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Poder
Chegou a hora da direita escolher entre a loucura bolsonarista e a normalidade política
Publicado em 24/11/2025 12:28 - Semana On
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A justificativa apresentada pela defesa de Jair Bolsonaro para explicar a violação da tornozeleira eletrônica imposta por ordem judicial foi, no mínimo, inusitada: alucinação causada por medicamentos. O episódio, que soma mais um elemento à sequência de tentativas de desresponsabilização jurídica do ex-presidente, tem gerado debates sobre os limites da estratégia política e a instrumentalização da saúde mental como escudo de impunidade.
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Em menos de uma semana, Bolsonaro apresentou três versões para o incidente com a tornozeleira: a primeira, de que teria batido o equipamento numa escada; a segunda, que usou um ferro de solda no aparelho “por curiosidade”; e, por fim, a versão elaborada pela defesa técnica, que atribuiu o ato a um possível surto de alucinação induzido por medicamentos como a Pregabalina e o Cloridrato de Sertralina.
A tática, que contou com o endosso de profissionais da medicina e advogados, rapidamente repercutiu nos bastidores políticos e no Judiciário. Mas médicos ouvidos pela reportagem — sob anonimato, em função do sigilo ético — afirmaram que ambos os medicamentos são considerados seguros quando usados sob prescrição e acompanhamento. “Alucinação não é um efeito comum em pacientes que utilizam essas drogas. É extremamente raro e, quando ocorre, geralmente está associado a outros fatores preexistentes”, explica o neurologista Dr. Wanderley Cerqueira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A alegação, no entanto, insere-se numa estratégia já conhecida da defesa do ex-presidente: a multiplicação de versões que confundem, diluem responsabilidades e testam o limite da tolerância institucional diante do que muitos juristas têm classificado como “delinquência política”.
Uma estratégia calculada
Segundo o jurista e professor de Direito Constitucional da Universidade de São Paulo, Conrado Hübner Mendes, “a atuação de Bolsonaro e de seus aliados deve ser compreendida dentro de uma lógica de erosão institucional, característica do populismo autoritário. O objetivo é desmoralizar os mecanismos de controle e colocar as instituições sob constante teste de resistência”.
É nesse contexto que a expressão popular “fingir demência” ganha, ironicamente, um novo grau de literalidade. Embora a linguagem politicamente correta recomende evitar termos que possam banalizar doenças neurológicas, a escolha de Bolsonaro — ou de sua defesa — de apelar a uma justificativa psiquiátrica para evitar consequências penais transforma a figura do fingidor num tipo específico de operador político: aquele que usa a dissimulação como arma retórica e judicial.
O realismo mágico da política brasileira
O Brasil, ao contrário de outros países latino-americanos, não é historicamente identificado como um grande expoente do realismo mágico na literatura. Mas o fenômeno da ascensão do bolsonarismo, com sua mistura de teorias conspiratórias, revisionismo histórico e ataque sistemático às instituições, confere à política nacional um tom que beira o fantástico.
A trajetória de Jair Bolsonaro — do militar punido nos anos 1980 por planejar atentados contra quartéis, passando por sua condução negacionista da pandemia, até chegar à tentativa de golpe em 2023 — pode ser lida como uma narrativa de constante tensionamento com a legalidade democrática. Segundo documentos da Revista Piauí e do El País Brasil, Bolsonaro chegou a planejar ações de ruptura institucional com apoio de setores das Forças Armadas e empresários bolsonaristas.
Não à toa, sua prisão preventiva não decorre de delírios ideológicos, mas de um processo concreto por coação no curso de processo judicial — um desdobramento direto da ação penal que investiga sua participação na tentativa de golpe. O caso está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e pode resultar em mais de 27 anos de prisão, caso condenado.
Fascismo não é doença — é projeto
Na tentativa de suavizar as ações do ex-presidente, muitos de seus apoiadores e até observadores mais distantes recorrem à ideia de que Bolsonaro seria “louco” ou “desequilibrado”. Mas essa leitura, segundo estudiosos do fascismo, é perigosa. Para o historiador italiano Emilio Gentile, referência mundial nos estudos sobre regimes autoritários, o fascismo “não é um acidente ou um desvio irracional, mas uma ideologia coerente com objetivos muito claros de controle social e aniquilação da democracia liberal” (The Origins of Fascist Ideology, 2005).
A psicologização do autoritarismo serve, muitas vezes, como uma forma de escapismo moral: se o líder é doente, não é responsável por seus atos. Mas se é lúcido, então deve ser responsabilizado — política e juridicamente — por seus crimes. Como destacou o cientista político Steven Levitsky, coautor de Como as Democracias Morrem (Zahar, 2018): “o erro das elites democráticas foi achar que podiam controlar líderes autoritários. Isso sempre termina mal”.
Política, punição e memória
A pergunta que persiste é: Bolsonaro está pronto para uma campanha, caso seja anistiado? Ou a narrativa da alucinação busca pavimentar sua saída definitiva da vida pública, de forma menos vergonhosa do que uma condenação judicial?
O dilema é duplo. De um lado, sua base ainda o idolatra e pressiona por sua reabilitação política. De outro, a extrema direita precisa definir um novo nome para 2026 — e um “alucinado” não pode escolher o futuro do bolsonarismo.
