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Faria Lima apoiará Flávio Bolsonaro se Trump atacar bancos?
Publicado em 30/05/2026 2:08 - Semana On
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A decisão dos Estados Unidos de classificar facções do crime organizado brasileiro como organizações terroristas pode produzir consequências econômicas significativas para o Brasil, com reflexos que vão do comércio exterior ao turismo, passando pelos investimentos estrangeiros e pelo sistema financeiro. A avaliação é compartilhada por especialistas em relações internacionais, geopolítica e economia consultados pela Agência Brasil.
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Entre os principais impactos apontados está o aumento da percepção internacional de risco em relação ao país. Para o cientista político e especialista em relações internacionais Francisco Carlos Teixeira da Silva, a medida tende a afetar diretamente o ambiente de negócios e a confiança de investidores estrangeiros.
Segundo o professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), empresas internacionais já monitoram regularmente os indicadores de segurança do Brasil antes de tomar decisões de investimento. Ele relata que frequentemente recebe questionários de companhias estrangeiras interessados em avaliar o cenário brasileiro.
Na avaliação de Teixeira, a associação do Brasil a um suposto ambiente de abrigo ao terrorismo internacional pode provocar retração de investimentos, comprometendo a expansão de negócios, a geração de empregos e a transferência de tecnologia.
“O grau de investimento vai sofrer um impacto muito grande. Bancos, indústrias vão ser impactadas, gerando desinvestimento, cessação de criação de empregos e perda em transferências de tecnologia”, afirmou.
As consequências, segundo o especialista, não se limitariam ao fluxo de capitais. O comércio exterior brasileiro também poderia enfrentar obstáculos adicionais caso a classificação adotada por Washington seja acompanhada por países aliados, especialmente na Europa.
Nesse cenário, produtos brasileiros passariam a ser submetidos a mecanismos mais rigorosos de fiscalização e controle, sob a justificativa de prevenir possíveis vínculos com atividades relacionadas ao narcotráfico ou ao terrorismo.
“Tudo que o Brasil exporta vai ficar no nível de produtos passíveis de serem utilizados para exportação de drogas, para atentados terroristas ou contra transnacionais. Esse é o nível mais profundo que vai impactar de forma longa e permanente as exportações brasileiras”, avaliou o cientista político.
Outro setor apontado como vulnerável é o turismo. Para Teixeira, a repercussão internacional da medida tende a afetar a imagem do Brasil como destino seguro para visitantes estrangeiros.
O professor argumenta que a inclusão do país em uma narrativa associada ao terrorismo produz efeitos imediatos sobre a percepção internacional, aproximando a imagem brasileira daquela atribuída a países considerados instáveis ou pouco confiáveis para viajantes.
“Nos coloca ao nível da Somália ou outros países. Nos coloca ao nível de países que a gente chamava antes de países páreas, países que não são confiáveis para turismo e viajantes internacionais”, afirmou.
O impacto poderia ser ainda mais expressivo no segmento conhecido como turismo de negócios. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, frequentemente associadas à atuação das facções mencionadas, concentram eventos corporativos, feiras e encontros empresariais de grande porte, atividades que movimentam setores como hotelaria, gastronomia, transporte e serviços.
“A organização de eventos de negócios em São Paulo deve cair enormemente. É o que a gente chama de turismo de negócios, que é extremamente importante em São Paulo por mover a rede hoteleira e serviços de restaurante, táxi, etc.”, acrescentou.
Embora reconheça a dificuldade de mensurar com precisão os efeitos econômicos da medida, o professor de Economia Internacional da UFRJ Luiz Carlos Prado considera que a classificação pode abrir espaço para disputas comerciais e políticas capazes de atingir empresas brasileiras.
Segundo ele, a rotulagem de organizações criminosas como grupos terroristas cria instrumentos que podem ser utilizados de forma seletiva para impor restrições, ampliar investigações ou dificultar a atuação de companhias nacionais em mercados internacionais.
Prado cita como exemplo investigações recentes envolvendo fintechs instaladas na região da Faria Lima, em São Paulo. Na sua avaliação, a nova classificação poderia servir de base para questionamentos permanentes sobre eventuais vínculos com atividades consideradas de apoio ao terrorismo.
“Recentemente, houve investigações que envolvem fintechs na área da Faria Lima em São Paulo. Em tese, a decisão dos EUA abre espaço para você ter uma retaliação contínua de apoio ao terrorismo de organizações financeiras no Brasil. Você pode usar politicamente para esse fim”, afirmou.
O economista avalia que a medida amplia a insegurança jurídica e política para empresas que operam no país, reduzindo margens de atuação tanto do setor privado quanto do próprio Estado brasileiro.
