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Poder

Condenação de Bolsonaro e cúmplices é vitória da civilidade

STF definirá as penas e onde elas serão cumpridas, mas é preciso evitar que os condenados fujam

Publicado em 11/09/2025 4:30 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Com o voto da ministra Cármen Lúcia, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria nesta quinta-feira (11) para condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros sete aliados pela tentativa de golpe de Estado para reverter o resultado das eleições de 2022. Trata-se de um marco judicial sem precedentes na história recente do Brasil, envolvendo um ex-chefe de Estado e membros do alto comando militar.

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Além de Bolsonaro, a maioria dos ministros votou pela condenação do general Braga Netto, dos ex-ministros Anderson Torres, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Alexandre Ramagem, do ex-comandante da Marinha Almir Garnier e do ex-ajudante de ordens Mauro Cid. Todos foram responsabilizados por participação ativa na conspiração golpista que visava sabotar o processo eleitoral e manter Bolsonaro no poder após a derrota nas urnas para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2022.

Para Cármen Lúcia, a Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou “prova cabal” da tentativa de golpe, liderada por Bolsonaro. Em seu voto, afirmou que o grupo “desenvolveu e implementou plano progressivo e sistemático” de ataque às instituições. “A tentativa de desmoralizar o processo eleitoral é isso: uma tentativa marcada de combalir mais e mais o Poder Judiciário, com uma série de comportamentos delituosos que foram se encadeando”, disse.

O ministro Cristiano Zanin, presidente da Primeira Turma, sinalizou voto favorável à condenação, completando a maioria necessária. Ele destacou que Bolsonaro incitou ataques ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes durante discurso na Avenida Paulista, no feriado de 7 de setembro de 2021, caracterizando crime contra o Estado democrático de Direito.

Condenação sem precedentes

A decisão do STF representa a primeira condenação formal de um ex-presidente da República e de uma cúpula militar por tentativa de golpe desde a redemocratização. Também é a primeira vez que uma tentativa de ruptura institucional é julgada com base na Lei nº 14.197/2021, que atualizou os crimes contra o Estado democrático de Direito, substituindo a antiga Lei de Segurança Nacional.

A sentença, se confirmada em definitivo, inaugura um novo paradigma no tratamento das ameaças autoritárias no país. Em vez de recorrer à repressão ou a estados de exceção, o Brasil respondeu ao ataque institucional por meio do devido processo legal, com ampla defesa, transparência e publicidade — inclusive com sessões transmitidas ao vivo, em tempo real, para toda a população.

É uma resposta institucional que contrasta com a tradição latino-americana de golpes militares e rupturas autoritárias. No Brasil, episódios como o golpe de 1964, que instaurou 21 anos de ditadura, ou o fechamento do Congresso Nacional em 1937 por Getúlio Vargas, sempre ocorreram sem responsabilização formal de seus autores. O STF rompe, agora, com essa lógica de impunidade.

Um julgamento com data simbólica

A condenação ocorre em 11 de setembro, data carregada de memória trágica para a América Latina. Em 1973, o general Augusto Pinochet liderou um golpe militar no Chile que derrubou o governo eleito de Salvador Allende, instaurando uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos. “O destino, astuto, quis que essa condenação ocorresse numa data marcante para a memória latino-americana”, destacou um trecho de nota de juristas enviada ao STF.

A evocação histórica reforça o peso simbólico da decisão brasileira. A comparação com o Chile de Pinochet, a Argentina de Jorge Videla ou a Bolívia de Banzer serve como alerta: a democracia, como já dizia o poeta uruguaio Eduardo Galeano, “não vem inscrita na certidão de nascimento de ninguém”. Ela exige vigilância permanente — sobretudo em um continente que sofreu mais de 60 golpes de Estado apenas no século 20.

