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Poder
Brasil usou China como trunfo para reabrir diálogo com Trump após meses de tensão
Publicado em 10/10/2025 10:01 - Semana On
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O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, foi convidado pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, para um encontro presencial em Washington, onde devem iniciar as conversas sobre o tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump aos produtos brasileiros. A data ainda não foi definida.
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Segundo comunicado do Itamaraty, os dois conversaram por telefone na quinta-feira (9). “Após diálogo muito positivo sobre a agenda bilateral, acordaram que equipes de ambos os governos manterão reunião proximamente em Washington, em data a ser definida, para dar seguimento ao tratamento das questões econômico-comerciais entre os dois países”, diz a nota.
O encontro foi organizado após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reunir por videoconferência com seu homólogo americano Donald Trump, abrindo caminho para negociações sobre a disputa comercial entre os dois países.
Na ocasião, Lula pediu para Trump revogar as tarifas extras sobre o Brasil, que chegam a 50% sobre alguns produtos, e também as sanções contra autoridades brasileiras.
O encontro foi descrito como positivo por ambas as partes e Rubio, que chefia a diplomacia dos EUA, foi designado pela Casa Branca para dar continuidade às tratativas.
Os dois presidentes trocaram números de telefone para estabelecer uma via direta de comunicação e também devem se encontrar pessoalmente no futuro.
Lula elogia conversa com Trump
“Acho que nosso problema com os Estados Unidos será resolvido”, disse Lula durante evento de inauguração da primeira fábrica da BYD no Brasil, em Camaçari (BA).
Em entrevista à rádio Piatã, da Bahia, o presidente disse que “agora começa um outro momento” nas negociações. “Nós somos dois senhores de 80 anos, presidimos as duas maiores democracias do Ocidente e precisamos passar para o resto do mundo cordialidade e harmonia, e não discórdia e briga”, disse, elogiando a cordialidade de Trump na conversa.
“Talvez comece a ter conversa a partir de agora e vamos ver se a gente consegue se acertar, porque o Brasil não quer briga com os Estados Unidos.”
Nesta semana, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que o Brasil vai oferecer os melhores argumentos econômicos para que os Estados Unidos revertam o tarifaço. O principal deles, segundo o ministro, é que a medida está encarecendo a vida do povo americano.
Haddad ainda indicou que investimentos dos EUA no Brasil podem entrar na negociação, como aqueles focados em transformação ecológica, terras raras, minerais críticos e energia limpa.
Guerra comercial americana
O tarifaço imposto ao Brasil faz parte da nova política da Casa Branca de elevar as tarifas contra parceiros comerciais. No dia 2 de abril, Trump impôs barreiras alfandegárias a países de acordo com o tamanho do déficit que os Estados Unidos têm com cada nação. Como os EUA têm superávit com o Brasil, na ocasião, foi imposta a taxa mais baixa, de 10%.
Porém, em 6 de agosto, entrou em vigor uma tarifa adicional de 40% contra o Brasil em retaliação a decisões que, segundo Trump, prejudicariam as big techs estadunidenses e em resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por liderar uma tentativa de golpe de Estado após perder as eleições de 2022.
Entre os produtos sobretaxados pelos Estados Unidos estão café, frutas e carnes. Inicialmente, cerca de 700 itens (45% das exportações do Brasil aos EUA) como suco e polpa de laranja, combustíveis, minérios, fertilizantes e aeronaves civis, incluindo seus motores, peças e componentes ficaram isentos.
Brasil usou China como trunfo para reabrir diálogo
Após meses de escalada nas tensões comerciais, negociadores brasileiros convenceram o governo de Donald Trump a reabrir canais de diálogo com o Brasil usando um argumento estratégico: as tarifas impostas aos produtos nacionais favorecem a China e colocam em risco a competitividade da indústria americana.