“Aumenta o risco de empresas que atuam no país que possam ser prejudicadas por algum critério que se coloca, reduz a margem de manobra de empresas brasileiras, do Estado brasileiro, aumenta a instabilidade política, e trata das questões específicas do crime organizado”, comentou.
Além dos possíveis efeitos econômicos, integrantes do governo brasileiro têm manifestado preocupação com o que consideram ser a utilização da classificação como justificativa para formas de intervenção externa.
Em manifestações oficiais, o governo sustenta que a medida pode gerar consequências relevantes sobre a autonomia financeira e tecnológica do país, alcançando inclusive mecanismos desenvolvidos no Brasil.
“Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o Pix, que incomodam interesses estrangeiros”, afirma comunicado do governo.
O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro tornou-se alvo de investigações conduzidas pelos Estados Unidos sob alegações de concorrência desleal. Para autoridades brasileiras, a popularização do Pix impactou interesses comerciais de grandes empresas financeiras estrangeiras.
Os especialistas também destacam que a equiparação entre crime organizado e terrorismo encontra resistência conceitual no campo das relações internacionais e da segurança.
Segundo Luiz Carlos Prado, existe uma distinção fundamental entre organizações criminosas voltadas à obtenção de lucro e grupos terroristas orientados por objetivos políticos ou ideológicos.
Ele lembra que organizações como o Estado Islâmico conseguiram mobilizar apoiadores em diversos países por razões ideológicas, inclusive em nações aliadas dos Estados Unidos. Esse elemento, afirma, não está presente nas facções criminosas brasileiras.
“O Estado Islâmico tinha seus apoiadores em grupos radicais, inclusive nos países aliados aos EUA, como Arábia Saudita e em vários outros, mas por razões ideológicas. Nenhum grupo criminoso no Brasil tem apoio, por razões ideológicas, na Europa, nos EUA ou na América Central. O que eventualmente pode motivar são interesses econômicos”, observou.
Na mesma linha, Francisco Carlos Teixeira argumenta que a classificação adotada pelo governo do presidente Donald Trump não contribui efetivamente para o enfrentamento do crime organizado transnacional.
Para o especialista, iniciativas voltadas ao combate à lavagem de dinheiro e aos fluxos financeiros internacionais utilizados por organizações criminosas seriam mais eficazes do que a rotulagem das facções como grupos terroristas.
“O governo Trump deveria suprimir o paraíso fiscal que representa o estado de Delaware, dentro dos EUA, onde vão lavar dinheiro dos criminosos brasileiros. E, em segundo lugar, os paraísos fiscais do Caribe, como Ilhas Virgem e Ilhas Cayman, que estão sob soberania americana”, concluiu.
Desgaste entre aliados de Flávio Bolsonaro
A decisão do governo dos Estados Unidos de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais introduziu um novo elemento na disputa política brasileira e pode produzir efeitos contraditórios para um dos principais articuladores da iniciativa, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Embora o tema da segurança pública seja tradicionalmente associado ao campo político conservador e tenha forte apelo junto ao eleitorado, especialistas avaliam que ainda é prematuro medir os reflexos eleitorais da medida para a corrida presidencial de 2026.
Professor de Política Internacional e Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dawisson Belém Lopes afirma que qualquer projeção definitiva dependerá da forma como o episódio será interpretado pela opinião pública, pelos meios de comunicação e pelos principais atores políticos do país.
Segundo o pesquisador, Flávio Bolsonaro pode colher dividendos políticos ao se apresentar como responsável por uma iniciativa voltada ao enfrentamento das organizações criminosas. O tema ganha relevância em um contexto em que a segurança pública aparece entre as principais preocupações da população e figura entre os pontos mais vulneráveis da avaliação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A cronologia dos acontecimentos fortaleceu essa leitura. Dois dias após encontrar-se com Donald Trump e um dia depois de reunir-se com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, o senador viu o governo americano anunciar oficialmente a nova classificação das facções brasileiras.
O potencial ganho político, contudo, convive com riscos igualmente relevantes.
Na avaliação de Lopes, adversários podem explorar o episódio para sustentar que o recurso a uma potência estrangeira para lidar com problemas internos representa uma demonstração de fragilidade institucional e de renúncia à capacidade do próprio Estado brasileiro de enfrentar o crime organizado.
“A medida pode ser vista como entreguismo, algo contra o Brasil, não a favor, porque prevê uma renúncia de soberania”, afirma o professor.
A crítica foi incorporada pelo presidente Lula em sua primeira manifestação pública sobre o tema. Ao comentar a decisão norte-americana, o chefe do Executivo rejeitou qualquer interpretação que implique subordinação do país a interesses externos e acusou o senador de buscar interferência estrangeira em assuntos nacionais.
