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Poder

Dois anos após a tentativa de golpe, prossegue a luta pela reconstrução do Brasil

Extrema direita continua negando os fatos e ameaçando a democracia

Publicado em 08/01/2025 9:02 - Semana On

Divulgação Joédson Alves/Agência Brasil

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O dia 8 de janeiro de 2023 permanece como uma ferida aberta na história do Brasil. Naquele domingo, multidões inconformadas com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Palácio do Planalto. Foi um ataque inédito às bases do Estado Democrático de Direito, cujas consequências ainda se desenrolam em um processo que mistura justiça, memória e política.

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Dois anos depois, a pergunta permanece: o Brasil “passou no teste”? A resposta, como o episódio em si, é multifacetada e envolve reflexões profundas sobre as instituições, a sociedade e a cultura política do país.

Os atos golpistas não surgiram do nada. Alimentados por meses de discursos inflamados sobre fraudes inexistentes nas eleições de 2022, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) mobilizaram-se com a crença de que poderiam reverter o resultado eleitoral. Investigações revelaram uma organização que ia além dos manifestantes de rua, com financiamento de empresários e suporte logístico de figuras próximas ao bolsonarismo.

Os danos causados ao patrimônio público foram imensos, ultrapassando centenas de milhões de reais, incluindo a destruição de obras de arte e documentos históricos. A resposta institucional foi rápida: em menos de 24 horas, acampamentos golpistas em frente a quartéis foram desmontados, e mais de 1.500 pessoas foram detidas. Hoje, 58% dos acusados já foram responsabilizados, e outros 527 firmaram acordos com o Ministério Público, que incluem multas que somam R$ 1,7 milhão, serviços comunitários e cursos sobre democracia.

A responsabilização chega ao alto escalão

A grande novidade dos últimos meses foi o avanço das investigações contra figuras do alto escalão político e militar. A prisão do general Walter Braga Netto e o indiciamento de Jair Bolsonaro e de outros ex-ministros marcaram um rompimento com o histórico de leniência em relação a crimes envolvendo as Forças Armadas.

Braga Netto, ex-vice na chapa de Bolsonaro em 2022, foi acusado de sediar reuniões para planejar um golpe, incluindo conspirações para assassinar o presidente Lula e outras figuras centrais do governo. Sua prisão preventiva, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, é emblemática. Como destacou Pedro Lima, cientista político da UFRJ, “é um simbolismo muito grande, considerando que o Brasil fez uma transição negociada da ditadura, com garantias aos militares. Este episódio pode significar uma mudança histórica”.

Outros militares de alta patente, como os generais Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, foram implicados em investigações que revelam um apoio institucionalizado às narrativas golpistas. A resposta firme do STF, liderada por Moraes, rompe com a tradição de conciliação política que marcou a história recente do Brasil.

Polarização e a percepção pública dos atos golpistas

Embora as condenações e investigações sejam vistas como um avanço, a sociedade brasileira permanece profundamente dividida em relação aos atos de 8/1. Pesquisas apontam que 86% da população desaprova a invasão das sedes dos Três Poderes, mas um terço defende anistia aos envolvidos, e cerca de 39% ainda acredita que Bolsonaro não teve participação nos ataques.

Essa divisão reflete o impacto das investigações no bolsonarismo. Entre os eleitores moderados do ex-presidente, há um movimento de distanciamento crítico, como aponta Felipe Nunes, da Quaest: “Os mais moderados tendem a adotar uma postura crítica para não se sentirem cúmplices”. Por outro lado, a base mais radical continua mobilizada, usando a anistia como bandeira.

Do lado oposto, a esquerda, liderada por movimentos como o “Sem Anistia”, rejeita qualquer tentativa de perdão como um sinal de fraqueza institucional. “A democracia só se fortalece com a responsabilização de seus inimigos”, disse recentemente a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP).

Anistia: remédio ou veneno para a democracia?

A anistia, proposta por parlamentares bolsonaristas como Carlos Portinho (PL-RJ), é vista por seus defensores como uma forma de “virar a página”. Para críticos, é um retrocesso perigoso, que repetiria os erros da transição democrática de 1985, quando crimes da ditadura militar foram perdoados sem julgamento.

Hoje, o Congresso está dividido. Mudanças no comando da Câmara e do Senado, com a provável eleição de Hugo Motta e Davi Alcolumbre, podem dificultar a aprovação do projeto. A base governista, que inclui Republicanos e União Brasil, tem força para barrar a proposta. Contudo, bolsonaristas permanecem confiantes. “Se colocarmos em votação hoje, a anistia passa com folga”, afirmou o deputado Rodrigo Valadares (União-SE).

O impacto nas forças políticas e o futuro da direita

O episódio também acelerou a fragmentação da direita brasileira. A divisão entre a direita radical e a direita moderada ficou evidente nas eleições municipais de 2024, quando candidatos bolsonaristas foram derrotados por concorrentes de centro-direita. Para especialistas, essa fragmentação pode se aprofundar, com a direita tradicional buscando se distanciar do extremismo de Bolsonaro.

Ainda assim, o ex-presidente mantém um núcleo fiel de apoiadores. Inelegível até 2030, Bolsonaro enfrenta o desafio de permanecer relevante em um cenário político onde sua influência é cada vez mais contestada. “A prisão de Bolsonaro seria um cálculo político arriscado, que poderia transformá-lo em mártir. Sua inelegibilidade é uma estratégia mais eficaz para isolá-lo”, avalia Pedro Lima, da UFRJ.

O futuro da democracia brasileira

Dois anos após o 8 de janeiro, o Brasil se encontra em uma encruzilhada. A resposta das instituições foi firme, mas a polarização permanece. A sociedade brasileira enfrenta o desafio de transformar o trauma em aprendizado, construindo uma cultura política que valorize a democracia e rejeite soluções autoritárias.

“A democracia brasileira foi testada, e passou no teste, mas ainda há muito a ser feito”, afirma Heloísa Câmara, da UFPR. O abraço simbólico na Praça dos Três Poderes, organizado por movimentos sociais para marcar o aniversário dos atos, é um lembrete de que a reconstrução institucional é também um exercício coletivo.

A história do 8 de janeiro não está completa. Sua conclusão dependerá da capacidade do Brasil de equilibrar justiça e reconciliação, sem abrir mão da memória e da verdade.

Dois anos depois do 8 de janeiro, os desafios persistem


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