Documentos obtidos com exclusividade pelo jornalista Jamil Chade, do UOL, mostram como representantes do setor privado brasileiro, em articulação com o governo Lula, apresentaram dados e argumentos diretamente a órgãos-chave da administração Trump — entre eles o Departamento de Comércio, o Escritório de Comércio dos EUA (USTR), o Departamento do Tesouro e o Departamento de Estado. A ofensiva culminou em uma reunião informal entre Lula e Trump na ONU em setembro e, posteriormente, em uma conversa telefônica de 30 minutos entre os dois presidentes.
A reaproximação foi descrita por fontes envolvidas nas negociações como “estratégica e pragmática”. O papel do vice-presidente Geraldo Alckmin foi decisivo para a coordenação entre o setor empresarial e o governo brasileiro.
O argumento central da diplomacia econômica brasileira foi claro: ao sobretaxar produtos do Brasil, os EUA estariam, na prática, ampliando sua dependência da China — rival geopolítico número um de Washington.
Segundo os dados apresentados, quase metade (48,5%) dos produtos industriais exportados pelo Brasil aos EUA concorrem diretamente com itens chineses. No atual cenário, esses produtos enfrentam uma tarifa adicional de 40% imposta por Trump durante sua cruzada protecionista.
Esse aumento de barreiras comerciais, segundo os negociadores brasileiros, teria dois efeitos imediatos:
– O aumento do déficit comercial americano, ao incentivar a importação de produtos chineses;
– O enfraquecimento de cadeias produtivas que incluem subsidiárias americanas atuando no Brasil.
A tese brasileira, portanto, foi construída em torno de um paradoxo: penalizar o Brasil enfraquece a indústria americana e fortalece a China — algo frontalmente contrário à retórica e aos objetivos da política externa trumpista.
O discurso encontrou eco no Congresso americano. O senador Marco Rubio, nome que lidera as negociações com o Brasil, declarou recentemente que a China representa “o maior desafio existencial da história dos EUA”, superando até mesmo a antiga União Soviética — declaração feita durante uma audiência no Senado e registrada pelo Congressional Record de abril de 2025.
Fornecedores estratégicos e competitividade americana
Outro ponto crucial da argumentação foi o impacto direto das tarifas sobre a própria competitividade das empresas americanas. As delegações brasileiras demonstraram que setores estratégicos dos EUA — como semicondutores, baterias, indústria farmacêutica, cosmética e de construção civil — dependem de insumos brasileiros difíceis de substituir no curto prazo.
Exemplos apresentados incluíram:
– Óxido de nióbio brasileiro, responsável por 93% da importação americana do insumo, essencial para a produção de chips e baterias;
– Hidróxido de alumínio, com 47,5% de origem brasileira, amplamente usado em cosméticos e medicamentos;
– Madeira de coníferas, com 45,3% de participação do Brasil nas importações americanas, fundamental para construção, móveis e papel.
Segundo os brasileiros, substituir esses fornecedores elevaria os custos da indústria americana e causaria atrasos na cadeia de produção — um risco que empresas nos EUA, sobretudo após a experiência pandêmica, preferem evitar.
Geopolítica da influência e o alerta pré-eleitoral
Antes mesmo das eleições americanas de 2024, assessores ligados à campanha de Trump já haviam sinalizado a diplomatas brasileiros que o novo governo não aceitaria a ampliação da influência chinesa na América Latina. A recalibração do relacionamento com o Brasil aparece, portanto, como uma medida tática em um xadrez geopolítico mais amplo, em que o continente sul-americano volta a ser disputado por Washington e Pequim.
A estratégia brasileira explorou essa janela com habilidade. Ao invés de contestar abertamente o protecionismo americano, os negociadores optaram por mostrar que a integração com o Brasil serve aos interesses estratégicos dos EUA. Em contraste com a China, o Brasil é uma democracia, compartilha valores ocidentais e pode ser um parceiro de confiança em cadeias de suprimentos globais — argumento que, em tempos de guerra comercial e tensões globais, ganha força nos bastidores da diplomacia.
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