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Poder
Disputas entre pré-candidatos e pirações de Eduardo e Flávio expõe incapacidade do campo em romper com o extremismo
Publicado em 06/10/2025 5:26 - Victor Barone
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A direita brasileira entrou em colapso público. A disputa entre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), e o senador piauiense Ciro Nogueira (PP), neste fim de semana, expôs a falência política de um campo que ainda não encontrou modo de existir sem Jair Bolsonaro. O conflito, travado nas redes sociais, revela mais que divergências de estratégia: mostra uma direita incapaz de se reorganizar fora da órbita do ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado e por liderar uma organização criminosa.
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O estopim foi uma entrevista de Ciro Nogueira ao O Globo, em que o senador — presidente do Progressistas — apresentou-se como porta-voz informal de Bolsonaro, afirmando que o ex-presidente já teria decidido quem será o candidato da direita à Presidência em 2026. Segundo ele, o anúncio deve ocorrer em janeiro. Nogueira destacou dois nomes: Tarcísio de Freitas (SP) e Ratinho Júnior (PR), mas fez clara preferência pelo paulista, a quem chamou de “escolha pessoal de Bolsonaro” e “líder natural do bolsonarismo”.
A reação de Caiado foi imediata. Em publicação nas redes, classificou a postura de Ciro como “ansiedade vergonhosa” e o acusou de agir como pré-vice de Tarcísio. “Se Bolsonaro quiser escolher um porta-voz, certamente será um de seus filhos ou sua esposa Michelle. Não o Ciro Nogueira, senador de inexpressiva presença nacional, que um dia já jurou amor eterno ao Lula”, atacou o goiano. Em tom de desprezo, chamou o colega de “quase ex-senador”, lembrando que Ciro não conseguiu votos suficientes nem para renovar o mandato no Piauí.
Sobre a entrevista do senador Ciro Nogueira ao Globo, quero dizer o seguinte:
1)A ansiedade de Ciro Nogueira em se colocar como candidato a vice-presidente do governador Tarcísio é vergonhosa, e algo tão gritante que ele já se coloca como porta-voz do presidente Bolsonaro,…
— Ronaldo Caiado (@ronaldocaiado) October 5, 2025
Ciro respondeu com ironia: “Vi a postagem do governador Ronaldo Caiado sobre minha entrevista. Me chamou atenção a enormidade do tamanho. Deve estar com tempo livre. Eu não, sobretudo para polêmicas vazias. Nosso adversário é Lula.” O senador tentou encerrar o episódio, mas o estrago já estava feito. A federação partidária recém-formada entre União Brasil e PP começou, assim, com seus dois principais líderes em guerra aberta.
O episódio não é apenas uma troca de ofensas. Ele cristaliza o vácuo de liderança da direita brasileira, que desde a inelegibilidade de Bolsonaro vive em busca de um novo eixo de poder. “É um erro estrutural: o bolsonarismo destruiu as pontes entre a direita democrática e o conservadorismo institucional. O resultado é que hoje o campo da direita só existe dentro do espelho de Bolsonaro”, analisa o cientista político Christian Lynch, da FGV-Rio.
De fato, a retórica de ambos — Ciro e Caiado — permanece submissa ao ex-presidente. Mesmo o goiano, ao afirmar que “respeitará qualquer decisão do presidente Bolsonaro”, reiterou a dependência simbólica do líder que o país viu tentar subverter o resultado eleitoral de 2022. O dilema é evidente: todos os nomes mais visíveis do campo — Caiado, Tarcísio, Zema, Michelle e os próprios filhos de Bolsonaro — disputam o mesmo selo de aprovação de um político condenado e inelegível até 2030.
O problema é que essa dependência tem custo político. Segundo levantamento do Datafolha (setembro de 2025), 64% dos eleitores que se identificam como “de centro-direita” afirmam não querer um candidato “ligado a Bolsonaro”. A direita que deseja voltar ao poder precisaria, portanto, romper com o ex-presidente — algo que, até agora, ninguém ousou fazer. “O bolsonarismo é um ativo tóxico. Sem ele, esses políticos perdem base; com ele, perdem legitimidade”, avalia a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Cebrap.
Enquanto isso, o bolsonarismo, incapaz de se transformar em força institucional, consome seus próprios líderes. O que se vê é uma direita que, em vez de construir alternativas, dedica-se a ajustar contas internas, atacando aliados e bajulando um chefe condenado. Como lembrou o cientista político Fernando Abrucio, “Bolsonaro não criou uma direita democrática, mas uma seita política. Quando o líder desaparece, a seita entra em colapso”.
No fim, o eleitorado que poderia representar uma alternativa de centro ou de conservadorismo racional assiste a uma luta de facções, não de ideias. A direita moderada — aquela que valoriza instituições e aceita o jogo democrático — está moribunda. Os nomes que deveriam simbolizar essa moderação se ajoelham diante do mesmo líder que atentou contra a democracia.
Entre a lealdade ao golpismo e a busca por normalidade política, a direita brasileira escolheu o caminho mais curto — e o mais destrutivo: devorar-se viva.
