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Investigação aponta possível desvio de recursos de programa de internet gratuita para financiar produção cinematográfica ligada ao ex-presidente
Publicado em 01/06/2026 5:45 - Semana On
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Uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo abriu uma nova frente de questionamentos sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, ao levantar a hipótese de que recursos públicos destinados à expansão do acesso gratuito à internet em áreas periféricas da capital paulista possam ter sido desviados para custear a produção audiovisual.
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A suspeita surge no âmbito da Operação Wi-Fi, deflagrada pela polícia paulista e articulada com outras apurações em andamento na Polícia Federal. O foco recai sobre um contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), inicialmente no valor de R$ 108 milhões e que, após aditivos, alcançou R$ 157,1 milhões.
O instituto é presidido por Karina Ferreira da Gama, que também figura como proprietária da Go UP Entertainment, produtora responsável pelo filme sobre a trajetória do ex-presidente. Para os investigadores, a coincidência societária representa um dos principais elementos que justificam o aprofundamento das apurações.
Segundo relatório policial, existem indícios considerados consistentes de confusão patrimonial entre o ICB e a produtora cinematográfica. Diante dessa suspeita, o delegado responsável solicitou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) uma análise detalhada das movimentações financeiras da organização, com o objetivo de verificar se recursos públicos destinados ao programa de inclusão digital foram utilizados para financiar o longa-metragem.
A investigação também examina a execução do contrato. Embora tenha sido contratada para instalar pontos de acesso gratuito à internet, a entidade não possuía atuação reconhecida na área de telecomunicações e terceirizou parte significativa dos serviços. Entre as empresas subcontratadas, há companhias pertencentes a um mesmo casal ligado à própria Karina Ferreira da Gama.
Os investigadores trabalham com a hipótese de que cerca de R$ 26 milhões tenham sido pagos sem a correspondente prestação efetiva dos serviços contratados. A suspeita reforça questionamentos sobre a fiscalização do contrato e sobre a destinação final dos recursos públicos envolvidos.
Além da execução contratual, a própria licitação passou a ser alvo de escrutínio. De acordo com as investigações, o certame contou apenas com a participação do Instituto Conhecer Brasil. Os documentos analisados indicam ainda que a organização não possuía experiência prévia relevante no setor de telecomunicações, concentrando sua atuação anterior em feiras literárias e eventos de caráter religioso ou cultural.
Esse conjunto de circunstâncias alimenta suspeitas de possível direcionamento do processo licitatório, hipótese que também integra o escopo das apurações.
As investigações sobre o financiamento do filme não se limitam, entretanto, ao contrato firmado pela Prefeitura de São Paulo. A Polícia Federal já examinava outra linha de recursos relacionada à produção cinematográfica.
O foco dessa frente de investigação envolve os R$ 61 milhões efetivamente transferidos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para o projeto do filme. O repasse ocorreu após solicitação feita pelo senador Flávio Bolsonaro, embora o valor inicialmente pretendido chegasse a R$ 134 milhões.
Os investigadores apuram se parte desses recursos teria sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, país para onde o ex-deputado se mudou em 2025.
Eduardo Bolsonaro responde a processo no Supremo Tribunal Federal sob acusação de coação no curso do processo. A acusação sustenta que ele teria atuado para estimular a adoção de sanções internacionais contra autoridades brasileiras e contra o próprio Brasil com o objetivo de influenciar o julgamento envolvendo seu pai.
Nesse contexto, a permanência do ex-parlamentar em território norte-americano e suas articulações políticas passaram a integrar o debate sobre a origem e a destinação dos recursos relacionados ao projeto cinematográfico.
Outra fonte de recursos vinculada ao filme também está sob análise. O roteiro de Dark Horse foi escrito pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), parlamentar que destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil.
Os repasses são objeto de investigação no Supremo Tribunal Federal em procedimento conduzido pelo ministro Flávio Dino, que apura possíveis irregularidades na utilização de emendas parlamentares.
Dessa forma, as investigações identificam ao menos três fluxos financeiros potencialmente conectados ao financiamento do filme: os R$ 157,1 milhões do contrato da Prefeitura de São Paulo com o ICB, os R$ 61 milhões transferidos por Daniel Vorcaro para o projeto e os R$ 2 milhões provenientes de emendas parlamentares destinadas por Mário Frias à entidade.
A ampliação das suspeitas provocou reações políticas imediatas.
O senador Flávio Bolsonaro rejeitou qualquer relação entre a investigação conduzida pela Polícia Civil paulista e a produção do filme sobre seu pai. Já o prefeito Ricardo Nunes afirmou que as acusações seriam motivadas por perseguição política e chegou a associar a operação a um suposto desrespeito aos princípios democráticos.
A argumentação do prefeito, contudo, encontra resistência entre observadores do caso pelo fato de a investigação ser conduzida por uma corporação subordinada ao governador Tarcísio de Freitas, aliado político tanto de Nunes quanto da família Bolsonaro.
O governador, além de manter proximidade com o prefeito da capital, exerce papel relevante na articulação política do campo bolsonarista. Esse contexto torna politicamente delicada a tese de perseguição, já que a investigação parte de uma estrutura de segurança vinculada a um governo alinhado aos mesmos grupos políticos atingidos pelas suspeitas.
A Prefeitura de São Paulo declarou que o contrato observou os princípios da legalidade e afirmou repudiar as acusações. A gestão municipal, entretanto, também enfrenta questionamentos por não ter apresentado dentro do prazo documentos solicitados em março para esclarecimentos sobre a contratação.
O caso reúne ingredientes que ultrapassam uma discussão administrativa sobre contratos públicos. As suspeitas envolvem a possível utilização de recursos originalmente destinados a políticas públicas de inclusão digital para financiar uma produção cinematográfica ligada a um ex-presidente da República, enquanto diferentes órgãos investigam a origem, o trânsito e a aplicação dos recursos.
À medida que as apurações avançam, aumenta a pressão para que sejam esclarecidas as conexões entre o contrato da Prefeitura, os recursos privados destinados ao filme, as emendas parlamentares e a estrutura financeira que sustentou a produção de Dark Horse. O desfecho das investigações poderá determinar se as suspeitas se restringem a irregularidades administrativas ou se apontam para um esquema mais amplo de desvio e utilização indevida de recursos públicos.
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