Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Poder

Congresso hipertrofiado: poder demais, responsabilidade de menos

Como o legislativo assumiu o orçamento e agravou a crise de governabilidade

Publicado em 04/07/2025 9:26 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

“Uma espécie de juiz-travão.” Foi assim que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, se definiu com ironia durante sua participação no Fórum de Lisboa. A imagem, embora bem-humorada, traduz o impasse grave da política brasileira: em meio a sucessivas crises institucionais, o Judiciário tem assumido o papel de contenção de um sistema corroído por disfunções entre os Poderes — e, no centro desse desequilíbrio, estão as emendas parlamentares.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Dino, ex-governador do Maranhão e hoje um dos principais nomes do STF, não poupou críticas à forma como o orçamento federal tem sido apropriado pelo Congresso Nacional, transformando o Brasil em uma anomalia democrática. Segundo ele, há uma “necessidade de revisão do modelo”, pois desde que as emendas impositivas foram criadas, o país tem enfrentado dificuldades constantes de governabilidade — independentemente do partido no poder.

“É muito difícil para várias posições políticas e pensamento acadêmico — e para a sociedade como um todo — encontrar uma forma de não vivermos em crises de governabilidade permanentes. Isso parece ser uma tendência”, afirmou o ministro.

O nascimento de uma disfunção

As emendas parlamentares sempre fizeram parte do jogo político brasileiro, mas até 2015 tinham caráter facultativo: dependiam da boa vontade do Executivo em liberá-las. A crise de governabilidade enfrentada pela presidenta Dilma Rousseff naquele ano levou à criação das emendas individuais impositivas, um mecanismo que obrigava o governo a liberar os recursos indicados por cada parlamentar. A medida, vista à época como uma tentativa de garantir apoio no Congresso, acabou inaugurando uma dependência estrutural do Executivo em relação ao Legislativo — uma inversão perversa da lógica democrática.

Em 2019, já sob o governo de Jair Bolsonaro, essa lógica foi aprofundada. As emendas de bancada também se tornaram impositivas, e o chamado “centrão” — bloco informal de partidos de perfil fisiológico — assumiu papel central na articulação política. Vale lembrar que no início do governo Bolsonaro, o então presidente ainda hostilizava o Congresso. A passeata de 26 de maio daquele ano, convocada com viés golpista, mirava justamente o Legislativo e o Supremo. Na época, o general Augusto Heleno, então chefe do GSI, entoava a provocativa marchinha: “Se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”.

O discurso mudou. Pressionado pela necessidade de formar maioria e aprovar sua pauta econômica, Bolsonaro acabou se aliando ao centrão — e esse acordo informal resultou na criação do que viria a ser conhecido como “orçamento secreto”: emendas do relator sem critérios claros de distribuição, transformadas em moeda de troca política.

Segundo levantamento da Agência Pública (2021), o orçamento secreto chegou a movimentar mais de R$ 30 bilhões em dois anos, sem transparência nem critérios objetivos. Em entrevista à Folha de S.Paulo naquele período, a procuradora do Ministério Público junto ao TCU, Élida Graziane, afirmou: “Isso é o sequestro do orçamento por interesses particulares. É a morte da institucionalidade”.

Lula e a continuação da chantagem

Em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu seu terceiro mandato com um Congresso ainda mais conservador do que em mandatos anteriores. Dos 513 deputados eleitos, apenas cerca de 1/3 são identificados com posições progressistas — e nem todos confiáveis à base governista. O resultado foi uma ampliação da pressão por liberação de emendas, inclusive das chamadas emendas de comissão, que, embora não tenham se tornado obrigatórias por lei, passaram a ser exigidas na prática.

A gestão Lula, assim como as anteriores, viu-se forçada a ceder para garantir a aprovação de pautas mínimas no Congresso. E mesmo diante do debate sobre corte de gastos e responsabilidade fiscal, as emendas permanecem intocadas. Pior: o Legislativo agora tenta avançar ainda mais, pressionando o governo a incluir emendas sobre verbas discricionárias dos ministérios, como se o Congresso assumisse, de fato, a função de executor do orçamento federal.

