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Poder
Bolsonaro foi solenemente ignorado por ambos os presidentes na conversa desta segunda-feira
Publicado em 06/10/2025 3:27 - Semana On
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Em um gesto raro de diplomacia direta, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversou por videoconferência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta segunda-feira (6), dando início a um novo capítulo na relação entre os dois países. Durante os 30 minutos de conversa, Lula pediu a retirada da sobretaxa de 50% imposta por Washington a produtos brasileiros e propôs a reaproximação entre as duas nações, que juntas somam 201 anos de relações diplomáticas formais.
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“Gostei da conversa — nossos países se darão muito bem juntos!”, escreveu Trump em sua rede social, após o encontro virtual. Segundo o Palácio do Planalto, o diálogo teve tom amistoso e foi uma iniciativa do presidente norte-americano, que chegou a trocar números de telefone pessoal com Lula, estabelecendo uma linha direta de comunicação entre os dois líderes.
O foco principal da conversa foi o comércio bilateral. Atualmente, o Brasil figura entre os poucos países do G20 com os quais os Estados Unidos mantêm superávit na balança de bens e serviços — um dado ressaltado por Lula durante a chamada. A tarifa de 50%, imposta durante gestões anteriores, afeta diretamente setores estratégicos da exportação brasileira, como o aço, o alumínio e alguns produtos agrícolas.
Além da questão tarifária, Lula também pediu a revisão de sanções impostas a autoridades brasileiras — cujos nomes e motivos ainda não foram oficialmente divulgados. Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o presidente brasileiro foi claro ao afirmar que tais medidas “não são justas” e precisam ser rediscutidas.
“Estamos muito otimistas que a gente vai avançar. O presidente Lula destacou a disposição do Brasil para o diálogo e para a negociação”, afirmou Alckmin a jornalistas, classificando a conversa como “melhor até do que esperávamos”.
A sinalização mais concreta veio com o anúncio de que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, será o responsável por conduzir as negociações pelo lado dos EUA. Pelo Brasil, estarão envolvidos o próprio Alckmin, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Embora ainda não haja uma nova reunião marcada, ambos os presidentes demonstraram disposição para encontros presenciais: Lula sugeriu uma reunião durante a Cúpula da ASEAN, na Malásia, e reiterou o convite a Trump para participar da COP30, em Belém, no próximo mês de novembro.
A retomada do diálogo acontece em um contexto delicado. Desde 2018, com a adoção de uma política comercial protecionista pelos EUA, o Brasil passou a ser afetado por uma série de barreiras tarifárias e técnicas. Segundo dados do Ministério da Economia, as exportações brasileiras de aço para os EUA, por exemplo, caíram cerca de 36% entre 2018 e 2023. Em contrapartida, os EUA mantêm superávit consistente na venda de serviços ao Brasil, principalmente nos setores de tecnologia, propriedade intelectual e defesa.
A abertura de um canal direto entre os dois presidentes pode indicar um realinhamento diplomático, após anos de distanciamento e tensões veladas. A relação entre Lula e Trump, que parecia improvável anos atrás, ganha agora contornos pragmáticos. Ambos buscam vantagens comerciais e visibilidade internacional, ainda que por motivações políticas distintas.
Para o professor de Relações Internacionais da USP, Felipe Loureiro, a reaproximação é estratégica: “O Brasil tenta redesenhar seu posicionamento global, com Lula buscando protagonismo no Sul Global, enquanto Trump, em campanha para a reeleição, mira em bons números econômicos e acordos bilaterais que mostrem força”. Segundo Loureiro, o encontro marca “uma inflexão importante na política externa brasileira, que volta a atuar com pragmatismo frente às grandes potências”.
Apesar da cordialidade, o caminho até a retirada da sobretaxa é complexo e passa por interesses internos nos Estados Unidos, especialmente de setores industriais protegidos pela medida. No Congresso norte-americano, há resistência à flexibilização de tarifas sem contrapartidas claras. Já no Brasil, setores empresariais pressionam o governo por avanços rápidos, diante da queda na competitividade de produtos nacionais no mercado norte-americano.
Se por um lado a conversa entre os dois presidentes abre um canal promissor, por outro, revela a fragilidade das relações comerciais sustentadas por decisões unilaterais e instáveis. O “otimismo” declarado por Alckmin, embora compreensível, precisará se traduzir em avanços concretos — algo que, na prática, dependerá de negociações técnicas prolongadas e de vontade política dos dois lados.
Enquanto isso, a diplomacia brasileira aposta no velho lema da política internacional: diálogo nunca é demais, principalmente quando o interesse nacional está em jogo.