Democracia sob ataque

A condenação também é resposta a uma ofensiva que não começou — nem terminará — com Bolsonaro. A extrema direita brasileira tem se articulado em redes transnacionais, mobilizando discurso antissistema, desinformação e ataques sistemáticos às instituições democráticas. Desde 2018, o Brasil tem sido palco de ataques à imprensa, ameaças a ministros do STF e campanhas difamatórias contra o processo eleitoral.

Para o cientista político Leonardo Avritzer, professor da UFMG, “o bolsonarismo representa uma ruptura com a tradição liberal-conservadora brasileira, pois abandona a regra do jogo democrático e tenta capturar o Estado por dentro”. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Avritzer afirma que o STF tem exercido um “papel de contenção essencial para a sobrevivência do regime democrático”.

Um freio necessário

A decisão do Supremo impõe um limite institucional às tentativas de ruptura, traçando uma linha clara: não há espaço para golpismo no ordenamento jurídico brasileiro. Mais que punir, o julgamento tem caráter pedagógico — busca restaurar a confiança pública na democracia e sinaliza a intolerância com ameaças autoritárias vindas de qualquer setor.

“Não se aplicou a vingança, não se suspendeu a eleição e nem o caminho foi o da falsa pacificação. O instrumento foi a Justiça”, como pontua um trecho do voto de Cármen Lúcia, ecoando uma escolha deliberada pelo caminho institucional.

A decisão também desmente a tese da “judicialização da política” como excessiva. Neste caso, foi o sistema político que falhou — e coube ao Judiciário cumprir o papel que a Constituição lhe atribui: proteger a ordem democrática.

Um passo, não o fim

A condenação não é ponto final. A ameaça autoritária continua presente e adaptada aos novos tempos — muitas vezes travestida de discursos moralistas, linguagem religiosa ou retórica “patriótica”. A democracia brasileira, ainda jovem e vulnerável, exige vigilância ativa.

Mas, neste histórico 11 de setembro, ela deu um passo importante. Como lembrou a ministra Cármen Lúcia: “a Constituição não é uma promessa, é um pacto. E pactos se cumprem”.

Onde ele cumprirá sua pena?

A possibilidade de Jair Bolsonaro cumprir sua pena em prisão domiciliar sofreu um duro revés após a escalada de tensões diplomáticas provocada por medidas do presidente norte-americano Donald Trump. Ao anunciar um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros e incluir o ministro Alexandre de Moraes na lista de sanções da Lei Magnitsky, Trump não apenas tensionou as relações bilaterais com o Brasil — ele também impactou diretamente o andamento do caso mais sensível da história recente do Supremo Tribunal Federal.

Até então, ministros da Corte vinham mantendo diálogo reservado com interlocutores próximos a Bolsonaro sobre a possibilidade de evitar a detenção em regime fechado, sobretudo diante do temor declarado do ex-presidente de ser enviado ao Complexo da Papuda. Segundo apuração da jornalista Mônica Bergamo (Folha de S.Paulo), Bolsonaro manifestou pânico com essa possibilidade, alegando riscos à sua integridade física e dificuldade de acesso a cuidados médicos adequados, mesmo que ficasse isolado dos demais presos.

Mas as manobras internacionais do aliado Trump — incentivadas ativamente por Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente — foram lidas no STF como tentativa deliberada de obstrução de Justiça, intimidação institucional e coação direta ao relator do caso, Alexandre de Moraes.

“Depois disso, ficou impossível qualquer proposta alternativa”, disse um magistrado a Bergamo, sob condição de anonimato. Como relator da ação penal, Moraes é o responsável por determinar o regime de cumprimento da pena. Com a pressão externa, qualquer flexibilização passou a ser interpretada como sinal de fraqueza ou recuo diante de ameaças à soberania da Justiça brasileira.

Prisão, mas quando?

Apesar da condenação por golpe de Estado e outros quatro crimes, Bolsonaro e os demais réus só deverão começar a cumprir suas penas após o trânsito em julgado — ou seja, quando todos os recursos forem analisados. Até lá, continuam em liberdade.