Um desequilíbrio institucional sem paralelo

A crítica central, compartilhada por analistas de diversas correntes ideológicas, não está na existência das emendas, mas em seu uso distorcido. Como apontou Flávio Dino, o que se vê é o Congresso exercendo funções que cabem ao Executivo, sem a devida responsabilização pública. Em regimes democráticos consolidados, mesmo no parlamentarismo, o orçamento é formulado e executado pelo governo — e não por parlamentares individuais ou blocos de interesses.

O jurista e professor Oscar Vilhena Vieira, da FGV-SP, já alertava em 2022: “Não existe democracia sem separação clara entre os Poderes e sem responsabilidade fiscal transparente. A captura do orçamento pelo Parlamento é uma distorção institucional grave”.

A situação brasileira, portanto, é inusitada até mesmo entre países com instituições frágeis. Não se trata apenas de um sistema disfuncional — mas de um risco real à estabilidade democrática, onde o Executivo é chantageado, o Congresso legisla em causa própria e o Judiciário se vê compelido a intervir como freio de emergência.

O futuro do orçamento e da democracia

Ao fim, a fala de Dino escancara o problema que muitos se recusam a enfrentar: a governabilidade no Brasil está sequestrada por um modelo de emendas que rompe com os princípios republicanos de responsabilidade, transparência e separação de Poderes.

Reformar esse sistema exige coragem política — algo raro num ambiente em que os próprios beneficiários da distorção comandam as reformas. Como afirmou o cientista político Cláudio Couto, da FGV: “O orçamento secreto é um tumor institucional. Mas mexer nisso implica enfrentar quem opera o bisturi”.

Enquanto isso, a democracia segue sendo minada por dentro, disfarçada sob o manto de acordos institucionais, e o país se vê condenado a viver, como disse Dino, em uma crise de governabilidade permanente — o que é, por si só, uma ameaça constante à construção de um Estado democrático de direito.

Mais deputados, menos democracia

Em meio ao agravamento das tensões institucionais, o Congresso Nacional aprovou um projeto de lei que amplia de 513 para 531 o número de deputados federais, já a partir das eleições de 2026. A medida, tomada em um momento de grave restrição fiscal e ampla demanda por responsabilidade pública, evidencia o avanço de um corporativismo legislativo que se coloca acima das urgências da sociedade. Nas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está agora a decisão: sancionar, vetar ou simplesmente silenciar. Mas o silêncio, nesse caso, diz muito — e custa caro à democracia.

Lula tem até o dia 16 de julho para decidir o destino da proposta. De acordo com aliados, a tendência mais provável é que ele não sancione nem vete — estratégia que permite que o projeto seja promulgado diretamente pelo Congresso, transferindo ao Legislativo a responsabilidade exclusiva pelo aumento. Trata-se, claramente, de uma escolha política.

Um eventual veto presidencial seria facilmente derrubado pela maioria congressual, gerando manchetes desfavoráveis como “Lula perde mais uma” e reforçando a imagem de um Executivo acuado. Não por acaso, uma fonte da base governista recorreu à ironia: “Sabemos que ‘governabilidade’ é uma palavra pichada com sangue e fezes nos muros do inferno”. A frase resume a armadilha na qual o Planalto se encontra: confrontar o Congresso significa abrir nova frente de conflito; ceder, por outro lado, é normalizar abusos sucessivos.

Interesse corporativo disfarçado de reajuste democrático

Tecnicamente, não há qualquer justificativa republicana, fiscal ou democrática para o aumento de cadeiras. A própria redistribuição das vagas entre estados poderia ser feita sem a criação de novos assentos, mas isso implicaria que alguns estados perderiam representação — algo que comprometeria a reeleição de parlamentares atuais. Assim, o projeto aprovado funciona, essencialmente, como uma reserva de mercado para os que já ocupam o Congresso.

