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Poder

Eduardo Bolsonaro “faz o Zelle” e reforça submissão a interesses americanos

Declarações do deputado auto-exilado sobre o Pix ampliam desgaste de Flávio e fortalecem “entreguismo” do clan

Publicado em 05/06/2026 8:57 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A tentativa de Eduardo Bolsonaro de apontar uma possível negociação entre Brasil e Estados Unidos envolvendo o Pix produziu um efeito político imediato: aprofundou o desgaste enfrentado por seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, justamente no momento em que a oposição tenta se desvencilhar das consequências políticas do novo pacote tarifário anunciado por Donald Trump contra produtos brasileiros.

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A controvérsia surgiu após o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) incluir nominalmente o Pix entre os elementos considerados problemáticos na relação comercial entre os dois países. A decisão ocorreu dias depois de uma visita de Flávio Bolsonaro ao ex-presidente norte-americano, circunstância que alimentou críticas nas redes sociais e impulsionou a disseminação do apelido “Tariflávio”, utilizado por adversários para associar o senador às medidas anunciadas por Washington.

Nesse contexto, a manifestação de Eduardo Bolsonaro acabou ampliando a repercussão negativa. Em entrevista ao canal TMC, o deputado licenciado afirmou que os Estados Unidos possuem mecanismos de pagamento semelhantes ao Pix e sugeriu que o tema poderia integrar uma eventual mesa de negociações entre os dois países.

“Os EUA têm mecanismos muito semelhantes ao Pix. Como por exemplo o Zelle. O Pix dos Estados Unidos é o Zelle. Então, dá para você ir para a mesa de negociação dos americanos com bons argumentos. Dá para sentar, dá para negociar. Eles têm interesses que se complementam, como terras raras”, declarou.

A fala encontrou resistência tanto por razões técnicas quanto políticas.

Criado e administrado pelo Banco Central, o Pix consolidou-se como uma das mais abrangentes infraestruturas públicas de pagamento digital do mundo. O sistema é utilizado diariamente por milhões de brasileiros, desde trabalhadores informais e pequenos comerciantes até motoristas de aplicativo, profissionais autônomos e grandes empresas. Sua principal característica é permitir transferências instantâneas e gratuitas para pessoas físicas, reduzindo custos de transação e ampliando a inclusão financeira.

Diante da repercussão da decisão norte-americana, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgou posicionamento ressaltando que o Pix não constitui um produto comercial sujeito a disputas de mercado, mas uma infraestrutura pública aberta à participação de instituições financeiras nacionais e estrangeiras, incluindo bancos dos Estados Unidos.

A comparação feita por Eduardo Bolsonaro entre Pix e Zelle também passou a ser questionada. Embora ambos sejam sistemas voltados para pagamentos eletrônicos, operam sob modelos distintos. Enquanto o Pix é gerido pelo Banco Central e integra uma política pública de modernização financeira, o Zelle funciona por meio de um consórcio formado por grandes bancos privados norte-americanos. As diferenças de governança, abrangência e funcionamento tornam controversa a equiparação entre os dois sistemas.

Contudo, o principal impacto da declaração não se restringiu ao debate técnico. O efeito mais relevante ocorreu no campo político.

Flávio Bolsonaro vem sendo apontado como um dos potenciais representantes do bolsonarismo na disputa presidencial de 2026 e busca construir a imagem de um interlocutor capaz de manter canais privilegiados com o governo norte-americano. Nesse cenário, qualquer sinalização de que ativos estratégicos brasileiros poderiam ser objeto de negociação com Washington tende a produzir desgaste político.

Nas redes sociais, a repercussão foi rápida. Termos como “vassalagem” passaram a circular entre críticos do clã Bolsonaro, enquanto o apelido “Tariflávio” ganhou novo impulso. Para adversários políticos, as declarações reforçam a narrativa de que integrantes da família Bolsonaro estariam dispostos a aceitar prejuízos ao Brasil em troca de apoio político internacional ou de uma eventual retomada do poder.

A situação ganhou relevância adicional porque Eduardo Bolsonaro não é visto como uma figura periférica dentro do grupo político liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Considerado o integrante da família com maior proximidade junto ao círculo político de Donald Trump, ele mantém interlocução frequente com setores conservadores norte-americanos e chegou a ser apontado, em diferentes momentos, como possível ocupante de postos estratégicos na política externa em um eventual governo bolsonarista.

Por essa razão, suas declarações costumam ser interpretadas não apenas como opiniões pessoais, mas como sinais políticos emitidos por um dos principais articuladores internacionais do grupo.