No momento, a Primeira Turma do STF se debruça sobre a dosimetria das penas. Cada ministro apresenta individualmente sua proposta de punição para cada réu. Segundo o ministro Flávio Dino, há “níveis de culpabilidade diferentes” entre os envolvidos. Para ele, Bolsonaro e o general Braga Netto desempenharam “papel dominante” na tentativa de ruptura institucional e devem receber penas mais severas. Já generais como Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, além do deputado Alexandre Ramagem, devem ter punições proporcionais ao seu envolvimento.

Como lembrou Dino em seu voto: “Dosimetria não é matemática”. O julgamento da pena pode se encerrar ainda nesta quinta-feira (12), última sessão reservada para o caso.

Prisão domiciliar fora de cogitação (por ora)

Nos bastidores de Brasília, havia espaço para negociar uma prisão domiciliar, segundo revelaram fontes ouvidas pela colunista Letícia Casado (UOL). A ideia era evitar o desgaste político e institucional de manter um ex-presidente da República em um presídio comum.

Contudo, as sanções impostas por Trump — vistas por ministros do STF como ataque direto à independência do Judiciário brasileiro — tornaram qualquer aceno à suavização da pena politicamente inviável. Em uma Corte pressionada por setores da opinião pública e pela necessidade de afirmar sua autoridade institucional, uma decisão nesse sentido hoje seria impensável.

O futuro de Bolsonaro

Mesmo com a condenação em cinco crimes — entre eles, golpe de Estado, organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado — Bolsonaro não poderá cumprir mais de 40 anos de prisão, conforme estabelece o Código Penal após a reforma do pacote anticrime aprovado em 2019, ironicamente durante o seu próprio governo.

Na prática, contudo, penas tão longas raramente são cumpridas de forma integral. A legislação brasileira prevê progressão de regime (do fechado para o semiaberto e, depois, para o aberto), além da possibilidade de reduções por trabalho, estudo e bom comportamento. Tudo isso será analisado após o julgamento definitivo dos recursos.

Já o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) foi parcialmente beneficiado por prerrogativas parlamentares. Ele responderá apenas pelos crimes cometidos após o início de seu mandato, relacionados aos atos de 8 de Janeiro, e está temporariamente blindado de acusações anteriores.

A democracia como resposta

Se no passado o Brasil respondeu a crises institucionais com golpes militares, prisões arbitrárias ou estados de exceção, o julgamento do caso Bolsonaro representa uma virada histórica. A Justiça, ainda que imperfeita, mostrou-se capaz de responder aos que tentaram destruí-la — dentro das regras do jogo democrático.

Em um cenário global marcado pela ascensão de líderes autoritários e ataques coordenados ao Judiciário, a decisão do STF reafirma que o caminho da democracia se constrói com instituições fortes, não com ameaças estrangeiras ou pactos de silêncio.

Bolsonaro tentará fugir?

A condenação de Jair Bolsonaro não encerra a crise institucional brasileira. Ao contrário, abre um novo capítulo repleto de incertezas — o maior deles: o ex-presidente aceitará cumprir a pena ou tentará fugir do país?

Embora publicamente tenha afirmado que jamais fugiria da Justiça brasileira, Bolsonaro já demonstrou, na prática, que essa promessa é altamente volátil. Ele também dissera, com veemência, que jamais daria um golpe — o que não o impediu de planejar e liderar uma articulação que culminaria nos atos violentos de 8 de janeiro de 2023.

A dúvida, portanto, não é apenas operacional. É simbólica e estratégica. Em um país marcado pela impunidade de líderes autoritários, um ex-presidente atrás das grades representa um divisor de águas. Mas para Bolsonaro, que sempre se espelhou em autocratas que não pagaram por seus crimes — e em Donald Trump, que jamais foi preso — aceitar uma sentença como a que se desenha é mais do que penoso: é humilhante.

