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Poder
Saudável para fazer live golpista na cama do hospital, ex-presidente reclama da Justiça
Publicado em 24/04/2025 10:04 - Semana On
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Enquanto repousa em uma cama de hospital, Jair Bolsonaro segue em campanha — não por um cargo, mas por relevância. Transformando sua internação em um espetáculo político, o ex-presidente investe na vitimização midiática e na radicalização discursiva como último recurso diante de um cenário jurídico cada vez mais adverso. As imagens do hospital DF Star, suas lives com aliados, as referências ao nazismo e o embate com uma oficial de Justiça compõem um roteiro cuidadosamente ensaiado. Ao que tudo indica, não se trata de fragilidade clínica, mas de sobrevivência política.
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Desde que deu entrada no hospital, em Brasília, para tratar de um desconforto abdominal, Bolsonaro tem utilizado sua condição médica como instrumento de mobilização política. A intensa exposição — com vídeos, entrevistas e lives diretamente do leito — aponta para uma estratégia de comunicação calculada. Como bem observou a socióloga Esther Solano, estudiosa da base bolsonarista, “o bolsonarismo vive da imagem de um líder perseguido; o sofrimento físico reforça esse mito”. A presença de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e do pastor Silas Malafaia no hospital não deixa dúvida: trata-se de uma internação com fins políticos, e não de afastamento por incapacidade.
Encenação e manipulação
O episódio envolvendo a servidora do Supremo Tribunal Federal (STF), encarregada de entregar uma citação judicial a Bolsonaro, escancarou a teatralidade da situação. O ex-presidente filmou a abordagem, expôs a oficial nas redes sociais e dramatizou sua reação com o objetivo de alimentar a narrativa de perseguição. A encenação contrasta com a jurisprudência consolidada no país, que autoriza citações mesmo em contextos delicados de saúde — o que não se aplicaria ao caso, dada a evidente lucidez e atividade pública do ex-mandatário.
O STF, por sua vez, aguardou condições adequadas antes de proceder à entrega da citação, o que reforça a legalidade do ato. A conduta da servidora, serena e objetiva, desmontou o espetáculo bolsonarista e evidenciou que não houve abuso de poder, tampouco desrespeito institucional.
Retórica do ódio e a inversão da legalidade
Bolsonaro, em suas falas, insiste em desconhecer a intimação, apesar da existência de registros formais e contatos prévios com sua equipe jurídica. A narrativa de “segredo de Justiça” e “perseguição política” busca desacreditar as instituições democráticas e reposicioná-lo como vítima de um suposto complô.
Para o cientista político Christian Lynch, pesquisador da FGV, “Bolsonaro opera numa lógica antipolítica: ele não aceita os limites da legalidade democrática quando esta o contraria, e recorre ao apelo direto às massas, típico do populismo autoritário”. O objetivo é claro: minar a legitimidade do STF e preservar a fidelidade de sua base mais radicalizada.
O flerte com o extremismo
Em uma de suas declarações mais polêmicas, Bolsonaro comparou decisões do STF às práticas jurídicas do regime nazista, mencionando diretamente Hitler e os tribunais do Terceiro Reich. A evocação é não apenas infundada, mas profundamente ofensiva — especialmente considerando seus laços políticos com setores da extrema-direita europeia, como a deputada alemã Beatrix von Storch, do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que já relativizou o nazismo em declarações públicas.
A fala “eleição sem Jair Bolsonaro é uma negação da democracia” resume o ethos antidemocrático do ex-presidente. Em uma democracia consolidada, ninguém é indispensável; a alternância de poder é, aliás, um de seus pilares. A tentativa de se colocar como figura insubstituível revela uma visão personalista e distorcida do jogo democrático.
O ocaso do mito
A atual encenação hospitalar não deve ser lida como uma demonstração de força, mas como o reflexo de uma trajetória política em declínio. A recusa em aceitar as regras do jogo democrático, o apelo constante à vitimização e a radicalização discursiva evidenciam o isolamento de Bolsonaro no campo político institucional.
Com investigações em curso, risco de inelegibilidade e o avanço das ações que apuram sua tentativa de subverter o processo eleitoral, o horizonte político para o ex-presidente se estreita. “Não haverá anistia”, declarou recentemente o ministro Alexandre de Moraes, numa reafirmação do compromisso com o Estado de Direito.
Bolsonaro, ao tentar se projetar como mártir, revela, na verdade, sua maior fraqueza: a perda de controle sobre os rumos da própria narrativa. O hospital pode ser o novo palco, mas o enredo é cada vez mais previsível — e pouco crível.
A anistia e o abismo
Em meio à tensão crescente entre forças institucionais e tentativas de revisionismo autoritário, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu não incluir na pauta da próxima reunião de líderes o requerimento de urgência para o projeto que concede anistia aos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. A decisão, confirmada pelo vice-líder do governo, deputado Rogério Correia (PT-MG), representa um ponto de inflexão na disputa interna do Parlamento brasileiro: de um lado, a articulação bolsonarista em busca de impunidade; de outro, a resistência democrática diante de um projeto que muitos chamam de “golpe continuado”.
