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Poder
Desaprovação de Bolsonaro, Eduardo, Tarcísio e Trump cresce, mostra pesquisa
Publicado em 24/07/2025 9:39 - Semana On
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Enquanto o governo brasileiro tenta evitar perdas econômicas diante do tarifaço de 50% imposto por Donald Trump às exportações nacionais, o impacto político da crise atravessa as fronteiras da diplomacia e atinge em cheio o tabuleiro interno. Pesquisa do instituto Ipespe revela que a rejeição dos brasileiros ao ex-presidente dos Estados Unidos saltou de 55% em maio para 61% em julho. No mesmo movimento, líderes da direita brasileira que expressaram apoio a Trump, como Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o governador Tarcísio de Freitas, enfrentam elevada desaprovação pública — fenômeno que pode redesenhar o cenário das eleições de 2026.
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Os dados revelam mais do que oscilações de imagem. Eles apontam para uma inflexão no imaginário político brasileiro, especialmente entre os eleitores que, ainda há poucos anos, celebravam a aproximação entre Bolsonaro e Trump como símbolo de alinhamento ideológico e estratégico. Agora, 53% dos entrevistados acreditam que esse vínculo prejudicará candidaturas presidenciais associadas ao ex-mandatário norte-americano.
O levantamento do Ipespe, realizado entre os dias 19 e 22 de julho com 2.500 pessoas em todo o país, mostra que a atuação de Jair Bolsonaro na crise é desaprovada por 60% da população. Eduardo Bolsonaro registra rejeição de 59%, e Tarcísio de Freitas aparece com 46% de desaprovação — resultado especialmente significativo, considerando que o governador de São Paulo é apontado como nome potencial para 2026.
Enquanto isso, a atuação do governo Lula frente à crise é aprovada por 50% dos brasileiros. Apesar de não haver consenso — 46% desaprovam —, o dado revela uma divisão menos aguda do que a enfrentada pelos adversários à direita. Lula também angariou apoio ao anunciar que estuda a taxação das big techs como represália à sobretaxa americana: 55% dos entrevistados disseram apoiar a medida, enquanto 40% se posicionaram contra.
Um gesto simbólico de rendição?
Mas o episódio que mais escancarou a tensão política foi a cena, considerada constrangedora por muitos, protagonizada por parlamentares da oposição que estenderam uma bandeira dos Estados Unidos no plenário da Câmara dos Deputados, com o nome de Donald Trump e o slogan “Make America Great Again”. O gesto — realizado após o cancelamento de sessões que apoiariam Jair Bolsonaro frente ao STF — foi amplamente rejeitado nas redes sociais.
Segundo levantamento do analista Pedro Barciela, 77% das postagens foram críticas ao ato. Dentre os comentários mais recorrentes, 28% classificaram o episódio como “lesa-pátria” ou “ato antidemocrático”. Outros 24% enxergaram submissão ideológica: um “patriotismo invertido” que abandona interesses nacionais em favor de alinhamentos externos.
Termos como “capachos dos EUA”, “patriotários” e “Mama Americanos Again” viralizaram entre os críticos, que enxergaram no ato uma tentativa de importar símbolos políticos estrangeiros para um contexto onde a soberania nacional deveria ser o eixo do debate. Como bem observou o sociólogo José de Souza Martins em sua obra A Política do Brasil Lúmpen e Mística (Editora Contexto, 2020),
“Quando a identidade política se ancora em símbolos alheios à história do país, revela-se não um projeto, mas uma ausência de projeto nacional.”
Durante a coletiva que se seguiu à suspensão das sessões na Câmara, os deputados Sargento Fahur (PSD-PR) e Delegado Caveira (PL-PA) chegaram a erguer a bandeira dos EUA em homenagem a Trump. Houve reação imediata no plenário: “Tira essa bandeira daqui”, protestou um deputado, visivelmente constrangido.
