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Poder
Apenas 3 Estados divulgam dados completos e 37% dos municípios ignoram transparência
Publicado em 24/10/2025 9:19 - Semana On
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O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que Estados, Distrito Federal e municípios passem a adotar integralmente as mesmas regras de transparência e rastreabilidade hoje aplicadas às emendas parlamentares federais. A decisão foi tomada no âmbito da ADPF 854, apresentada pelo PSOL, e visa corrigir distorções na aplicação de recursos públicos, especialmente no uso das chamadas emendas Pix e emendas subnacionais, marcadas por opacidade e falta de controle.
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A medida representa um desdobramento direto do julgamento que, em 2022, declarou inconstitucional o chamado “orçamento secreto”. Desde então, houve avanços significativos na rastreabilidade das emendas federais, incluindo a reformulação do Portal da Transparência, a aprovação da Lei Complementar 210/2024 e a exigência de plano de trabalho para cada repasse. Contudo, como destacou Dino, “essas melhorias não foram replicadas nos demais entes federativos, o que representa desafio à Constituição e à autoridade do STF”.
Levantamentos apresentados por entidades como Transparência Internacional, Transparência Brasil e Contas Abertas escancararam o problema. Apenas 3 dos 27 Estados divulgam informações completas sobre a execução dessas emendas, enquanto 37% dos municípios brasileiros não fornecem qualquer dado público sobre os recursos recebidos ou sua aplicação. A ausência de rastreabilidade favorece práticas clientelistas e desvios de finalidade, especialmente em repasses diretos via transferências especiais, apelidadas de emendas Pix.
Criadas em 2019 por emenda constitucional, as emendas Pix permitiam a transferência direta de verbas do orçamento federal para entes subnacionais, sem a exigência de detalhamento prévio, identificação do parlamentar autor ou clareza sobre a aplicação dos recursos. O modelo foi questionado judicialmente e, a partir de 2022, começou a ser reestruturado após ações do STF.
A decisão de Dino determina que, a partir de 1º de janeiro de 2026, a execução de qualquer emenda estadual ou municipal ficará condicionada ao cumprimento integral das normas federais de transparência. Estados e prefeituras deverão comprovar a adoção dessas regras junto aos Tribunais de Contas locais, que também foram notificados para fiscalizar o processo. A Controladoria-Geral da União (CGU), o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ministério da Gestão e Inovação prestarão apoio técnico à implementação das medidas.
O ministro também convocou uma audiência pública para março de 2026, quando será feita a primeira avaliação oficial sobre o cumprimento das exigências. “Estamos diante de um modelo que precisa ser republicano do início ao fim. Dinheiro público exige rastreamento completo”, afirmou Dino durante sessão no STF.
Investigações sobre emendas Pix passadas
Durante a mesma audiência pública, Dino reiterou que os repasses realizados entre 2020 e 2024 por meio das emendas Pix serão investigados “a fundo” pelos órgãos de controle. Estão pendentes de análise cerca de 35 mil relatórios, que correspondem a aproximadamente R$ 20 bilhões em recursos públicos. A maioria desses documentos foi entregue de forma retroativa, por ordem do Supremo.
“É impossível abrirmos um tapete gigante e colocarmos tudo debaixo. Acredito que nenhum órgão sugeriria isso”, afirmou o ministro, rebatendo críticas de congressistas que acusaram o STF de perseguição ao Legislativo. Dino frisou que não se trata de “intuito persecutório”, mas sim de dever institucional.
A Advocacia-Geral da União (AGU) e demais órgãos iniciarão o exame dos relatórios por amostragem, com base em critérios como risco de desvio e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das localidades beneficiadas. Também será considerada a natureza do gasto: segundo Dino, verbas destinadas a eventos, mutirões de cirurgias e shows são mais propensas a irregularidades e, por isso, terão prioridade nas apurações.
Princípio da simetria e reforço institucional
A decisão do STF se ancora no artigo 163-A da Constituição Federal, que trata da responsabilidade fiscal e da execução orçamentária. Com base nesse dispositivo, o ministro aplicou o princípio da simetria, segundo o qual normas de transparência e controle válidas para a União devem também ser seguidas pelos demais entes federativos.
Ao envolver diretamente Tribunais de Contas, Ministérios Públicos de Contas e Procuradorias-Gerais de Justiça, a medida busca evitar brechas institucionais. O objetivo é criar uma rede nacional de controle, capaz de coibir desvios antes que eles ocorram.
A Transparência Brasil celebrou a decisão. Em nota técnica, a entidade afirmou que “o Brasil enfrenta um desequilíbrio estrutural na fiscalização das transferências subnacionais”, e que “a ação do Supremo corrige uma falha histórica no sistema federativo”.
Perspectiva crítica e implicações futuras
A decisão de Flávio Dino joga luz sobre uma prática silenciosa, porém disseminada, de esvaziamento da transparência nas relações entre o Legislativo e o Executivo nos níveis estadual e municipal. Ao permitir que bilhões de reais fossem transferidos sem qualquer critério público visível, o modelo das emendas Pix — e, por extensão, as emendas subnacionais — criaram uma arquitetura paralela de poder, opaca e vulnerável à captura política.
Ao estender as regras do “pós-orçamento secreto” a toda a Federação, o STF responde não só a uma crise institucional de transparência, mas também à crescente desconfiança da sociedade em relação à forma como os recursos públicos são distribuídos e utilizados. A eficácia da medida, no entanto, dependerá do comprometimento político dos entes federativos e da robustez das instituições de controle em todo o país.
A audiência marcada para março de 2026 será o primeiro teste prático dessa nova etapa. Até lá, caberá à sociedade civil, aos tribunais e ao jornalismo de dados acompanhar cada passo. Afinal, como disse o próprio ministro, “dinheiro público precisa ser seguido com olhos públicos”.
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