Mas o que está em jogo ultrapassa o destino pessoal do ex-presidente. O Brasil está diante de uma encruzilhada histórica: permitir que a distorção da verdade e a manipulação dos limites da razão ocupem o centro do debate, ou reafirmar que a democracia se defende com firmeza, sem abrir mão do devido processo legal — mas também sem cair na tentação de patologizar o autoritarismo.
Porque, como bem lembra a filósofa Hannah Arendt, “o mal pode ser banal, mas jamais inocente”. E, no caso do fascismo à brasileira, o verniz da insanidade pode ser apenas mais uma camada de disfarce.
Centrão às cegas e refém de um ex-mito
O que deveria ser uma caminhada segura até 2026 virou um campo minado para o Centrão. O bloco político, que se equilibra entre o oportunismo e o instinto de sobrevivência, chega à antessala da sucessão presidencial preso a um Bolsonaro desestabilizado, acuado por decisões judiciais, e exposto por um escândalo bancário que arrastou parte da direita para o noticiário policial.
O plano original previa um cenário controlado: Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, seria ungido como herdeiro político do bolsonarismo, com o apoio do ex-presidente selado por uma eventual anistia ou indulto. Em troca, o Congresso — liderado por nomes como Arthur Lira, Ciro Nogueira e outros caciques do Centrão — trabalharia para aprovar a chamada PEC da Blindagem, destinada a reduzir penas e travar investigações.
Mas o plano desmoronou.
A Polícia Federal, fortalecida institucionalmente, não cedeu às pressões. E Alexandre de Moraes, ministro do STF, endureceu sua posição diante das evidências acumuladas contra Bolsonaro — entre elas, o episódio grotesco da tornozeleira derretida por um ferro de solda, agora atribuído pela defesa a um “surto paranoico”.
Do indulto à exposição
O escândalo envolvendo o Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, acrescentou um novo elemento de instabilidade à equação. Governadores próximos ao bolsonarismo — como Cláudio Castro (RJ) e Ibaneis Rocha (DF) — viram seus nomes vinculados à má gestão de recursos em instituições públicas de previdência, que aplicaram valores vultosos em papéis do banco hoje sob investigação.
O caso expôs a fragilidade das alianças costuradas pelo Centrão e contaminou o ambiente político de Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União Brasil), dois dos principais entusiastas da candidatura de Tarcísio ao Palácio do Planalto. A mancha, ainda que indiretamente, respinga no governador paulista, cuja imagem de gestor técnico começa a perder o verniz de neutralidade.
Pressionado, Tarcísio se apressou a criticar, nas redes sociais, a decisão do ministro Moraes que determinou a prisão preventiva de Bolsonaro. Mas a tentativa de unificar a direita esbarrou na revelação das imagens da tornozeleira danificada e na versão de que o ex-presidente teria sofrido um surto psicótico. Diante disso, até aliados mais fiéis passaram a recuar.
Um legado tóxico e a ameaça da divisão
A hesitação do ex-presidente em nomear um sucessor claro e definitivo alimenta uma crise de liderança na extrema direita. O Centrão esperava que Bolsonaro transferisse seu capital político a tempo de viabilizar um nome competitivo. Em vez disso, recebe sinais contraditórios — inclusive a possibilidade de Flávio Bolsonaro, o filho 01, lançar-se como candidato caso o pai seja juridicamente impedido.
Na prática, o que se observa é o apodrecimento de um projeto antes mesmo de seu amadurecimento. O apoio que Bolsonaro ainda detém — forte, mas concentrado — intimida os caciques da direita, que se mostram incapazes de romper com o ex-mito mesmo diante do desgaste crescente. O resultado pode ser a pulverização das candidaturas conservadoras em 2026, cenário que, se confirmado, favorece a reeleição de Lula ou a ascensão de uma terceira via à esquerda.
A autonomia da PF e o revés da blindagem
A atual fase da investigação contra Bolsonaro marca um ponto de inflexão. A atuação da Polícia Federal tem surpreendido pela firmeza e independência, mesmo diante da pressão institucional dos grupos que tentaram — sem sucesso — blindar judicialmente o ex-presidente. A tentativa de aprovar a PEC da Blindagem, que reduziria o alcance das penas e dificultaria a responsabilização de agentes públicos, naufragou sob a pressão da opinião pública e dos escândalos subsequentes.
Enquanto isso, a estratégia de anistiar Bolsonaro, costurada nos bastidores com apoio de figuras próximas a Tarcísio e à cúpula do PP e União Brasil, perdeu força diante da nova realidade jurídica. Como afirmou o cientista político Christian Lynch, do IESP-UERJ, “o Centrão joga para manter o poder, mas o risco de atrelamento definitivo ao bolsonarismo pode arrastar o grupo para uma posição politicamente tóxica”.
Sem plano B, com medo do presente
Na ausência de um plano B viável e de um nome com tração nacional, o Centrão se vê diante de um dilema: romper com Bolsonaro agora e correr o risco de perder a base popular da extrema direita, ou seguir atrelado a um projeto em ruínas, na esperança de uma reabilitação improvável.
Enquanto isso, o país assiste a um cenário em que a elite conservadora, antes sóbria e discreta, se vê desnuda em escândalos de corrupção e alianças mal costuradas. A metáfora do “mico do banco Master” não é apenas um deboche: é o retrato de uma elite política que, em nome da manutenção do poder, aceitou entrar numa colônia de nudismo institucional — e agora precisa lidar com a luz do dia.
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