Bolsonaro de fora
O ex-presidente Jair Bolsonaro não foi mencionado uma única vez durante os 30 minutos de conversa entre Lula e Trump. Mesmo quando o presidente brasileiro pediu a retirada das sanções impostas pelos Estados Unidos a autoridades nacionais, o nome de Bolsonaro permaneceu fora do diálogo — um silêncio que ecoou com força entre os apoiadores do ex-presidente nas redes sociais.
A ausência de Bolsonaro na conversa irritou setores bolsonaristas, que há anos cultivam a ideia de uma proximidade estratégica com Trump. Desde 2019, o clã Bolsonaro — especialmente o deputado federal Eduardo Bolsonaro — usou imagens, declarações e encontros com figuras ligadas ao trumpismo para alimentar a narrativa de um canal privilegiado com a Casa Branca. A chamada direta entre Lula e Trump, feita por iniciativa do republicano, desmonta esse mito.
Nas redes bolsonaristas, o incômodo foi visível. Alguns militantes criticaram abertamente Trump por não defender Bolsonaro durante o telefonema. Outros tentaram ressignificar o gesto, afirmando que o silêncio do norte-americano faria parte de uma estratégia para forçar Lula a aceitar uma anistia ao ex-presidente brasileiro. O próprio Eduardo Bolsonaro chegou a insinuar que Trump estaria jogando “xadrez 4D” ao elogiar Lula publicamente na Assembleia Geral da ONU, numa tática para supostamente proteger seu aliado sul-americano. Mas a tese, vazia de fundamentos jurídicos ou políticos, não se sustenta frente à realidade institucional: o presidente da República não tem qualquer ingerência sobre as decisões do STF.
A frustração se traduziu em memes, ironias e questionamentos dentro da própria base bolsonarista. “Vai ter bandeira dos Estados Unidos nos atos bolsonaristas marcados para amanhã?”, questionou com sarcasmo um influente colunista político. O uso da bandeira americana em manifestações de extrema direita no Brasil, comum desde 2018, virou um símbolo da fidelidade ideológica ao trumpismo. Mas a lealdade começou a balançar diante da nova disposição de Trump ao diálogo com Lula.
O gesto de Trump, ainda que envolto em pragmatismo econômico, tem implicações políticas significativas. Indica que, em seu cálculo estratégico, manter relações construtivas com o atual governo brasileiro — o maior parceiro comercial dos EUA na América do Sul — pesa mais do que retribuir lealdades pessoais passadas. Vale lembrar que, durante sua gestão anterior, Trump impôs a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros justamente para agradar sua base e se alinhar com Bolsonaro. Agora, na tentativa de reeleição, ele parece disposto a reavaliar posturas para ampliar seu raio de influência internacional.
Lula, por sua vez, evitou abrir flancos desnecessários. A escolha de não mencionar diretamente Bolsonaro ou Moraes evidencia um movimento tático: cobrar a suspensão das sanções sem acirrar ânimos. Em tempos de polarização interna, qualquer palavra a mais teria potencial de incendiar o debate político brasileiro — ou comprometer as negociações em curso.
Analistas interpretam o silêncio como parte de um novo realismo diplomático do governo brasileiro. “A decisão de não antecipar a videoconferência e manter discrição mostra que o Palácio do Planalto aprendeu com episódios recentes, como o fracasso da agenda entre Haddad e o Tesouro dos EUA”, avalia a cientista política Carolina Botelho, pesquisadora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ. “É um gol de placa no campo da política externa pragmática.”
A construção de uma via de diálogo entre Lula e Trump, embora ainda inicial, já altera o tabuleiro político interno. Para a base bolsonarista, que sempre vendeu a imagem de exclusividade no acesso a Washington, o episódio deixa claro que os canais institucionais prevalecem sobre vínculos ideológicos pessoais. E que a diplomacia, por mais contraditória que pareça, ainda tem suas regras — e suas ironias.
Escolha de Marco Rubio para negociar com o Brasil acende alerta
A decisão de Trump de nomear o secretário de Estado Marco Rubio como principal interlocutor nas negociações comerciais com o Brasil causou forte apreensão no setor privado brasileiro e em diplomatas experientes. Rubio é conhecido por seu perfil ideológico, afinado com a ala mais dura da política externa republicana, e tem um histórico explícito de críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à agenda progressista na América Latina.
O movimento rompe com a expectativa de que as negociações passariam por canais técnicos, como o Departamento do Tesouro ou o Escritório de Comércio da Casa Branca — órgãos mais alinhados aos interesses econômicos práticos e tradicionalmente mais sensíveis às demandas do setor privado.