O debate ganhou força também por causa da controvérsia conceitual envolvendo a equiparação entre facções criminosas e organizações terroristas. Especialistas em segurança e relações internacionais observam que grupos como PCC e Comando Vermelho operam prioritariamente com objetivos econômicos, enquanto organizações terroristas costumam ser caracterizadas por motivações ideológicas ou políticas.
Apesar dessa distinção amplamente aceita na literatura acadêmica, o governo Trump tem adotado uma interpretação mais ampla do conceito de terrorismo, estratégia que já havia sido aplicada anteriormente contra cartéis mexicanos.
É justamente nesse ponto que surge uma das hipóteses mais delicadas levantadas por analistas políticos.
Segundo Dawisson Lopes, a nova classificação pode produzir consequências inesperadas para setores que hoje integram a base de apoio político e econômico de Flávio Bolsonaro. Como as medidas norte-americanas costumam alcançar indivíduos e instituições que mantenham algum tipo de relação direta ou indireta com organizações enquadradas como terroristas, investigações futuras poderiam atingir figuras influentes do ambiente político e empresarial brasileiro.
“Pode-se cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de políticos profissionais, que mantenham interações com o PCC e o CV. Isso já tem vindo à tona nos últimos tempos. Já se sabe de algumas relações envolvendo a turma da Faria Lima, os investidores e os bancos com o crime organizado. Quem propôs essa medida pode estar jogando contra si”, avalia.
Caso integrantes desses grupos sejam afetados por investigações, restrições ou questionamentos decorrentes da nova classificação, o professor considera possível uma mudança de postura em relação ao senador.
“Se forem atingidas podem se voltar contra ele, porque são pessoas com muito dinheiro e influência para mexer nas alavancas do sistema político brasileiro”, observa.
A hipótese encontra respaldo em operações conduzidas recentemente por órgãos como Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público. No ano passado, uma investigação conjunta apontou a utilização de fundos de investimento e estruturas financeiras sediadas na região da Faria Lima para movimentar, ocultar e proteger recursos associados a atividades do PCC ligadas ao tráfico de drogas e ao setor de combustíveis.
À época, a Polícia Federal estimou que o esquema investigado tenha movimentado cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.
O debate alcança também o universo político. Um dos casos recentes citados por analistas envolve o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, que foi preso sob suspeita de vazamento de informações sigilosas e de interferência em investigações relacionadas a facções criminosas.
Nesse contexto, alguns observadores passaram a comparar os possíveis desdobramentos da decisão americana aos mecanismos utilizados em legislações como a Lei Magnitsky, instrumento empregado pelos Estados Unidos para impor restrições a indivíduos acusados de corrupção ou de violações de direitos humanos.
Ainda assim, Lopes considera improvável que o cenário evolua para um confronto institucional de grandes proporções.
Como referência, o professor cita a reação brasileira quando autoridades e instituições financeiras foram pressionadas por Washington em episódios recentes envolvendo sanções individuais. Segundo ele, os principais bancos do país mantiveram suas operações e seguiram as orientações estabelecidas pelas autoridades econômicas nacionais.
Na avaliação do pesquisador, o sistema financeiro brasileiro demonstrou capacidade de resistir a pressões externas e tende a continuar operando dentro dos parâmetros definidos pelos órgãos reguladores do país.
Outro elemento apontado pelo especialista é o atual estágio das relações diplomáticas entre Brasília e Washington. Diferentemente de momentos recentes marcados por tensões comerciais e divergências políticas mais intensas, o relacionamento bilateral atravessa um período relativamente estável, reduzindo as chances de escalada do conflito.
Por fim, Lopes recorre à experiência mexicana para relativizar projeções mais alarmistas. Após a classificação de cartéis como organizações terroristas durante o segundo mandato de Donald Trump, o governo da presidente Claudia Sheinbaum adotou medidas de cooperação em áreas consideradas prioritárias pelos Estados Unidos, como controle de fronteiras e extradição de criminosos, evitando um agravamento das tensões diplomáticas.
Na avaliação do professor, se os impactos observados no México foram limitados, a tendência é que os efeitos sobre o Brasil sejam ainda mais moderados. O argumento se apoia no fato de que a dependência econômica mexicana em relação aos Estados Unidos é significativamente superior à brasileira.
Embora Washington permaneça como parceiro estratégico para o país, a diversificação das relações comerciais brasileiras — especialmente o peso crescente da China no comércio exterior — reduz a capacidade de pressão econômica direta dos Estados Unidos e amplia a margem de manobra diplomática de Brasília diante de eventuais desdobramentos da nova política adotada pela Casa Branca.
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