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Poder
Bolsonaro está preso, mas extremismo disputará a eleição de novo, diz Lula
Publicado em 21/04/2026 12:02 - Semana On
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O governo brasileiro analisa a possibilidade de expulsar um funcionário dos Estados Unidos em resposta direta à decisão de Washington de determinar a saída imediata de um delegado da Polícia Federal em território americano. A medida, ainda em discussão nos bastidores diplomáticos, é considerada provável por integrantes do Itamaraty, que classificam a ação norte-americana como um sinal negativo nas relações entre os dois países.
Nos círculos diplomáticos e jurídicos, o episódio já é tratado como um dos momentos mais delicados da cooperação policial entre Brasil e Estados Unidos. A reação brasileira ganhou contornos mais explícitos após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, durante agenda na Alemanha, indicou que a reciprocidade está no radar do governo. Segundo ele, eventual abuso por parte das autoridades americanas pode levar a uma resposta equivalente. Lula também ressaltou a necessidade de preservar a soberania nacional diante do que classificou como tentativa de ingerência externa.
A crise teve início quando o governo de Donald Trump anunciou, por meio de redes sociais, que havia solicitado a expulsão de um “funcionário brasileiro”. Embora o comunicado oficial não tenha identificado o alvo nem detalhado as razões, especula-se que se trata de Marcelo Ivo, delegado da Polícia Federal baseado em Miami. Ele teria atuado em ações relacionadas à prisão de Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin, atualmente nos Estados Unidos.
Ivo já teria deixado o país rumo ao Brasil. Ramagem, por sua vez, foi detido por agentes do serviço de imigração americano, mas acabou liberado após pressão política de aliados ligados ao bolsonarismo. Ele permanece em território americano enquanto aguarda a análise de um pedido de asilo.
Em nota divulgada nas redes sociais, o Departamento de Estado afirmou que nenhum estrangeiro pode utilizar o sistema migratório dos EUA para contornar processos formais de extradição ou ampliar disputas políticas para dentro do país. A justificativa indica que o delegado brasileiro teria tentado enquadrar o caso de Ramagem como uma questão migratória — devido a visto vencido — em vez de um processo de extradição, o que implicaria análise jurídica mais ampla, inclusive com participação do Supremo Tribunal Federal.
No foreigner gets to game our immigration system to both circumvent formal extradition requests and extend political witch hunts into U.S. territory. Today, we have asked that the relevant Brazilian official depart our nation for attempting to do that.
— Bureau of Western Hemisphere Affairs (@WHAAsstSecty) April 20, 2026
O episódio também provocou irritação em setores mais alinhados à ala ideológica da Casa Branca, especialmente após a Polícia Federal brasileira ter divulgado que a prisão de Ramagem resultou de cooperação bilateral. Nos bastidores, essa narrativa foi interpretada como um movimento político sensível.
A repercussão teve efeitos imediatos no campo político. O deputado licenciado Eduardo Bolsonaro reagiu publicamente com tom de comemoração nas redes sociais. Já Paulo Figueiredo, aliado do bolsonarismo e neto do ex-presidente João Figueiredo, classificou o episódio como a maior crise entre os dois países desde o caso Magnitsky, além de confirmar a identidade do delegado envolvido.
Ambos atuaram recentemente junto a interlocutores nos Estados Unidos para pressionar por medidas mais duras contra o Brasil, incluindo sanções e tarifas — um movimento que adiciona um componente político à crise diplomática.
O desgaste entre Brasília e Washington já vinha se acumulando. No mês anterior, o governo brasileiro havia revogado o visto de Darren Beattie, enviado da administração Trump ao Brasil. A decisão foi motivada pela omissão, segundo autoridades brasileiras, do real objetivo da viagem: visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que se encontra preso.
Beattie, de acordo com fontes diplomáticas, teria desempenhado papel central na pressão para a liberação de Ramagem e na articulação que levou à revogação do visto do delegado brasileiro.
O acúmulo de episódios aprofunda o distanciamento entre os dois governos. Até o momento, não há previsão para um encontro entre Lula e Trump, e a possibilidade de uma visita oficial do presidente brasileiro à Casa Branca parece cada vez mais remota diante da escalada de tensões.
Flávio como risco democrático
Dias antes de iniciar sua agenda europeia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já indicava como pretendia lidar com uma eventual interferência externa no cenário brasileiro. Ao comentar a possibilidade de envolvimento de Donald Trump na disputa eleitoral, afirmou que tal movimento poderia favorecê-lo.
Ao longo da viagem, Lula combinou compromissos internacionais com intervenções voltadas ao público doméstico, operando uma estratégia de dupla audiência. De um lado, tratou de temas multilaterais; de outro, moldou um discurso com claros alvos na política brasileira, especialmente na órbita do bolsonarismo. A decisão dos Estados Unidos envolvendo o delegado da Polícia Federal foi incorporada a esse roteiro como evidência de alinhamentos políticos que o presidente busca expor.
Durante passagem pela Espanha, Lula elevou o tom ao tratar o avanço de correntes extremistas de direita como uma ameaça persistente às instituições democráticas. Sem mencionar diretamente seus adversários, fez referências a lideranças que, segundo ele, continuam ativas e organizadas para futuras disputas eleitorais. No mesmo movimento, criticou o papel de Trump no cenário internacional, associando suas decisões a impactos econômicos globais que atingem, sobretudo, populações mais vulneráveis.
A construção desse discurso dialoga com experiências recentes no cenário internacional. A derrota de Viktor Orbán na Hungria foi interpretada por aliados do governo como um sinal de desgaste de lideranças alinhadas ao trumpismo. Internamente, o Planalto tenta reproduzir essa leitura ao caracterizar a associação com o ex-presidente americano como um ativo político de risco.
Ao mesmo tempo, Lula busca reativar a narrativa que foi central em sua vitória anterior: a defesa da democracia como eixo mobilizador. Em fórum realizado em Barcelona, o presidente mencionou episódios recentes envolvendo autoridades brasileiras condenadas ou investigadas por tentativa de ruptura institucional, reforçando a ideia de que o ambiente político ainda comporta ameaças.
O discurso incluiu críticas a atores políticos que, segundo ele, adotam um discurso patriótico enquanto apoiam medidas externas prejudiciais ao país, além de disseminarem desinformação e relativizarem violações de direitos. A retórica foi calibrada para dialogar com um segmento específico do eleitorado: os independentes, que tiveram papel decisivo na eleição anterior.
Dados recentes de pesquisas indicam, contudo, uma mudança nesse grupo. A percepção de moderação associada a Flávio Bolsonaro apresenta sinais de crescimento, ainda que tímidos, enquanto a vantagem que Lula mantinha entre esses eleitores se reduziu e, em alguns levantamentos, foi revertida. O movimento sugere um cenário mais competitivo e reforça a necessidade, por parte do governo, de consolidar sua narrativa.
Nesse ambiente, a crise diplomática deixa de ser apenas um episódio de política externa e passa a integrar uma estratégia mais ampla, na qual relações internacionais, discurso ideológico e cálculo eleitoral se entrelaçam.
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