula “cumpre mais a palavra que Trump”. A frase circulou amplamente nas redes, entre incredulidade e escárnio.

É importante lembrar: quando Trump impôs uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e sancionou Alexandre de Moraes sob a Lei Magnitsky — medida que foi celebrada pela base bolsonarista —, ele não agia por “solidariedade” a Bolsonaro. Agia com o objetivo de pressionar o Brasil a negociar, usando os conflitos internos como instrumento de barganha internacional. E Eduardo Bolsonaro, ao incentivar tais sanções contra seu próprio país, ofereceu ao ex-presidente americano a narrativa perfeita.

Quando Trump percebeu que o bolsonarismo estava politicamente enfraquecido, e que Lula detinha o poder e a legitimidade, alterou seu foco. O pragmatismo falou mais alto. O ex-presidente dos EUA precisava reduzir o custo da carne, do café, das frutas — e viu no Brasil um parceiro comercial, não um palanque ideológico. O encontro com Lula, descrito como cordial e produtivo, selou essa mudança de rota.

A condenação de Bolsonaro está em curso.  Os Estados Unidos, numa manobra diplomática, trataram o PL da Dosimetria como uma espécie de anistia informal. Ainda assim, boa parte das tarifas impostas permanece, o que significa que Trump ainda tem margem para negociar interesses estratégicos — de plataformas digitais a recursos minerais.

Nesse cenário, o maior prejuízo recai sobre o Brasil: oportunidades comerciais foram perdidas, empregos deixaram de ser gerados, e a imagem internacional do país foi manchada por uma tentativa frustrada de usar a política externa como ferramenta de salvação pessoal.

Para Lula, paradoxalmente, o episódio foi um presente político. Reposicionou-se como defensor da soberania nacional enquanto o bolsonarismo ficou com a pecha de entreguista. O presidente brasileiro abriu um canal direto com Trump e, de quebra, viu seus adversários precisarem justificar, diante da própria base, a humilhante submissão a um líder estrangeiro que agora virou alvo de suas críticas.

Um bolsonarista desabafou nas redes sociais, lembrando que, em pleno 7 de Setembro, a base exaltou Trump aos gritos, sob uma bandeira gigante dos Estados Unidos. Um gesto que agora, à luz dos últimos acontecimentos, entra para a história como símbolo de subserviência — e do mais profundo constrangimento político.

O ciclo se fecha com uma ironia que a própria base não parece ter digerido: os mesmos que pediram sanções contra o Brasil agora acusam Trump de traição. Como disse o jornalista Leonardo Sakamoto, no UOL, o mundo, ao que parece, não gira. Capota.

Lula diz que fim de sanção é bom para o Brasil

Para Lula, a aplicação da Lei Magnitsky era injusta e a decisão de Trump foi boa “para o Brasil e para a democracia brasileira”.

“O Silvio Santos faria 95 anos [hoje] e o Alexandre de Moraes faz 57 amanhã (neste sábado, 13). E eu transmito de presente para ele o reconhecimento de que não era justo um presidente de um outro país punir o ministro da Suprema Corte brasileira só porque estava cumprindo a Constituição brasileira”, disse Lula durante um evento no SBT, na capital paulista.

“E eu fiquei muito feliz com o fato e esse reconhecimento, mas ainda faltam mais pessoas [para serem retiradas da aplicação da lei] porque não é possível admitir que um presidente de um país possa punir com as leis dele autoridades de outro país que estão exercendo a democracia. Portanto, a tua vitória [Alexandre de Moraes] é a vitória da democracia brasileira”, acrescentou o presidente.

Moraes também comentou sobre a decisão norte-americana. “A verdade prevaleceu. E nós podemos dizer com satisfação e com humildade, que foi uma tripla vitória. Primeiro a vitória do Judiciário brasileiro, que não se vergou a ameaças, a coações e não se vergará e continuou com imparcialidade, seriedade e coragem. Também é a vitória da soberania nacional. O presidente Lula, desde o primeiro momento, disse que o país não iria admitir qualquer invasão na soberania brasileira. E mais do que tudo isso, foi a vitória da democracia”, afirmou.

EUA retiram Alexandre de Moraes da lista de sanções da Lei Magnitsky


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