Bolsonarismo aposta no caos
“Sem anistia, não haverá eleições em 2026.” A frase, dita por Eduardo Bolsonaro nas redes sociais, ecoa o mesmo tom de chantagem institucional que o pai entoava em 2021: “Se não tiver voto impresso, não terá eleição.” Em comum, uma doutrina política baseada não na disputa democrática, mas na escatologia: a ideia do fim de tudo como condição para o renascimento de uma nova ordem. Essa é a lógica de poder que guia o bolsonarismo. Não se trata de uma estratégia eleitoral, mas de uma visão messiânica que projeta o colapso como método de redenção.
A extrema direita brasileira, sob liderança da família Bolsonaro, aposta na implosão institucional como caminho de permanência política. Em vez de tentar manter protagonismo por meio de alianças ou articulações legítimas, os Bolsonaro preferem o isolamento estratégico e a sabotagem do próprio campo político. Recusam qualquer sucessão que não venha do sangue, rejeitam figuras como Tarcísio de Freitas ou Ronaldo Caiado, e rechaçam até mesmo alianças táticas com o centrão.
Ao contrário do que se esperava, a direita brasileira — que historicamente reivindicava o discurso da ordem e da legalidade — foi capturada por uma lógica revolucionária. Como bem pontua o historiador José Murilo de Carvalho, “a estabilidade institucional sempre foi uma marca das elites conservadoras brasileiras”. Essa marca, hoje, foi descartada. O bolsonarismo deslegitima o Congresso, despreza o Judiciário e ameaça com a ruptura do processo democrático. Eduardo Bolsonaro, em sua escalada retórica, já cita abertamente o modelo de Nayib Bukele em El Salvador, exaltando a destituição da Suprema Corte e do Ministério Público como exemplo a ser seguido.
No plano interno, a família Bolsonaro enfrenta um dilema: entregar o capital político que construiu a outro nome de direita — como Tarcísio — significaria abrir mão do “patrimônio simbólico” que eles próprios reivindicam como exclusivo. Essa direita de verde e amarelo, das ruas e das redes, “é nossa”, repetem, como se fosse propriedade privada. O temor da perda de centralidade os leva a sabotar seus próprios aliados, mesmo que isso fortaleça seus adversários.
Essa sabotagem já tem nomes e cenas: Carlos Bolsonaro busca um mandato no Senado por Santa Catarina, estado onde o bolsonarismo construiu um reduto pessoal. Jair Renan, o “04”, virou vereador em Balneário Camboriú, mesmo sem qualquer preparo. A deputada Caroline de Toni foi rifada da corrida ao Senado. Eduardo Bolsonaro virou líder da oposição apenas para não poder ser cassado por faltas. A dinastia é mantida não por mérito, mas por sobrenome.
O cientista político Christian Lynch, professor da UERJ, define esse fenômeno como “patrimonialismo político em estado bruto”: o uso de uma estrutura familiar para a ocupação sistemática do poder, à revelia de qualquer lógica republicana. É uma aristocracia informal, mas eficaz. Não há projeto de país — há apenas o projeto de manter o nome da família em evidência, custe o que custar.
Em paralelo, os ataques aos aliados se intensificam. Eduardo Bolsonaro chamou de “abutres” os que tentam substituir politicamente o pai. Carlos Bolsonaro atacou Tarcísio, Zema e Caiado por acenarem com indultos e anistias. O resultado é uma direita em escombros, incapaz de organizar um campo viável de disputa com o lulismo. O ato pró-anistia marcado para esta terça-feira é mais um exemplo: mal articulado, marcado para um dia útil e com baixa adesão prevista. Será, tudo indica, mais um erro estratégico que beneficia Lula.
A insistência na pauta da anistia já perdeu tração no Congresso. A proposta original está fora do radar, e o projeto alternativo — a “anistia envergonhada”, com redução de penas — patina na pauta legislativa. Deputados como Paulinho da Força lutam para incluir o tema na agenda, mas sem sucesso. A manifestação desta semana, longe de pressionar o Legislativo, apenas reforça a imagem de isolamento do bolsonarismo.
Em contraste, Lula avança. A cada erro tático da direita, acumula capital político. Como observou o colunista Josias de Souza, “a dívida política de Lula com a direita é impagável: uma sequência de sandices bolsonaristas que favorecem a trajetória do presidente.” A frase não é apenas uma ironia jornalística. Reflete um dado concreto: a oposição, hoje, é o maior cabo eleitoral de Lula.
Esse cenário revela uma virada histórica. A esquerda, tradicionalmente associada à crítica institucional e à contestação, tornou-se, paradoxalmente, o bastião da legalidade. Quem defende hoje a estabilidade, a Constituição e a segurança jurídica está, majoritariamente, do lado oposto ao bolsonarismo. Como escreveu o jurista Conrado Hübner Mendes na Folha de S.Paulo, “a direita brasileira flerta com o autoritarismo porque perdeu a capacidade de disputar legitimamente o jogo democrático.”
Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro ameaça as eleições de 2026, recusa qualquer composição e idolatra líderes autoritários. Tudo isso em nome de uma ideologia marcada pela escatologia política — onde a democracia é apenas uma fase transitória antes da grande destruição. A aposta é clara: se não for no poder, que venha o fim. Para o Brasil, o desafio é resistir à tentação do abismo.
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