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Poder
Senador recebe apoio de Tarcísio, mas lideranças de direita reagem com cautela
Publicado em 09/12/2025 9:52 - Semana On
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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou hoje (9) que disse ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que sua pré-candidatura à Presidência da República é “irreversível” e que ele o apoiou na decisão. O senador visitou o pai na prisão.
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“Falei para ele do ânimo generalizado da nossa militância, que estava sem um norte para seguir, e agora o presidente Bolsonaro deu esse norte. Falei que essa candidatura é irreversível… Palavras dele: ‘Não vamos voltar atrás, vamos seguir em frente'”, declarou Flávio ao deixar a PF. O senador contou ainda que o pai teria pedido para agradecer o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por declarar apoio a sua pré-candidatura.
Flávio Bolsonaro afirmou ainda que seu sobrenome é uma vantagem sobre o governador de São Paulo. “Eu também atendo a todos os requisitos [para concorrer ao Planalto], com a vantagem de que tenho sobrenome Bolsonaro”, disse Flávio em entrevista à Folha.
“Eu acho que não tem um cenário de eu ser candidato e ele [Tarcísio] ser. Seria uma ignorância muito grande, e ignorante é tudo o que o Tarcísio não é. Um cara extremamente inteligente, um cara que eu não tenho dúvida: a gente vai estar junto”, completou.
Ontem (8), Tarcísio de Freitas declarou apoio à candidatura de Flávio para a Presidência. No entanto, Tarcísio, que era cotado para disputar o mesmo cargo, disse que a direita deve ter outros candidatos no pleito. “Ele [Flávio] esteve comigo na sexta-feira [5] passada. Nós conversamos sobre isso. O presidente Bolsonaro, que é uma pessoa que eu respeito muito -eu sempre disse que eu ia ser leal ao Bolsonaro, que sou grato ao Bolsonaro e tenho essa lealdade inegociável- ele disse, o Flávio, da escolha dele [Bolsonaro] e é isso”, afirmou.
“O Flávio vai contar com a gente. O Flávio tem uma grande responsabilidade a partir de agora que se junta a outros grandes nomes da oposição que já colocaram seus nomes à disposição”, complementou, citando como alternativas Ronaldo Caiado (União Brasil), Romeu Zema (Novo) e Ratinho Jr. (PSD).
Tarcísio ainda não havia se manifestado sobre a candidatura de Flávio, que, entre aliados, foi avaliada como uma humilhação ao governador, demonstrando que Tarcísio não tem autonomia política.
O governador vinha sendo apontado pelos dirigentes dos partidos da centro-direita como principal nome para concorrer contra Lula no ano que vem. Embora nunca tenha admitido a proposta, uma série de declarações de Tarcísio, em especial para eventos do mercado financeiro, vinham sendo interpretadas como sinais de que ele estava disposto a concorrer.
Uma das mais recentes dessas sinalizações ocorreu no meio de novembro, quando o governador participou de uma palestra para do grupo G4 Educação, em que disse que se “trocar o CEO”, o Brasil voltaria a funcionar, em uma crítica indireta a Lula.
No último dia 25, contudo, instantes após o STF (Supremo Tribunal Federal) confirmar o trânsito em julgado (conclusão) do processo contra Bolsonaro, o que confirmou sua prisão, Tarcísio disse que estava “fora do bolo” de possíveis nomes na disputa.
Centro-direita reage com silêncio e sinaliza abandono ao PL
O anúncio de Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência da República em 2026 provocou mais constrangimento do que entusiasmo no campo da direita. Nas últimas 72 horas, dirigentes dos principais partidos do centrão classificaram a movimentação como improvisada, unilateral e desconectada da realidade eleitoral.
Longe de unificar a oposição, o gesto explicitou a fragilidade da estratégia do PL e isolou a legenda no tabuleiro político. Parlamentares de PP, União Brasil, Republicanos e PSD veem na tentativa de lançar Flávio um ato de desespero político, na ausência de Jair Bolsonaro, inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. A leitura é de que a família Bolsonaro apostou em uma transferência automática de liderança dentro do bolsonarismo — e fracassou.
