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Poder

Direita usa os 121 mortos no RJ como palanque político e mira 2026

Governadores criticaram a proposta federal de integração nacional das forças de segurança, atravancada no Congresso

Publicado em 31/10/2025 9:55 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Sete governadores de oposição ao governo federal – entre eles três pré-candidatos à presidência da República – anunciaram ontem (30) a criação do “Consórcio da Paz”, iniciativa que promete integrar esforços entre estados para combater o crime organizado, mas que já nasce como contraponto político à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública, defendida pelo Planalto.

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A reunião foi realizada no Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, e contou com a presença dos governadores Cláudio Castro (PL-RJ), Romeu Zema (Novo-MG), Jorginho Mello (PL-SC), Eduardo Riedel (PP-MS), Ronaldo Caiado (União-GO), da vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), e a participação remota de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Ratinho Junior (PSD-PR). O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD) apoiou a medida, mas não apareceu no encontro.

A criação do consórcio ocorre no rastro da megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, batizada oficialmente de “Contenção”. Com saldo de pelo menos 121 mortos — número que pode chegar a 132, segundo a Defensoria Pública do Estado —, a ação se tornou a mais letal da história fluminense e reacendeu o debate sobre os limites da política de segurança pública no país.

Ao final do encontro, os governadores se posicionaram contra a PEC da Segurança Pública, enviada ao Congresso em abril deste ano pelo governo federal. A proposta da União busca criar um Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), com diretrizes nacionais obrigatórias e articulação entre União, estados e municípios, nos moldes do SUS. O texto afirma que a União deve elaborar a política nacional, “cujas diretrizes serão de observância obrigatória”, com a participação de um conselho nacional com representantes de todas as esferas federativas.

Para os governadores do consórcio, no entanto, trata-se de uma tentativa de “intervenção branca” nas polícias estaduais. “Querem tirar dos governadores as diretrizes gerais da segurança pública, que é uma determinação da Constituição de 88. Querem transformar isso em diretriz do Ministério da Justiça. É intervenção direta”, afirmou Ronaldo Caiado, governador de Goiás, durante a reunião.

Clima de pré-campanha

Embora o discurso oficial insista na “despolitização da segurança pública”, o evento ganhou nítido contorno político. Três dos governadores presentes — Caiado, Zema e Tarcísio — são apontados como possíveis candidatos à Presidência da República em 2026, e o uso da crise no Rio como vitrine de autoridade e eficiência não passou despercebido.

“Lá em Goiás, bandido não se cria”, afirmou Caiado, em frase que recebeu endosso dos pares. Romeu Zema e Tarcísio de Freitas, mesmo à distância, alinharam-se ao discurso de oposição ao governo Lula, adotando uma retórica de combate baseada na dicotomia moral: “quem defende a lei” versus “quem apoia o crime”.

Para o cientista político Cláudio Couto, da FGV, “a criação do consórcio em meio à repercussão da operação no Rio revela mais um gesto de confrontação institucional do que uma política pública consistente. É uma coalizão político-eleitoral travestida de pacto federativo”, afirmou em entrevista à BBC News Brasil.

Massacre legitimado como sucesso

O pano de fundo da iniciativa é o saldo da operação policial nos complexos do Alemão e da Penha, cujos números e relatos chocaram especialistas e entidades de direitos humanos. Ainda que o objetivo alegado fosse conter o avanço do Comando Vermelho, a dimensão da letalidade — incluindo a morte de quatro policiais — acentuou a percepção de descontrole estatal.

“A resposta do Estado ao crime organizado não pode ser mais violenta que o próprio crime”, disse Pedro Strozenberg, ouvidor da Defensoria Pública do Rio, em entrevista ao UOL. “Há relatos de execuções sumárias e ausência de perícia técnica nos locais dos homicídios.”

Apesar disso, o governador Cláudio Castro classificou a operação como “bem-sucedida”, reforçando a retórica de guerra adotada em sua gestão. O uso do termo “narcoterrorismo”, ecoando a linguagem militarizada de Donald Trump, sugere uma tentativa de internacionalizar a lógica do combate às drogas como justificativa para ações de força, sem base em políticas públicas estruturantes.

Consórcio da Paz ou consórcio eleitoral?

A coincidência entre o lançamento do consórcio e o anúncio feito um dia antes pelo ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, de um “escritório emergencial” federal para combater o crime organizado no Rio não passou despercebida. A iniciativa do governo federal, apresentada como o “embrião” do modelo nacional da PEC, foi imediatamente ofuscada pela aliança entre os governadores.

“Em menos de 24 horas, o escritório emergencial virou pó”, escreveu o jornalista Josias de Souza. “No instante em que as pesquisas sinalizam que a segurança pública está no topo das preocupações do brasileiro para 2026, surge no Rio uma novidade mórbida: a politicagem banhada de sangue.”

De fato, dados do Datafolha de setembro de 2025 mostram que 67% dos brasileiros consideram a segurança pública o maior problema do país, à frente da economia (52%) e da saúde (48%). Em um cenário de crescente desgaste do governo Lula com as classes médias urbanas, a pauta da segurança oferece terreno fértil para a oposição de direita.

Autonomia versus integração

O debate sobre centralização e autonomia na segurança pública não é novo. A Constituição de 1988 atribui aos estados a responsabilidade sobre suas polícias militares e civis, mas omitiu mecanismos eficazes de coordenação nacional. O resultado tem sido um sistema fragmentado, com políticas desiguais, falta de dados padronizados e disputas jurisdicionais.

A PEC da Segurança tenta corrigir essas falhas, argumenta o Planalto, propondo padronização de estatísticas, financiamento federal estável e mecanismos de transparência e controle social. Ainda assim, enfrenta resistência de governadores que veem na proposta uma ameaça à sua autonomia política e operacional.

Para a pesquisadora Ilona Szabó, do Instituto Igarapé, o embate revela a falta de um pacto federativo efetivo. “A segurança pública virou palco de disputas ideológicas e eleitorais, quando deveria ser tratada com base em evidências. Precisamos sair da retórica da guerra e investir em inteligência, prevenção e integração”, afirmou à Folha de S.Paulo.

Enquanto a disputa entre autonomia estadual e coordenação nacional se intensifica, o que se vê nas favelas do Rio é a repetição de um ciclo perverso: operações letais, ausência de responsabilização, e uso político da tragédia. O “Consórcio da Paz” nasce sob o signo da confrontação, mas sem apresentar soluções reais para o colapso da segurança pública no país. A promessa de integração pode ser legítima — mas quando feita sobre os escombros de uma chacina, soa menos como política e mais como propaganda.

Se cadáveres fossem política pública, o Rio de Janeiro já seria exemplo mundial.

SOMOS MONSTROS?


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