A movimentação ocorre num cenário político tenso. O Partido Liberal (PL), maior bancada da Câmara com 92 deputados, pressiona abertamente pela inclusão imediata do projeto na pauta do plenário. O líder da legenda, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), chegou a afirmar que o partido poderá romper com Motta caso a urgência não seja apreciada. “Estamos estabelecendo um limite. Se ele não inserir [na pauta], isso vai significar que está rompendo com a gente”, disse Sóstenes, elevando o tom da chantagem política e colocando em xeque os acordos internos de distribuição de emendas parlamentares.
O projeto de anistia não é apenas uma proposta jurídica; ele carrega um significado profundamente político. Como alertou Rogério Correia, trata-se de uma tentativa explícita de reescrever a narrativa dos ataques ao Estado Democrático de Direito. “Esse projeto de anistia é o projeto do golpe continuado. Querem mexer na lei para continuar tramando golpe”, declarou o parlamentar. A estratégia é clara: minimizar os crimes cometidos, deslegitimar as instituições e manter viva a expectativa golpista como ferramenta de mobilização da extrema direita.
A tentativa de anistiar os envolvidos no 8 de janeiro encontra paralelo com processos históricos em que movimentos autoritários buscaram legitimar retroativamente seus atos de violência política. Como apontou o historiador Timothy Snyder em Sobre a tirania (Companhia das Letras, 2017), “as instituições democráticas não morrem apenas por golpes clássicos, mas por erosões graduais, ancoradas em discursos legais e normalizações perigosas”. A anistia aos golpistas seria, nesse sentido, não apenas uma absolvição, mas um aval à reincidência.
Entre o centrão e a defesa da democracia
O impasse também reflete a nova dinâmica no comando da Câmara. Após anos sob a presidência de Arthur Lira, marcado por sua capacidade de negociar com múltiplas frentes — muitas vezes à custa de princípios institucionais —, Hugo Motta parece buscar um novo posicionamento. Governistas interpretam sua decisão como uma tentativa de se afirmar como figura de equilíbrio institucional, num Parlamento onde a fragmentação partidária é, ao mesmo tempo, reflexo e causa das crises políticas.
A decisão de não pautar o requerimento de urgência enfraquece, momentaneamente, a ofensiva bolsonarista, mas está longe de encerrar o assunto. A pressão continua nos bastidores, e o próprio Sóstenes já indicou que o rompimento poderá impactar inclusive a distribuição das emendas de comissão — um recurso vital para as bases parlamentares. A lógica do toma-lá-dá-cá, portanto, segue operando como chantagem velada em nome de uma causa que afronta os fundamentos republicanos.
Entre a história e o presente
O debate sobre anistia não é novo no Brasil. Em 1979, a Lei da Anistia foi aprovada sob forte pressão da ditadura militar, perdoando tanto os presos políticos quanto os agentes do regime responsáveis por torturas e assassinatos. À época, setores da sociedade civil criticaram duramente a “anistia recíproca”, que contribuiu para o silenciamento das violações e a impunidade dos torturadores. O atual projeto tenta repetir esse expediente: silenciar a memória, relativizar a violência, naturalizar o golpismo.
“Permitir anistia a esses que tramaram o golpe é dar outro golpe no Brasil”, alertou Correia em plenário. O risco, como mostram exemplos históricos, é que a impunidade institucionalizada serve de incentivo à repetição. Em sua análise sobre a ascensão do fascismo, o filósofo Walter Benjamin observou que “todo fascismo é resultado de uma revolução fracassada”. Em outras palavras, a anistia aos que atentaram contra a democracia pode ser o prólogo de novos ataques ainda mais ousados.
Um recado claro e uma linha vermelha
A sinalização da base governista é direta: apoiar a anistia significa cruzar uma linha vermelha. “Essa turma não defende a democracia. A questão deles é fundamentalmente trabalhar para a expectativa golpista. É permanente, uma estratégia contínua do Bolsonaro”, disse Correia, em comparação contundente com a ascensão do nazismo na Alemanha — onde Hitler foi subestimado até ser incontrolável.
A conjuntura coloca Hugo Motta numa encruzilhada institucional. Cabe a ele decidir se cede à pressão de um partido que, segundo as palavras de Correia, “já rompeu com a democracia”, ou se assume uma postura de compromisso com a legalidade e o futuro do regime democrático.
Ao não incluir o requerimento na pauta desta semana, Motta envia um sinal, ainda que tímido, de que há limites que não devem ser ultrapassados. Mas o verdadeiro teste virá quando — e se — a proposta voltar à mesa. Ali, estará em jogo mais do que o controle da pauta: estará em disputa a memória do país, a força das instituições e a possibilidade de consolidar uma democracia que, mais uma vez, se vê à beira do abismo.