Vistos, STF e a erosão da legitimidade institucional
A escalada da crise teve mais um componente grave: a decisão de Trump de revogar os vistos de entrada de ministros do Supremo Tribunal Federal nos Estados Unidos. A medida, vista por analistas como tentativa de intimidar o Judiciário brasileiro em meio ao processo contra Bolsonaro por tentativa de golpe, foi rejeitada por 57% dos brasileiros, segundo o Ipespe. Apenas 37% disseram concordar.
Esse cenário revela a complexidade de uma crise que mistura protecionismo econômico, tensões institucionais e disputas eleitorais antecipadas. A reação da opinião pública mostra um Brasil mais atento ao custo político do alinhamento automático com potências estrangeiras e à importância da defesa da soberania nacional.
Como afirmou o historiador Boris Fausto, em História do Brasil (Edusp, 2012), “A política externa é um dos mais sensíveis instrumentos de afirmação ou negação da independência de um país. Subordiná-la a interesses pessoais ou ideológicos é comprometer sua própria dignidade.”
Reflexos em 2026 e além
A pesquisa do Ipespe lança uma sombra longa sobre as pretensões eleitorais de figuras da direita bolsonarista. A aliança com Trump, que antes parecia trunfo, tornou-se fardo. O gesto de submissão simbólica, aliado à falta de respostas concretas sobre o tarifaço, gerou repulsa entre amplos setores da população.
Já o governo Lula, embora não escape de críticas, mantém relativa vantagem ao apresentar respostas institucionais à crise — como a missão parlamentar enviada aos EUA e o estudo de contramedidas econômicas. O desafio será manter esse equilíbrio em um contexto onde o confronto entre nacionalismo superficial e soberania real volta ao centro da cena política.
O tarifaço, mais do que um embate comercial, revelou-se um divisor ideológico: entre os que defendem o Brasil como nação soberana e os que preferem prestar reverência simbólica a um poder estrangeiro — mesmo que este, ao final, imponha ao país o peso da exclusão e da humilhação tarifária.
Rejeição e aprovação de líderes e medidas
– Rejeição a Donald Trump: 61% (em maio era 55%)
– Aprovação de Donald Trump: 33% (em maio era 39%)
– Aprovação do governo Lula na crise do tarifaço: 50%
– Desaprovação do governo Lula na crise: 46%
– Desaprovação geral de Lula: 45%
– Desaprovação de Jair Bolsonaro: 60%
– Aprovação de Jair Bolsonaro: 32%
– Desaprovação de Eduardo Bolsonaro: 59%
– Aprovação de Eduardo Bolsonaro: 27%
– Desaprovação de Tarcísio de Freitas: 46%
– Aprovação de Tarcísio de Freitas: 32%
Percepções políticas
– Brasileiros que acreditam que a proximidade com Trump prejudicará candidatos em 2026: 53%
Outros temas
– Brasileiros que discordam da revogação dos vistos de ministros do STF pelos EUA: 57%
– Brasileiros que concordam com a revogação: 37%
– Brasileiros que concordam com a taxação das big techs como retaliação: 55%
– Brasileiros que discordam da taxação das big techs: 40%
Repercussão nas redes sociais (faixa pró-Trump na Câmara)
– Críticas ao ato: 77%
– Defesas do ato: 18%
– Posições neutras/divididas: 5%
Entre as críticas (dentro dos 77%):
– 28%: chamaram o gesto de “traição à pátria” ou “crime de lesa-pátria”
– 24%: apontaram submissão ideológica a Trump
– 17%: usaram termos como “vendilhões da pátria” ou “desconectados do povo”
– 13%: utilizaram termos como “patriotários” e “capachos dos EUA”
Tarifaço expõem esgotamento do bolsonarismo
O Congresso Nacional está fervendo — não por calor ideológico, mas por fadiga. O sentimento dominante nas cúpulas da Câmara e do Senado em relação à família Bolsonaro é de saturação. Lideranças do centrão e chefes das Casas Legislativas, como Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP), demonstram irritação crescente com as investidas do clã, que insiste em reciclar pautas golpistas e fantasias de revanche institucional em pleno processo de desgaste.
