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Projetos aprovados criam gratificações e licenças que levam a remunerações acima do teto constitucional
Publicado em 04/02/2026 8:47 - Semana On
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Projetos aprovados pelo Congresso Nacional na terça-feira (3) reestruturam carreiras e alteram o sistema de remuneração de servidores da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, abrindo espaço para que parte desses funcionários receba valores superiores ao teto constitucional do funcionalismo público, atualmente fixado em R$ 46.366,19 — equivalente ao subsídio de ministros do Supremo Tribunal Federal. Na prática, os novos mecanismos podem permitir que servidores ganhem mais do que deputados e senadores, cujo subsídio é de R$ 44.008,52.
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A proposta relativa ao Senado já foi aprovada pelas duas Casas e segue para sanção presidencial. O texto da Câmara, embora aprovado pelos deputados, ainda depende de análise do Senado. Ambas as votações ocorreram de forma simbólica, sem registro individual de votos.
Gratificações e licenças ampliam remuneração fora do teto
A principal controvérsia dos projetos está na ampliação de mecanismos que escapam do cálculo do teto constitucional. Entre eles, destacam-se a criação ou expansão de gratificações calculadas como percentuais elevados sobre o vencimento básico e a chamada licença compensatória — um instrumento que permite converter dias de folga em indenização financeira, classificada como verba indenizatória. Por esse enquadramento jurídico, os valores não integram a base previdenciária nem sofrem incidência de Imposto de Renda.
Embora a Constituição proíba que servidores públicos recebam acima do teto, brechas legais têm permitido, ao longo dos anos, a proliferação de adicionais e indenizações — os chamados “penduricalhos” — que elevam a remuneração total sem violação formal da regra constitucional.
Câmara dos Deputados: novo desenho salarial e licença indenizável
No caso da Câmara, o Projeto de Lei 179/2026 promove uma reestruturação ampla do sistema remuneratório. O texto combina reajuste do vencimento básico com mudanças em gratificações e adicionais. Segundo o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), o impacto médio do reajuste deve girar em torno de 9%.
Entre as principais alterações está a criação da Gratificação de Desempenho e Alinhamento Estratégico (GDAE), que pode variar entre 40% e 100% do maior vencimento básico do cargo efetivo, aplicável a analistas e técnicos legislativos. A depender da regulamentação e da distribuição dos percentuais, o novo modelo permite ganhos significativamente superiores aos atuais.
O projeto também extingue a Gratificação de Representação, altera a base de cálculo do Adicional de Especialização — agora vinculada ao maior vencimento do cargo — e promove reenquadramentos funcionais com novas tabelas salariais. No debate público, foram mencionados valores iniciais de R$ 14.008,22 para analistas e R$ 8.825,18 para técnicos legislativos.
O ponto mais sensível, porém, é a licença compensatória destinada a servidores efetivos que ocupem funções comissionadas de nível FC-4 ou superior. A regra prevê até um dia de licença a cada três dias trabalhados, com limite de dez dias por mês. O benefício pode ser usufruído conforme o interesse da administração ou convertido em indenização em dinheiro, calculada proporcionalmente à remuneração — sem incidência de imposto ou contribuição previdenciária e sem incorporação para aposentadoria.
Críticos apontam que esse modelo transforma folgas em pagamento extra fora do teto, ampliando a parcela “extrateto” da remuneração. O deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), relator da reforma administrativa, registrou voto contrário ao projeto, afirmando que a licença compensatória cria penduricalhos incompatíveis com o discurso de racionalização do gasto público.
Já o presidente da Câmara defendeu a medida sob o argumento de isonomia, citando reajustes recentes concedidos a outras carreiras do serviço público. Segundo ele, cerca de 72 servidores poderiam ultrapassar o teto com as novas regras. O relator do projeto, deputado Alberto Fraga (PL-DF), afirmou que o impacto fiscal é baixo — cerca de 0,03% da Receita Corrente Líquida — e que as despesas serão absorvidas pelo orçamento já existente.
Senado: reajuste escalonado e licença com faixa variável
No Senado, o Projeto de Lei 6.070/2025 prevê recomposição escalonada do vencimento básico entre 2026 e 2029, além da reestruturação de gratificações e da criação de licença compensatória. O modelo estabelece acréscimos anuais e foi apresentado com exemplos de evolução salarial tanto para cargos de entrada quanto para funções de topo.
A licença compensatória no Senado é vinculada ao exercício de funções relevantes e ao acúmulo de atividades extraordinárias. O texto prevê um mínimo de um dia de licença a cada dez dias trabalhados e um máximo de um dia a cada três dias, aplicável a servidores em cargos comissionados ou de assessoramento superior. Assim como na Câmara, há possibilidade de conversão do benefício em indenização financeira.
A indenização é considerada o ponto mais sensível do projeto, por permitir pagamentos adicionais associados a funções estratégicas e, dependendo da regulamentação, contribuir para remunerações acima do teto constitucional.
Supersalários e a controvérsia jurídica
O debate sobre o teto não gira apenas em torno do valor nominal da remuneração, mas da classificação das parcelas. Quando benefícios são enquadrados como indenizatórios ou não incorporáveis à aposentadoria, eles ficam fora do alcance direto do teto constitucional. É essa engenharia jurídica — somando vencimentos, gratificações e indenizações — que sustenta a discussão recorrente sobre supersalários no serviço público.
Os dois projetos reforçam esse modelo ao ampliar instrumentos que elevam a remuneração total de servidores em posições estratégicas. O embate político se divide entre a defesa de uma recomposição salarial considerada necessária e fiscalmente administrável e a crítica à multiplicação de benefícios acessórios que fragilizam a credibilidade do teto constitucional.
Choque com a reforma administrativa
As críticas ganham peso político porque partem do relator da reforma administrativa em discussão na Câmara. Pedro Paulo sustenta que os projetos do Legislativo caminham na direção oposta ao que propõe a reforma, cujo eixo central é justamente o combate aos supersalários e às distorções remuneratórias.
O pacote relatado pelo deputado inclui uma proposta de emenda à Constituição, um projeto de lei e um projeto de lei complementar. Entre as medidas previstas estão limites para auxílios, proibição de conversão de licenças e férias em dinheiro, vedação a pagamentos retroativos sem decisão judicial, fim de progressões automáticas por tempo de serviço e auditoria permanente das folhas de pagamento.
Para o parlamentar, ao criar licenças indenizáveis e ampliar gratificações, o Congresso envia um sinal contraditório à sociedade, especialmente em um momento de debate sobre responsabilidade fiscal e equidade no serviço público.
Debate deve continuar
Com o texto do Senado à espera de sanção presidencial e o da Câmara ainda pendente de votação no Senado, a discussão tende a se intensificar. O ponto central permanece o mesmo: a possibilidade de que servidores do Legislativo recebam acima do subsídio parlamentar e do teto constitucional, alimentando o debate público sobre privilégios, transparência e o real alcance das regras que deveriam limitar os supersalários no Estado brasileiro.
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