Essa lógica ignora o que ocorre em democracias minimamente maduras, onde o redimensionamento das cadeiras se baseia em critérios demográficos e de representatividade, não em autoproteção eleitoral. Como bem define um analista político ouvido pela reportagem: “Eles não querem disputar. Querem garantir que fiquem. Como se permanência no Congresso fosse um direito adquirido”.

Um Congresso hipertrofiado: poder demais, responsabilidade de menos

A decisão de ampliar o número de deputados não é um caso isolado. Vem acompanhada de outras iniciativas igualmente danosas: o aumento de R$ 168 milhões no fundo partidário, por exemplo, aprovado sem alarde. Ou a inserção de “jabutis” legislativos — dispositivos que, segundo o governo, foram responsáveis por elevar os custos da energia elétrica, favorecendo lobbies poderosos.

Essa conduta ilustra o que já foi chamado por comentaristas de “a vaca louca da democracia brasileira”: um Congresso que consome atribuições que não lhe cabem e interfere de forma cada vez mais agressiva na administração pública, sem assumir responsabilidades pelas consequências. A metáfora remete à encefalopatia espongiforme bovina, doença causada pela ingestão de proteínas estranhas, que provoca colapso neurológico — e é uma imagem dura, mas precisa.

Raízes históricas do desequilíbrio entre os Poderes

Essa hipertrofia legislativa tem história. Em entrevista ao canal Reconversa, o professor Gilberto Bercovici, da Faculdade de Direito da USP, detalha como o Poder Executivo brasileiro foi sendo enfraquecido ao longo das décadas, perdendo não apenas protagonismo, mas também capacidade de formular políticas públicas de longo prazo. O fenômeno se intensificou com a criação das emendas parlamentares impositivas (a partir de 2015), o avanço do orçamento secreto (a partir de 2019) e, mais recentemente, com a tentativa do Congresso de controlar até verbas discricionárias dos ministérios.

Esse deslocamento de poder rompe com os princípios republicanos da separação entre os Poderes e da responsabilidade fiscal. Em nenhuma democracia consolidada o Parlamento assume a execução direta do orçamento público. Como bem pontuou o jurista Oscar Vilhena Vieira em artigo para a Revista Piauí (nº 180): “A captura do orçamento pelo Legislativo é uma distorção institucional grave”.

A erosão democrática sob o disfarce da institucionalidade

Enquanto se discute o aumento de cadeiras e os limites do presidencialismo de coalizão, o essencial parece ausente do debate: qual o impacto dessas decisões para o cidadão comum? Em um país com mais de 40 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar e uma máquina pública sobrecarregada, criar novas vagas parlamentares é mais do que um despropósito — é um insulto.

A fala recente do ministro Flávio Dino, no Fórum de Lisboa, sintetiza bem a crise: “Está muito difícil para a sociedade encontrar uma forma de não vivermos em crises de governabilidade permanentes. Isso parece ser uma tendência”. E é mesmo. Porque essa crise deixou de ser conjuntural. Tornou-se estrutural e funcional ao sistema político vigente.

Ao optar por não sancionar nem vetar, Lula poderá proteger momentaneamente seu governo de mais uma derrota simbólica. Mas também reforçará o padrão de omissão diante da escalada autorreferente do Congresso. A governabilidade, nesse cenário, torna-se refém de um Legislativo que legisla em causa própria, executa orçamento, sabota o Executivo e se declara, ainda assim, fiscal dos excessos alheios.

Mais do que uma disputa de protagonismo, trata-se de uma crise de projeto de país. Em que os poderes democráticos, em vez de se conterem mutuamente, avançam sobre suas fronteiras com ganância. Em que a política se afasta da cidadania e se aproxima do feudalismo. Em que os mandatos se eternizam — não por mérito ou voto, mas por arquitetura institucional feita sob medida para manter tudo como está.

Lula precisa vetar aumento do número de deputados


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *