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Poder
Operações letais promovidas pela polícia transformam o medo social em ativo eleitoral
Publicado em 03/11/2025 9:11 - Semana On
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A maior operação policial letal da história do Brasil, com 121 mortos no Rio de Janeiro, reacendeu o ciclo perverso entre violência de Estado, capital eleitoral e discursos autoritários. No rastro de cadáveres, a extrema direita tenta se reerguer politicamente após sucessivas derrotas, enquanto a esquerda vacila diante do debate sobre segurança pública. O fenômeno, no entanto, não é exclusividade ideológica: a politização da letalidade policial tornou-se um fenômeno suprapartidário, revelando as contradições e os riscos que cercam a democracia brasileira.
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A Operação Contenção, realizada no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão, em 28 de outubro de 2025, matou 121 pessoas e prendeu 113. Sob a justificativa de capturar Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, chefe do Comando Vermelho, a operação fracassou em seu objetivo central — Doca escapou — mas foi, paradoxalmente, celebrada como um sucesso pelo governador Cláudio Castro (PL). O que se seguiu foi menos uma análise técnica dos resultados e mais um espetáculo político.
A adesão de governadores de direita ao chamado “Consórcio da Paz”, articulado no calor do pós-matança, evidenciou a estratégia de reposicionamento da extrema direita no tabuleiro eleitoral. “Matança tem elevada rentabilidade eleitoral”, explicou Jacqueline Muniz, professora da Universidade Federal Fluminense. “Quanto maior o medo, maior o desejo por uma solução imediata”.
Não é um fenômeno novo. Desde os anos 1990, figuras como Sivuca e Coronel Ubiratan converteram a retórica do “bandido bom é bandido morto” em votos. Wilson Witzel e Jair Bolsonaro capitalizaram o sentimento de insegurança como motor de suas campanhas em 2018. O bordão “CPF cancelado”, hoje amplamente replicado nas redes bolsonaristas, é a síntese cruel da necropolítica: corpos viram números e mortes, capital político.
A fábrica da barbárie: do Carandiru à Penha
A politização da letalidade policial está enraizada em uma tradição autoritária que remonta ao período escravocrata e ao regime militar. A formação das polícias brasileiras esteve, por décadas, mais ligada ao controle social das classes populares do que à proteção da cidadania. Como apontam pesquisadores como Daniel Hirata, “a violência institucional sempre foi mobilizada para ter retornos políticos”, especialmente com o apoio das classes médias, historicamente marcadas por racismo e classismo.
O que se vê hoje é a atualização desse modelo: ações policiais que matam dezenas de pessoas são imediatamente exaltadas como demonstrações de força. A tragédia se transforma em marketing, mesmo quando envolta em contradições escandalosas. Doca fugiu. Quatro policiais morreram. A facção permaneceu intacta. Mas as imagens de corpos na Praça São Lucas reforçaram a narrativa de “guerra ao crime” — um conceito que nunca foi eficaz na redução da violência, mas que continua rendendo votos.
A necropolítica como projeto de poder
A atuação de Cláudio Castro e a recepção calorosa que recebeu de lideranças bolsonaristas revelam o uso deliberado da necropolítica como estratégia eleitoral. O termo, cunhado pelo filósofo Achille Mbembe, designa a gestão política da morte: o Estado define quem pode viver e quem deve morrer. No caso brasileiro, a decisão recai quase sempre sobre corpos negros, pobres e periféricos.
A operação, ao ser classificada como combate ao “narcoterrorismo”, aciona uma retórica que busca legitimar práticas de exceção. O termo é incomum no Brasil, mas estrategicamente usado para aproximar o país de narrativas militarizadas, típicas do discurso trumpista. A coincidência com o pedido do senador Flávio Bolsonaro para que os EUA realizassem uma intervenção armada na Baía de Guanabara não passou despercebida.
Mais grave ainda são as conexões entre o governo estadual e o próprio crime organizado. Investigações do Ministério Público Federal apontam que aliados políticos de Castro, como o deputado estadual Thiago Raimundo de Oliveira Santos (TH Joias), integram redes criminosas ligadas ao Comando Vermelho, inclusive intermediando compras de armas e equipamentos. Em 2021, o então secretário de Administração Penitenciária, nomeado por Castro, foi flagrado em diálogo amistoso com Marcinho VP, líder da facção. Há um paradoxo evidente: combate-se o crime nas favelas enquanto se negocia com ele nos bastidores.
O sociólogo Ignacio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), critica o termo. Para ele, trata-se de uma estratégia discursiva que inverte o significado real da operação que deixou 121 mortos.
“Os governadores erraram no nome. Deveria se chamar Consórcio da Morte, porque é isso que eles estão propondo. Certamente não é a paz”, diz Cano. “Retoricamente, não vai pegar bem e, cada vez que usarem o termo, vão ser lembrados da quantidade de mortes que os seus governos produzem. A maioria dos governadores de direita estão promovendo a letalidade policial”.
Sociólogos, cientistas políticos e especialistas em segurança pública ouvidos pela Agência Brasil analisaram o vocabulário adotado pelas autoridades nos últimos discursos. E apontaram para os usos políticos e simbólicos dos termos relacionados à operação mais letal já registrada no Brasil.
“Isso é mais uma bobagem que atrapalha a polícia, a segurança pública, a sociedade e o próprio governo. Da mesma forma como usam ‘narcomilícia’ e outras categorias mais antigas como ‘Estado paralelo’. Isso, na verdade, oculta incompetências, incapacidades e oportunismos políticos”, diz Jacqueline Muniz, antropóloga e cientista política, professora do departamento de segurança pública da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“Quando você diz que está diante de um narcoterrorismo, você está dizendo que precisa de mais poder, mais dinheiro, mais orçamento e que não precisa dar satisfação do que vai fazer”, complementa.
Para Ignacio Cano, o termo é errado também do ponto de vista conceitual. “Terrorismo normalmente é associado a objetivos políticos. É o uso indiscriminado da violência contra civis para perseguir esses objetivos. Um narcoterrorista não teria nenhuma motivação política. O objetivo é o mesmo de todo criminoso, que é o lucro. O termo é uma contradição em si mesmo”, explica o sociólogo.
No Brasil, a Lei n° 13.260, de 2016, define que: “terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”.
Facções de tráfico de drogas são classificadas pela legislação brasileira como organizações criminosas. E é dessa forma que o governo federal, especialmente o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, tem se posicionado.
Um grupo de deputados está tentando mudar isso por meio do Projeto de Lei 724/25, que amplia o conceito de terrorismo para incluir o tráfico de drogas ilícitas. O projeto é de autoria do deputado Coronel Meira (PL-PE) e foi aprovado há algumas semanas na Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados.
Ainda será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), antes de ser votado pelo Plenário da Câmara. Para virar lei, precisa ser aprovado pela Câmara e pelo Senado.
Pressão internacional
Esse entendimento tem recebido pressão internacional de políticos de direita. Os governos de Javier Milei, na Argentina, e Santiago Peña, no Paraguai, classificaram recentemente as organizações criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho (CV) como terroristas. Os Estados Unidos sugeriram que o Brasil fizesse o mesmo em visita da comitiva norte-americana ao país em maio deste ano.
Os especialistas em segurança pública entendem que a pressão de governadores no Brasil pelo uso de “narcoterrorista” é uma forma de alinhamento político com essas forças externas. Dessa forma, o debate é transferido do campo policial para o geopolítico. Para eles, o termo, se adotado no país, fragilizaria a democracia e aumentaria o risco de interferências internacionais.
“Uma forma de os Estados Unidos intervirem de forma mais efetiva no nosso território é justamente apelar para o que os norte-americanos temem historicamente, principalmente depois do 11 de setembro, que é a questão do terrorismo”, diz Jonas Pacheco, coordenador de pesquisa da Rede de Observatórios da Segurança.
“É um discurso que trata de uma questão de dominação da América Latina. Os países que têm grupos classificados como terroristas claramente não são alinhados ideologicamente com o governo Trump”, complementa.
“O terrorismo é usado pelo presidente dos Estados Unidos para cometer execuções sumárias na costa da Venezuela e da Colômbia. Termo foi adotado pelos governos de El Salvador e Equador também. São tentativas de evadir qualquer limite legal. Leis terroristas alongam prazos de prisão provisória e diminuem garantias processuais. Mas, importante destacar, nenhuma lei antiterrorista autoriza execução sumária de pessoas”, diz Ignacio Cano.
