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Poder

Direita brasileira tenta se reconfigurar após prisão de Bolsonaro

Campo precisa decidir se será coautor de uma nova fase democrática ou cúmplice silencioso de sua erosão

Publicado em 25/11/2025 9:47 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A prisão preventiva de Jair Bolsonaro e a cena grotesca do ex-presidente confessando ter tentado derreter a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda expuseram, em tempo real, não apenas o desmoronamento simbólico de um projeto autoritário, mas também os dilemas da direita democrática no Brasil.

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Em meio a um evento internacional da centro-direita — a Assembleia Geral da IDC-CDI, realizada em São Paulo —, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, preferiu o silêncio após as imagens virem à tona. Sua hesitação não foi apenas individual: ela sintetiza a perplexidade de um campo político inteiro diante do colapso ético de um ex-aliado incômodo e ainda influente.

O vídeo da violação da tornozeleira transformou o discurso de “injustiça” da prisão em constrangimento público. Até então, Kassab havia publicado uma nota classificando como “incompreensível” a medida judicial. Com a confissão de Bolsonaro de que “meteu um ferro quente” no dispositivo por “curiosidade”, a narrativa foi ao chão, e com ela, parte das estratégias da direita institucional que tenta se afastar da extrema direita sem perder sua base eleitoral.

Entre o liberalismo e o autoritarismo

A ambiguidade de Kassab e seus pares é sintomática de uma crise maior: a dificuldade da centro-direita brasileira em se distinguir de forma clara e consequente do bolsonarismo, do qual se beneficiou eleitoralmente, mas que agora ameaça afundar o campo todo em descrédito. A defesa de valores liberais, como liberdade de imprensa e repúdio a regimes totalitários, feita por Kassab durante o evento da IDC-CDI, contrasta com o flerte político com figuras que participaram ou silenciaram diante das tentativas de golpe protagonizadas por Bolsonaro.

Ao defender o nome do governador Tarcísio de Freitas como principal aposta do PSD para 2026, Kassab não esconde a contradição. Tarcísio, ex-ministro de Bolsonaro, ajudou a construir — e se beneficiou — do projeto autoritário que agora entra em colapso. Ao mesmo tempo, é apontado como opção mais “moderada” para liderar a direita pós-Bolsonaro. Kassab tenta distinguir: “Ele [Tarcísio] é um pouco mais radical, à direita”, mas, ainda assim, passível de diálogo. A distinção soa frágil. Como construir uma nova liderança democrática sobre as fundações de um projeto que afrontou o Estado de Direito?

Flávio Bolsonaro e o colapso do capital político

Paralelamente, a prisão do ex-presidente desestabilizou não apenas o bolsonarismo como projeto, mas também suas figuras herdeiras. O senador Flávio Bolsonaro, até então considerado o “filho político” mais viável e articulado, viu sua imagem ruir ao se envolver diretamente nos bastidores do episódio que levou à prisão do pai. Sua tentativa de mediar e controlar a narrativa tornou-se um tiro no pé.

Segundo analistas políticos, como Daniela Lima, da GloboNews, Flávio “implodiu um pouco da construção” que vinha fazendo como figura mais palatável entre os filhos do ex-presidente. Era visto como o mais sóbrio, com acesso ao Judiciário e capacidade de articulação política. Ao se envolver nos bastidores da crise — e, segundo relatos, ter sido um dos estopins da decisão judicial —, desgastou seu próprio futuro eleitoral. “Ele precisará também recalibrar a própria atuação”, apontou Daniela.

A reação desastrosa de aliados também evidenciou o colapso estratégico: tentativas de desviar o foco para um suposto “erro técnico” da tornozeleira, ou de tratar o episódio como “narrativa”, foram desmentidas pelo próprio Bolsonaro em vídeo. O advogado Paulo Cunha Bueno, ao afirmar que tudo não passava de invenção, foi desmentido horas depois pela confissão filmada do cliente. Para um campo que sempre se vangloriou de “falar verdades”, a verdade se tornou seu maior adversário.

A direita sem bússola e a disputa por narrativas

Essa conjuntura mostra um campo político órfão: a centro-direita tenta se viabilizar como alternativa democrática, mas permanece acorrentada ao bolsonarismo — seja pela herança ideológica, seja pelo eleitorado cativo. Kassab, ao se declarar de centro, busca se diferenciar do PL e do radicalismo da extrema-direita, mas o movimento é cauteloso e, até aqui, insuficiente para reorganizar o tabuleiro. “Se o PSD fosse de direita, estaria no PL”, disse Kassab — uma frase que tenta afirmar uma posição, mas que revela a ausência de um projeto claro.

No plano internacional, o constrangimento é ainda maior. Receber lideranças da centro-direita democrática mundial, como o ex-presidente colombiano Andrés Pastrana, enquanto o líder simbólico da direita brasileira tentava burlar uma tornozeleira com ferro quente, é o retrato da esquizofrenia política nacional.

Entre escombros e reconstrução

No cenário político contemporâneo, onde as imagens correm mais rápido que os discursos, o silêncio e a hesitação são lidos como posicionamento. O desafio da centro-direita brasileira é formular uma alternativa que não seja apenas eleitoral, mas ética e institucional. Isso exige uma ruptura definitiva com o bolsonarismo — e não apenas uma gestão de danos. A tentação de capturar os votos dos “órfãos de Bolsonaro” pode ser fatal se não vier acompanhada de um projeto que restabeleça os fundamentos democráticos, hoje tão desgastados.

Como lembra o sociólogo Adam Przeworski, “a democracia não é apenas um conjunto de instituições, mas uma cultura política que valoriza o pluralismo e o compromisso com regras compartilhadas” (Democracy and the Market, Cambridge University Press, 1991). O que se vê hoje, no Brasil, é uma disputa por manter essas regras vivas em um campo contaminado por quem tentou rasgá-las.