Segundo aliados do Planalto que acompanham a movimentação da centro-direita, o dado mais relevante não foi o nome escolhido, mas a confirmação, ainda que tácita, de que Jair Bolsonaro está fora da disputa. Esse fator destravou articulações que estavam represadas pela expectativa de uma reviravolta judicial. Com a inelegibilidade consolidada, caciques partidários buscam agora uma candidatura viável, com potencial de diálogo e competitividade eleitoral — características que, segundo interlocutores do centrão, Flávio não oferece.
“Flávio não soma, só divide”
A avaliação nos bastidores é dura: Flávio Bolsonaro não empolga o eleitorado raiz bolsonarista, não atrai o centro e tampouco apresenta densidade eleitoral própria. A declaração do senador de que poderia desistir da disputa em troca de anistia ao pai foi interpretada como um sinal de fraqueza. Um dirigente do PP resumiu a percepção geral: “Flávio não soma nada ao projeto, só divide”.
A reação silenciosa dos partidos confirmou o mal-estar. Nenhuma sigla da base da direita se manifestou publicamente em apoio à pré-candidatura. A reunião convocada em Brasília no dia seguinte ao anúncio teve comparecimento apenas de Valdemar Costa Neto, presidente do PL. Os demais líderes alegaram compromissos de agenda para recusar o convite, em um gesto que ampliou o isolamento do partido.
Declarações públicas de líderes como Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União Brasil) indicam a disposição de construir um projeto coletivo, fora da lógica personalista. Ciro, em Curitiba, foi direto: a escolha do candidato da direita “não será decisão só do PL”. Política, afirmou, se faz com viabilidade e pesquisa. Já Rueda defendeu um processo baseado na capacidade de construção e diálogo, e não na polarização.
Ratinho cresce como alternativa
No vácuo deixado por Jair Bolsonaro e diante da falta de tração de Flávio, o nome do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), passou a ganhar força entre os partidos de centro-direita. Com alta aprovação no estado, segundo pesquisas locais, e boa relação com o mercado e setores empresariais, Ratinho se apresenta como um nome mais palatável e distante do radicalismo bolsonarista.
Ele ainda não se lançou oficialmente, mas tem deixado claro o interesse. Ao comentar o anúncio de Flávio, limitou-se a reafirmar sua disposição em “colaborar com um novo Brasil”. O presidente de seu partido, Gilberto Kassab, articula nos bastidores uma candidatura robusta, que una centro e centro-direita com foco em pacificação nacional.
A estratégia de Ratinho é evitar o desgaste da polarização antecipada. Em segundo mandato, aposta na imagem de gestor e investe em um discurso de união — em contraste com o tom conflitivo que marcou os últimos ciclos eleitorais.
Disputa interna no campo da direita
Outros nomes continuam no jogo: o governador de Minas, Romeu Zema (Novo), e o de Goiás, Ronaldo Caiado (União), mantêm suas pré-candidaturas e tratam o movimento de Flávio como legítimo, mas insuficiente para deter a reorganização do bloco. Zema afirmou que “múltiplas candidaturas ajudam a somar forças no segundo turno”. Caiado, por sua vez, defendeu que “seria suicídio” ter apenas um nome contra Lula em 2026.
Tarcísio de Freitas foi o único a manifestar apoio explícito a Flávio. Reafirmou sua “lealdade inegociável” a Jair Bolsonaro e disse que o senador “terá uma grande responsabilidade”.
“É uma negociação. Flávio colocou o nome para obter compromisso dos partidos com a anistia, em um gesto de desespero. Se não conseguir, implode a chance de uma candidatura única da direita”, avaliou Marco Antonio Teixeira, cientista político da FGV-SP, em entrevista ao UOL.
Hereditariedade política em xeque
A principal consequência do anúncio foi relevar a ausência de um plano estruturado para a sucessão bolsonarista. O gesto apressado e isolado revela mais sobre as dificuldades internas do PL do que sobre a força eleitoral do nome indicado. A direita, agora, se depara com a tarefa de construir uma candidatura que vá além do bolsonarismo puro e consiga dialogar com o centro.
Dirigentes partidários defendem um processo mais técnico e menos familiar. Com a pressão crescente para definição até o início de 2026, cresce a convicção de que a disputa não será decidida por herança, mas por quem conseguir articular uma frente ampla com viabilidade real de vitória.
A escolha precipitada de Flávio Bolsonaro, ao que tudo indica, não lançou uma candidatura — lançou um alerta.
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