Para Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres, a escolha de Rubio é um sinal de alerta. “A designação do Marco Rubio complica para a gente. Porque todas essas sanções que foram colocadas aqui saíram do Departamento de Estado. Vamos ver agora como é que o Departamento de Estado vai reagir”, afirmou em entrevista ao UOL News. Segundo ele, o Departamento do Tesouro resistia à imposição das sanções com base na Lei Magnitsky, e a inclusão de autoridades brasileiras nas listas teria sido forçada pelo Departamento de Estado, então sob forte influência de Rubio.
Rubio, ex-senador da Flórida e filho de exilados cubanos, tem ambições presidenciais e um longo histórico de atuação ideológica na política externa americana. Ao longo dos últimos anos, foi um dos principais defensores de sanções duras contra governos de esquerda na América Latina, especialmente Venezuela, Cuba e Nicarágua. Também criticou duramente a aproximação entre Brasil e China e atacou diretamente Lula por sua relação com o presidente venezuelano Nicolás Maduro. “Lula da Silva, do Brasil, é o mais recente líder de extrema esquerda que encobre a natureza criminosa do narco-regime de Maduro”, escreveu em 2023.
Em outra ocasião, no jornal The Epoch Times, Rubio classificou a postura de Lula como “paradoxal” por tentar estreitar laços tanto com os Estados Unidos quanto com a “China comunista”. Ele defendeu que o presidente americano adote uma “linha firme” com o Brasil, responsabilizando Lula por suas alianças internacionais.
As críticas também se estenderam ao Judiciário brasileiro. Em abril de 2024, após a decisão do STF de suspender temporariamente a plataforma X (ex-Twitter) no Brasil, Rubio acusou o governo de censura e de violar liberdades básicas. “A recente decisão de proibir o X é a mais recente manobra do juiz Alexandre de Moraes para minar as liberdades básicas. O Brasil deve retificar essa medida autoritária”, declarou.
Diante desse perfil, empresários e representantes da indústria brasileira demonstraram preocupação com a condução das negociações tarifárias. A principal reivindicação do Brasil é a retirada da sobretaxa de 50% aplicada a produtos como carne, café e aço — setores nos quais o Brasil tem grande peso exportador. A tensão aumentou depois de uma queda brusca nas exportações brasileiras para os EUA em agosto deste ano: uma retração de 18,5%, de acordo com dados oficiais. Mesmo assim, o Brasil conseguiu aumentar em 3,7% as vendas externas em relação a agosto de 2024, sinalizando que há demanda por seus produtos em outros mercados.
“O que mais pesou para esse telefonema foi o nosso agosto”, afirma Leonardo Trevisan, economista e professor da ESPM. Segundo ele, a pressão de setores empresariais americanos, como a Associação Nacional de Restaurantes — com mais de 3 milhões de membros — e de indústrias com cadeias produtivas integradas ao Brasil, foi fundamental para sensibilizar a Casa Branca. “A gritaria em torno do agronegócio pesou, e a Câmara de Comércio Americana no Brasil foi muito ativa em informar a Casa Branca”, completou Trevisan.
Apesar da designação de Rubio, a decisão final sobre as tarifas dependerá diretamente da Casa Branca. Segundo Rubens Barbosa, isso reforça a importância da conversa direta entre Trump e Lula. “Tudo passa agora pela Casa Branca. A ideia é que desapareça esse 40% [de sobretaxa], ou diminua ainda mais. Essa é a negociação que o governo brasileiro deve estar fazendo”, afirmou.
A escolha de Rubio, no entanto, indica que o caminho até um eventual acordo será politicamente carregado. Seu histórico de proximidade com Bolsonaro também acende outro sinal de alerta: em 2019, Rubio escreveu que o Brasil, sob Bolsonaro, representava uma “nova era” de alinhamento com os EUA, e defendeu que Trump selasse acordos estratégicos com o ex-presidente brasileiro. Naquele mesmo ano, foi um dos que pressionaram contra a entrada da Huawei no Brasil, vinculando a presença da empresa chinesa à possibilidade de sabotagem em acordos de defesa e inteligência com os EUA.
Agora, com Lula no comando e os canais diplomáticos reabertos, o Brasil enfrenta um impasse: precisa negociar com um interlocutor que tem o histórico mais hostil entre os altos escalões do governo Trump. A diplomacia brasileira aposta na racionalidade econômica para suavizar as arestas. Mas, como demonstra a escolha de Rubio, a política externa dos EUA — sobretudo sob Trump — continua sendo, em grande medida, um campo de batalha ideológico.
Com os próximos passos a cargo de ministros brasileiros e de Rubio, o Planalto terá que manter o equilíbrio entre firmeza nas demandas e cautela nas palavras — numa negociação que, ao que tudo indica, será tão política quanto técnica.
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