“Guerra às drogas”
Outra categoria semântica muito comum entre as autoridades estaduais é o de “guerra”. As polícias militares estariam diante de conflitos semelhantes aos sofridos em outras realidades do Leste Europeu, África e Oriente Médio.
Os cientistas políticos e sociólogos são categoricamente contrários à terminologia, por uma série de consequências simbólicas e materiais que ela produz.
“Quando você pauta o debate na ideia de guerra, você valida ações que barbarizam todo um território. Quem é o inimigo nessa guerra? É o traficante que está na Faria Lima lavando o dinheiro? Não, é o traficante que está na favela. É o pobre e o preto que moram em territórios de extrema vulnerabilização e precarização”, diz Jonas Pacheco.
“Segurança pública é para gerar segurança, não é para matar. Uso da força deve respeitar as devidas normativas legais. Não é um fim em si mesmo. O fim é gerar segurança. O pacto social prevê que o Estado deve garantir a preservação da vida”, complementa.
“Sempre bom lembrar que, se a sociedade autoriza a polícia a agir sem controles e parâmetros legais, sem fiscalização do Ministério Público, todos nós estamos em risco. Se as pessoas acham que só os moradores do Alemão e da Penha vão sofrer as consequências, estão muito enganadas”, diz Ignacio Cano.
“O objetivo é trazer a guerra para dentro das cidades. E nada melhor do que uma guerra contra o crime. Mas não se trata de combater crime nenhum. Se trata de produzir repressão e espetáculo. Se queremos resolver, temos que mudar também essa linguagem”, analisa Jacqueline Muniz.
“Estamos falando de um projeto autoritário onde a insegurança se torna política pública. Quanto maior a insegurança, melhor para essas autoridades, porque nós somos fidelizados pelo medo. Diante da ameaça, todos nós podemos abrir mão das garantias individuais e coletivas em favor de quem possa nos proteger e, depois, nos tiranizar”, complementa.
Uma pauta suprapartidária — e as contradições da esquerda
Embora a extrema direita tenha convertido a letalidade policial em bandeira, o fenômeno ultrapassa fronteiras ideológicas. No Ceará, o governador Elmano de Freitas (PT) celebrou uma operação que resultou na morte de sete suspeitos, exaltando o fato de que “nenhum inocente foi alvejado”. Cláudio Castro não tardou a usar a declaração como álibi, alegando que a crítica ao Rio seria injusta diante do que ocorre em estados governados pela esquerda.
A politização da letalidade tornou-se suprapartidária, como alerta editorial do UOL (1.nov.2025): quando governadores transformam cadáveres em palanques, “os eleitores amedrontados normalizam a anomalia”. A esquerda, por sua vez, parece hesitante. O presidente Lula demorou a reagir à chacina e, quando o fez, adotou tom cauteloso. O Planalto limitou-se a divulgar um vídeo defendendo o uso da inteligência contra o crime — um discurso técnico, que não reverbera num país movido pela emoção do medo.
A armadilha discursiva está montada: qualquer alternativa que não envolva o extermínio sumário é tachada de leniência. “A violência policial é uma fábrica de crime organizado”, aponta o historiador e ex-deputado Jean Wyllys. O PCC nasceu do massacre do Carandiru; o Comando Vermelho, da brutalidade nos presídios. E ainda assim, políticas de segurança seguem ignorando a ciência, a história e os dados.
A crise do imaginário e o futuro da democracia
Mais do que números, essas chacinas remodelam o imaginário social. Como aponta o pesquisador Antonio Herculano Lopes, há duas formas de lidar com a violência: pela sublimação — que naturaliza a barbárie como parte da paisagem cultural — ou pelo justiçamento — que legitima governos autoritários em nome da “ordem”. Ambas são sintomas de uma sociedade que internalizou o medo como identidade.
A explosão da letalidade policial no Rio, sua repercussão nacional e os interesses políticos associados lançam um alerta sobre o futuro da democracia no Brasil. Estamos diante de um processo contínuo de erosão institucional, em que a exceção vira regra e o autoritarismo se disfarça de eficiência.
O desafio não é apenas técnico ou eleitoral. É moral, histórico e civilizatório. Enfrentar o crime organizado exige inteligência, investigação, fortalecimento de políticas públicas e, sobretudo, o fim da simbiose entre Estado e ilegalidade. Enfrentar o autoritarismo, por sua vez, exige coragem para dizer que matar não é governar — é abdicar de governar.
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