Nas palavras secas de um interlocutor do centrão com trânsito em todos os polos da Casa: “Está todo mundo de saco cheio.” A frase, ainda que informal, traduz com precisão o esgotamento de setores pragmáticos do Legislativo com o comportamento errático dos bolsonaristas. A mais recente crise — provocada pela tentativa de uso político da tornozeleira eletrônica imposta a Jair Bolsonaro e pelos ataques reiterados ao Supremo Tribunal Federal (STF) — produziu não apenas impaciência, mas também bloqueios institucionais.
Propostas como o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e projetos de anistia ampla aos investigados do 8 de Janeiro foram relegadas ao ostracismo pelos presidentes das duas Casas. No Senado, Alcolumbre colocou na gaveta o pedido de Flávio Bolsonaro contra Moraes. Na Câmara, Motta mandou congelar o projeto que permitiria a Eduardo Bolsonaro manter o mandato mesmo atuando politicamente nos Estados Unidos.
Essa blindagem informal reflete uma inflexão: o bolsonarismo já não assusta nem empolga. E como alertava o filósofo francês Raymond Aron, em Democracia e Totalitarismo (Editora Universidade de Brasília, 1994), “quando um projeto político se sustenta apenas pela negação do outro e pela repetição ritualística de seus símbolos, ele deixa de ser uma alternativa e se torna apenas ruído.”
Do colapso estratégico ao improviso político
O esgotamento do bolsonarismo no Congresso coincide com uma tentativa desajeitada de reposicionamento político do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Após embarcar inicialmente em um discurso alinhado a Trump e crítico ao governo federal — inclusive culpando Lula pelas tarifas impostas unilateralmente pelos EUA —, Tarcísio recuou. Anunciou R$ 200 milhões em crédito subsidiado para empresas paulistas atingidas pelo tarifaço e passou a disputar com o Planalto o protagonismo na resposta à crise.
O movimento é revelador. O governador, que flertava com a retórica bolsonarista e tentou explorar o apoio do ex-presidente dos EUA como ativo político, viu-se obrigado a recalibrar a rota após o “apoio” de Trump se converter em sanção econômica contra o Brasil. A ausência de um plano B escancarou o improviso estratégico do Palácio dos Bandeirantes, que agora corre atrás do prejuízo.
Como apontou com acidez um analista político próximo do governo federal: “Tarcísio se mexeu como barata tonta. Só agora achou um norte. Antes, o plano A era bajular Trump e Bolsonaro. Quando isso desandou, ficou sem roteiro.”
A guinada também é sintoma de um fenômeno mais amplo: o esfacelamento da ideia de que a lealdade à extrema direita internacional traria dividendos políticos e econômicos. A realidade impôs seu peso. As medidas protecionistas de Trump não pouparam aliados — nem mesmo os que, como Tarcísio, tentaram culpar Lula pela crise causada por Washington.
Isolamento e crise de identidade da direita bolsonarista
O atual desgaste do clã Bolsonaro no Congresso coincide com sua tentativa de reeditar antigas pautas de enfrentamento institucional. Mas o cenário político mudou. Em 2019, as ameaças ao STF e os acenos a Trump funcionavam como ferramentas de mobilização de base e intimidação de adversários. Hoje, soam anacrônicas, quando não contraproducentes.
O episódio da bandeira norte-americana estendida no plenário da Câmara, com os dizeres “Make America Great Again”, foi um símbolo disso: uma performance que gerou mais constrangimento do que apoio. A tentativa de Eduardo Bolsonaro de atuar como “antiembaixador” nos EUA, fazendo lobby ideológico em plena crise comercial, também caiu mal. As lideranças do Congresso já não estão dispostas a pagar o preço político por aventuras do tipo.