O resultado foi um aparente desencontro estratégico dentro da própria família. Enquanto Flávio buscava se afastar das críticas relacionadas ao tarifaço e à inclusão do Pix entre os alvos das reclamações comerciais norte-americanas, Eduardo ofereceu aos adversários um novo argumento para sustentar a associação entre o bolsonarismo e interesses externos.

A contradição foi explorada por comentaristas e analistas políticos. A avaliação predominante entre críticos do clã é que a declaração contribuiu para retirar o governo Lula de uma posição defensiva — marcada por dificuldades de popularidade e desafios econômicos — e recolocar o Pix no centro do debate público como símbolo de soberania nacional e de proteção de uma política amplamente aprovada pela população.

A entrevista também alimentou novas críticas à condução política da família Bolsonaro. Para adversários, a sucessão de declarações contraditórias evidencia dificuldades de coordenação estratégica e comunicação interna, produzindo danos não apenas à imagem do grupo, mas também à narrativa construída para a disputa eleitoral de 2026.

Nesse contexto, uma fala que pretendia demonstrar capacidade de negociação acabou sendo utilizada pelos críticos como evidência de disposição para concessões consideradas inaceitáveis por parte significativa da opinião pública. O episódio transformou-se, assim, em mais um capítulo da disputa política em torno do Pix, que deixou de ser apenas uma ferramenta financeira para assumir papel central no embate simbólico entre governo e oposição.

O que os EUA dizem sobre o Pix

Na conclusão apresentada esta semana da investigação com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — um instrumento legal que permite a Washington apurar práticas estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos americanos — o governo dos EUA acusa o Pix de prejudicar “injustamente as empresas americanas”.

A investigação diz que o Banco Central brasileiro exerce papel duplo — “como regulador e proprietário/operador” do Pix — criando um “conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas”.

“O banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e requer que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições participantes com destaque igual ou superior a qualquer outra funcionalidade de pagamento ou transferência.”

Além disso, há críticas pelo fato de o Banco Central exigir que o Pix seja ofertado sem taxas aos clientes. Segundo a conclusão da investigação, as autoridades brasileiras obrigam empresas americanas a promover o competidor brasileiro (Pix) sem compensações às instituições americanas.

“Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de taxas, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas a seu campeão nacional do Brasil.”

Como resultado da investigação, que inclui outras críticas a práticas comerciais do Brasil, os EUA propõem tarifas de 25% a produtos brasileiros. Essas propostas ainda serão negociadas entre os governos até o dia 15 de julho.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o Pix das críticas do governo americano. Em nota, a entidade disse que as conclusões da investigação foram baseadas em “informações incompletas” sobre os objetivos e o funcionamento do sistema.

“O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos”, disse a Febraban.

A entidade diz que o Pix contribui para a inclusão financeira ao reduzir custos e ampliar o acesso aos meios digitais de pagamento.

Quem criou o Pix?

O Pix é um sistema de pagamento instantâneo criado por técnicos do Banco Central, que permite transferir dinheiro entre contas em segundos, a qualquer hora e dia. É conhecido por ser rápido e seguro e pode ser usado a partir de contas correntes, poupança ou pré-pagas.

O sistema se popularizou no Brasil e possui números impressionantes. Segundo o Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas — o que equivale a 80% da população brasileira — já fizeram uma transferência por Pix. Até outubro do ano passado, mais de R$ 3 trilhões haviam sido movimentados por Pix.

Só em janeiro deste ano, foram realizadas mais de 7 bilhões de transações. No dia 12 de dezembro de 2025 o sistema registrou seu recorde: foram 313 milhões de transações em um mesmo dia.

O Pix foi lançado em novembro de 2020 — durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo um relatório de 2022 do Banco Central sobre o Pix, a primeira manifestação sobre “soluções que permitam, a baixo custo, pagamentos de varejo em tempo real e ininterruptos” aconteceu em 2014, durante o governo de Dilma Rousseff, em um relatório Relatório de Vigilância do Sistema de Pagamentos Brasileiro.

Mas o Pix só começou a ser desenvolvido pelos técnicos do Banco Central em maio de 2018 — ainda no governo de Michel Temer. Entre a criação de um grupo de trabalho específico e o lançamento do sistema, se passaram cerca de 31 meses.

A portaria 97.909 de maio de 2018 do Banco Central instituiu um grupo de trabalho com objetivo de “contribuir para a construção de um ecossistema de pagamentos instantâneos competitivo, eficiente, seguro e inclusivo”.