Um histórico de fugas discretas

Bolsonaro já ensaiou pelo menos três tentativas de fuga velada. Em fevereiro de 2024, após ter o passaporte apreendido, passou dois dias abrigado na Embaixada da Hungria, em Brasília, num gesto que soou como ensaio diplomático para eventual pedido de asilo. A embaixada chegou a negar inicialmente, mas imagens divulgadas pela CNN Brasil confirmaram sua presença.

Antes disso, deixou o Brasil dois dias antes do fim do mandato presidencial, em dezembro de 2022, voando para a Flórida sem passar a faixa para seu sucessor. A justificativa era de que temia “atos violentos” no país, mas internamente, a viagem foi interpretada como tentativa de garantir um álibi internacional caso os atos golpistas explodissem — como explodiram — em 8 de janeiro.

Por fim, uma minuta de pedido de asilo ao governo Milei, na Argentina, foi descoberta em seu celular durante perícia da Polícia Federal. O documento, ainda não assinado, pedia proteção política sob o argumento de perseguição judicial.

Fuga técnica é possível — mas não fácil

Atualmente, Bolsonaro cumpre prisão domiciliar por ordem do STF, com monitoramento eletrônico e vigilância reforçada. Não há registro de que ele tenha violado condições de permanência até o momento, mas a Corte acompanha com atenção qualquer movimentação fora do padrão.

Diferente de outros golpistas presos com tornozeleira eletrônica, cujo monitoramento se mostrou falho, Bolsonaro está sob vigilância mais direta — inclusive com rondas da Polícia Federal nas imediações da residência.

Mas, como admitem fontes da segurança pública, nenhuma tornozeleira impede alguém com conexões políticas, militares e internacionais de tentar uma fuga bem planejada. Um helicóptero, um carro diplomático ou o simples deslocamento até uma embaixada estrangeira poderiam ser suficientes para acionar um salvo-conduto. E como demonstrou no episódio com a Hungria, o ex-presidente já testou o caminho.

O dilema institucional

Para o STF, o caso vai além da aplicação da pena. O desafio é garantir que o cumprimento seja efetivo, e que não se transforme em novo episódio de desmoralização das instituições — como foram o perdão a Daniel Silveira, a omissão diante dos atos antidemocráticos durante a pandemia, ou a impunidade crônica de militares insubordinados.

Bolsonaro personifica o desafio central da democracia brasileira neste século: fazer valer a lei também para os poderosos. Um eventual descumprimento da sentença, uma fuga ou asilo internacional seriam golpes profundos à credibilidade do sistema de Justiça e, por consequência, ao próprio pacto democrático.

Se Bolsonaro fugir — e essa hipótese não pode ser descartada —, não será apenas uma derrota do Supremo. Será uma fratura institucional que expõe a fragilidade do Estado frente à extrema direita. A figura do ex-presidente, alimentada por uma base ainda ruidosa e violenta, seria reciclada em símbolo de “perseguido político”, no estilo dos caudilhos latino-americanos.

E mais: uma fuga de Bolsonaro seria um presente para seus aliados internacionais, como Donald Trump, Javier Milei e Viktor Orbán, que há anos investem na narrativa de que as democracias liberais são ditaduras disfarçadas. A extrema direita internacional agradeceria.

A história latino-americana está cheia de episódios de autocratas que deixaram o poder sem jamais enfrentarem a Justiça. Alfredo Stroessner morreu no exílio. Fulgêncio Batista também. Fujimori foi um dos raros casos de prisão efetiva, mas décadas após seus crimes.

A eventual prisão de Bolsonaro seria uma rara exceção. Um fato que ecoaria não apenas no Brasil, mas em todo o continente. Sua fuga, no entanto, nos empurraria de volta ao ciclo da impunidade, ao qual o país está historicamente acostumado.

SEM ANISTIA


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