Nesse contexto, cresce o isolamento de Bolsonaro pai, enfraquecido judicialmente e limitado fisicamente por tornozeleira eletrônica; de Bolsonaro filho, engajado numa diplomacia paralela sem legitimidade; e de seus aliados, cada vez mais reféns da lógica do desgaste permanente. Como advertiu o cientista político Sérgio Abranches em entrevista à BBC Brasil: “O bolsonarismo não sobrevive de realizações, mas de antagonismos. Quando não encontra adversário, se autodestrói.”
O esvaziamento da retórica e a retomada do pragmatismo
A resposta institucional do Congresso indica que a política brasileira, apesar de seus ruídos, ainda preserva mecanismos de contenção democrática. Ao evitar dar palco às pautas golpistas e obstruir manobras antirrepublicanas, os presidentes das Casas reafirmam a centralidade do pragmatismo e do respeito às instituições.
Tarcísio, ao revisar sua posição, demonstra que, fora da bolha ideológica, sobrevive quem entrega resultados. O tarifaço evidenciou que acenos simbólicos não sustentam projetos de governo — e que a política internacional não é terreno para devaneios patrióticos invertidos.
A lição parece óbvia, mas precisa ser reiterada: governos existem para proteger seus cidadãos, não para servir de satélite voluntário de potências estrangeiras. O tempo do culto a Trump passou. E, com ele, talvez passe também o ciclo político de uma direita que esqueceu o Brasil em nome de fantasias de grandeza emprestada.
Trump diz que tarifa de 50% é para países “sem boa relação”
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta quinta-feira (23) que as tarifas de 50% impostas pelo seu governo têm como alvo países que, segundo ele, não mantêm uma “boa relação” com os EUA. Embora não tenha sido mencionado diretamente, o Brasil está entre os países atingidos por ameaças de tarifas de 50%.
O presidente também sinalizou que pretende fixar um piso mínimo de 15% para as tarifas externas. “Não é possível negociar acordos com todos [os países]. Então temos uma tarifa simples e direta, [que varia de] 15% a 50%. Em alguns casos, é de 50% porque a relação não tem sido boa com esses países. Apenas dissemos ‘vão pagar 50’. É assim que as coisas são”.
Pelo menos 25 países, a exemplo de parceiros históricos dos EUA, como Canadá e Japão, além da União Europeia, constam na lista.
Brasil trabalha plano de contingência
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deve ter acesso nesta quinta-feira a um plano de contingência em resposta ao tarifaço de 50% imposto pelos EUA sobre produtos brasileiros. As medidas buscam socorrer setores atingidos pelas tarifas.
O plano deve ser apresentado a Lula na semana que vem. Haddad argumenta que o projeto precisa ser avaliado pelos ministérios da Fazenda, do Desenvolvimento, Indústria e Serviços [pasta chefiada por Geraldo Alckmin] e das Relações Exteriores [Rui Costa] antes de ser levado ao Executivo.
“As áreas técnicas dos três ministérios envolvidos [Fazenda, Indústria e Relações Exteriores] vão me apresentar amanhã os detalhes. Provavelmente, semana que vem nós devemos levar para o presidente [Lula]”, afirmou Haddad nesta quarta-feira, sem adiantar detalhes sobre o plano.
O ministro da Fazenda também disse que o Brasil está buscando negociações diretas com secretários americanos, mas que a Casa Branca estaria barrando as conversas. Alckmin, por exemplo, estaria em contato com alguns secretários americanos, mas não teria recebido respostas.
“O Brasil tem um ponto, o Brasil tem razão em querer sentar à mesa, mas que o tema está muito concentrado na assessoria da Casa Branca, daí a dificuldade de entender melhor qual vai ser o movimento [dos EUA]”, argumentou Haddad.
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