O nome Pix ainda não era usado nessa ocasião. Mas algumas bases do sistema já estavam definidas nessa portaria.

“A infraestrutura centralizada de liquidação será operada pelo Banco Central do Brasil e estará disponível 24 horas por dia, sete dias por semana e em todos os dias do ano. As transações serão liquidadas uma a uma, no momento em que a ordem de liquidação for aceita pela infraestrutura”, afirma a portaria.

O grupo de trabalho para pagamentos instantâneos (GT-PI) de maio de 2018 foi, segundo o Banco Central, “a primeira etapa para o desenvolvimento dos pagamentos instantâneos no Brasil”. Esse grupo esteve aberto a qualquer parte interessada no tema, e recebeu contribuições de mais de 130 participantes.

Em dezembro de 2018, o último mês do governo Temer, o Banco Central divulgou o comunicado 32.927 no qual estabeleceu requisitos fundamentais do Pix que foram aprovados pela diretoria colegiada da instituição. Nesse comunicado, o BC se posicionou oficialmente como líder do processo de desenvolvimento e implementação do Pix.

A partir de outubro de 2019, já no governo Bolsonaro, a infraestrutura tecnológica começou a ser desenvolvida.

A marca Pix foi lançada em fevereiro de 2020. Segundo o Banco Central, a marca “é baseada em tecnologia, transação e pixel, e representa a transposição dos limites do sistema financeiro, a comunicação entre os agentes de mercado e a solidez do pixel”.

Um ano após o começo do desenvolvimento da infraestrutura tecnológica, em outubro de 2020, foi iniciado o cadastramento de chaves por usuários iniciais. Em 3 de novembro, o sistema começou a funcionar de forma restrita — e em 16 de novembro ele passou a operar de forma plena.

Em outubro de 2020, um mês antes do lançamento oficial do sistema, o então presidente Jair Bolsonaro manifestou desconhecer o meio de pagamento quando foi parabenizado por um apoiador na saída do Palácio da Alvorada.

Na ocasião, Bolsonaro se confundiu e achou que se tratava de algo relacionado à desburocratização na aviação civil. Ao ouvir a explicação do apoiador de que o Pix era um novo meio de pagamento criado pelo Banco Central, respondeu: “Não tomei conhecimento, vou conversar essa semana com o [então presidente do BC] Roberto Campos”.

Impacto

No Brasil, a forma como o Pix foi estruturado beneficiou empresas nacionais, especialmente bancos digitais e fintechs. “Alavancando o modelo do Pix”, elas desenvolveram inovação e cresceram, expandindo-se inclusive para outros mercados.

Isso acabou fazendo do país uma referência internacional, inspirando outros países, como a Colômbia.

“O Brasil é bem conhecido hoje por seus ‘neobancos’ [bancos digitais] e pelo seu ecossistema doméstico de inovação financeira”, disse a pesquisadora Polina Kempinsky à BBC News Brasil.

Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman elogiou o Pix por ser quase instantâneo e por ter custos de transação baixos e sugeriu que o Brasil pode ter inventado o futuro do dinheiro com esse sistema.

“Outras nações podem aprender com o sucesso do Brasil no desenvolvimento de um sistema de pagamento digital”, escreveu Krugman.

E disse que o sistema brasileiro de pagamentos está “conseguindo de fato o que os defensores de criptomoedas alegaram, falsamente, ser capaz de se alcançar por meio do blockchain — baixos custos de transação e inclusão financeira.”

“Compare os 93% de brasileiros que usam o Pix com os 2%, isso mesmo, 2% de americanos que usaram criptomoedas para comprar algo ou fazer um pagamento em 2024”, disse o economista em 2025.

“Ah, e usar o Pix não cria incentivo para sequestrar pessoas e torturá-las até que entreguem suas chaves de criptografia. Então, teremos um sistema semelhante ao Pix nos Estados Unidos? Não. Ou pelo menos não por muito tempo.”

Especialistas também disseram à BBC News Brasil que o Pix incomodou algumas das big techs americanas.

“Estamos falando aqui de uma competição tecnológica, onde os EUA visam tirar qualquer tipo de tecnologia que possa oferecer algum tipo de inovação e que não esteja sendo gerida dentro do próprio país ou que não esteja sob controle dos EUA”, diz Bruna Martins dos Santos, gerente de políticas e advocacy da Witness, organização internacional sem fins lucrativos focada em tecnologia e direitos humanos, em entrevista em julho de 2025.

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