A centro-direita precisa decidir: será coautora de uma nova fase democrática ou apenas cúmplice silenciosa de sua erosão?

Aprofunda-se a crise e a expõe disputa entre clã e centrão

A prisão preventiva de Bolsonaro não apenas marcou um ponto de inflexão na trajetória do ex-presidente — hoje politicamente desidratado e juridicamente encurralado — como também acirrou a disputa por sua herança política. Nos bastidores, a tensão entre o clã Bolsonaro e as lideranças do centrão chegou ao ponto de ebulição.

Enquanto Bolsonaro permanece recolhido em silêncio forçado pela Justiça, a disputa por sua sucessão informal movimenta as engrenagens da direita. De um lado, o centrão se articula para acelerar a transição de poder simbólico e eleitoral para o governador Tarcísio de Freitas. De outro, o senador Flávio Bolsonaro reage com fúria ao que considera traição: “Quem falar agora de sucessão de Bolsonaro é canalha”, disparou, em tom de advertência direta aos aliados.

A reação evidencia o quanto o clã resiste a aceitar o ocaso político do patriarca. Ainda há, entre os bolsonaristas mais fiéis, a tentativa de ressuscitar a pauta da anistia — proposta já tida como natimorta antes mesmo da prisão. Para o centrão, contudo, o projeto derreteu junto com a tornozeleira danificada por Bolsonaro. A avaliação dominante nas cúpulas de partidos como PP e União Brasil é de que até mesmo alternativas mais brandas, como a redução de penas, tornaram-se inviáveis após o episódio da solda.

Na noite de ontem (24), um jantar em São Paulo reuniu governadores que orbitam o espectro da direita institucional: Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado (GO), Romeu Zema (MG), Cláudio Castro (RJ) e Eduardo Leite (RS). Embora informalmente descrito como um encontro de avaliação conjuntural, nos bastidores todos sabiam que o cardápio principal era a reorganização da direita para 2026 — e a redefinição de sua liderança. Pelos critérios de Flávio Bolsonaro, seria uma reunião de “canalhas”.

O simbolismo do encontro é incontornável: sinaliza que, para uma parte relevante do conservadorismo brasileiro, a era Bolsonaro está sendo encerrada a contragosto, mas com pragmatismo. A tentativa de resgatar alguma coerência institucional passa agora por Tarcísio — que, paradoxalmente, também foi cúmplice do governo que agora tenta superar.

O centrão em xeque: do ex-mito ao mico

Mas nem tudo saiu como o centrão esperava. A coalizão fisiológica que sustentou Bolsonaro até o último fôlego de governo planejava uma transição suave de poder. O plano era simples: costurar o apoio de Bolsonaro a Tarcísio em troca de uma apólice de indulto ou, ao menos, de um acordo legislativo que reduzisse suas penas e blindasse juridicamente seus aliados. Mas a realidade impôs outro roteiro.

Sem “PEC da Blindagem” nem trégua jurídica, as lideranças do centrão agora convivem com dois problemas: a imprevisibilidade de Bolsonaro e o desgaste crescente com o escândalo do Banco Master — um dos mais ruidosos casos de suspeita de má gestão e conluio entre agentes públicos e interesses financeiros nos últimos meses.

O banco, investigado por rombos bilionários em fundos de previdência pública e operações com o Banco de Brasília (BRB), se tornou um símbolo incômodo. Entusiastas da candidatura de Tarcísio, como os caciques Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União Brasil), além de governadores como Cláudio Castro e Ibaneis Rocha (DF), são pressionados a dar explicações. O “mico” se impôs ao “mito” — e parte da direita agora se vê exposta em praça pública, com as feridas abertas.

Tarcísio em silêncio constrangedor

Tarcísio de Freitas, que correu às redes sociais na manhã de sábado para protestar contra a prisão de Bolsonaro, recolheu-se após a divulgação do vídeo que desmentiu a narrativa de erro técnico na tornozeleira. A imagem de Bolsonaro admitindo ter usado um ferro de solda por “curiosidade” silenciou aliados e esvaziou qualquer tentativa de romantização do episódio.

O gesto revelou mais do que a tentativa infantil de burlar a Justiça: escancarou a vulnerabilidade emocional e o desequilíbrio de um líder que, mesmo sob vigilância judicial, insiste em atos de afronta ao sistema. A versão de um surto paranoico circulou em grupos políticos como forma de amenizar o dano — mas, na prática, acentuou o desgaste.

Uma direita fragmentada às vésperas de 2026

A soma de fatores — a prisão, a ruptura entre o clã e o centrão, os escândalos financeiros e o vácuo de liderança — alimenta o cenário de fragmentação da direita. Bolsonaro, ainda com base popular expressiva, resiste a transferir o que resta de seu capital político. Insinua até a possibilidade de lançar Flávio como candidato, gesto que desorganizaria ainda mais o tabuleiro e ameaçaria a formação de um bloco unificado para enfrentar Lula ou seu sucessor em 2026.

O sonho de Tarcísio, até pouco tempo tratado como inevitável, agora amadurece sob o risco da decomposição. A direita pode repetir 2018 ao avesso: em vez de convergir para um outsider, pode se dividir em candidaturas múltiplas — pulverização que favorece o campo progressista.

Como lembra o cientista político Luiz Werneck Vianna, “o populismo autoritário tem uma força centrípeta quando ascende, mas se desfaz de maneira centrífuga quando perde o controle do poder” (A Modernização sem o Moderno, Editora Revan, 2017). É exatamente esse o processo que a direita brasileira vive hoje: a dissolução de um projeto autoritário sem que outro tenha conseguido emergir com credibilidade e consistência.

UNI-VOS!


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