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Poder
Ex-presidente violou medidas cautelares ao menos cinco vezes antes de ser preso
Publicado em 24/11/2025 9:59 - Semana On
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O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta segunda-feira (24) manter a prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), detido após violar medidas cautelares impostas no curso de investigações contra ele. Os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia votaram favoravelmente à manutenção da prisão.
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Moraes, relator do caso, justificou seu voto apontando que Bolsonaro tem descumprido reiteradamente as medidas cautelares impostas pelo STF. Segundo ele, a prisão preventiva é necessária para garantir a ordem pública e assegurar a aplicação da lei penal.
No voto, Moraes listou episódios que, segundo ele, configuram violações das medidas judiciais:
21 de julho – uso irregular das redes sociais;
3 de agosto – participação, por meio digital, em ato público na Avenida Paulista;
21 de novembro – violação da tornozeleira eletrônica, que Bolsonaro admitiu ter danificado.
De acordo com o ministro, o ex-presidente confessou ter manipulado e queimado o equipamento. “Trata-se de falta grave, de ostensivo descumprimento de medida cautelar e patente desrespeito à Justiça”, escreveu Moraes.
Votos de Dino e Zanin
O ministro Flávio Dino destacou que há uma “tradição recente” de parlamentares aliados de Bolsonaro deixarem o país diante de investigações, citando Alexandre Ramagem (PL-RJ), Carla Zambelli (PL-SP) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Segundo ele, isso compõe “um deplorável ecossistema criminoso” que ameaça as instituições democráticas.
Dino também apontou riscos de que a vigília convocada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nos arredores da residência do pai pudesse gerar tumulto semelhante ao que antecedeu os atos golpistas de 8 de janeiro. Para ele, havia possibilidade de depredação de patrimônio privado e público, com uso de artefatos explosivos ou armas.
Cristiano Zanin acompanhou integralmente o relator, sem apresentar justificativa adicional.
Decisão baseada em risco de fuga
Moraes decretou a prisão preventiva no sábado (22), após Bolsonaro tentar romper a tornozeleira eletrônica. O ex-presidente está custodiado na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
Além do dano ao equipamento, Moraes considerou que as manifestações nos arredores da casa de Bolsonaro, a poucos minutos de embaixadas estrangeiras, poderiam criar ambiente propício à fuga. O ministro citou tentativa anterior do ex-presidente de buscar refúgio na embaixada da Argentina, conforme apurado em outra investigação.
Defesa alega “quadro de confusão mental”
A defesa de Bolsonaro sustenta que ele sofreu um episódio de alucinação induzido por medicamentos. Segundo os advogados, o ex-presidente acreditava que a tornozeleira continha dispositivos de escuta e tentou apenas “abrir a tampa”, sem intenção de retirá-la.
Em audiência de custódia, Bolsonaro repetiu o argumento. A defesa argumenta que o episódio deve ser interpretado à luz do estado de saúde do ex-presidente, sua idade e o estresse a que estaria submetido.
Jurista vê argumento sólido para manter prisão
Para a professora de direito penal da FGV-SP, Luisa Moraes Abreu Ferreira, a confissão sobre o rompimento da tornozeleira fortalece o entendimento do STF pela manutenção da prisão preventiva.
“Era possível que se pedisse uma prisão domiciliar humanitária, dada a fragilidade do estado de saúde dele. Mas, ao violar a tornozeleira, Bolsonaro deu ao Supremo um argumento definitivo: mostrou o que acontece quando está em casa”, disse a jurista em entrevista ao Canal UOL.
Segundo ela, a manipulação do equipamento é considerada um indício clássico de tentativa de fuga. “Agora, o ônus da prova se inverte: é da defesa a responsabilidade de demonstrar que ele não quis fugir, mas agiu sob efeito de alucinação ou paranoia”, afirmou.
Histórico de decisões da Primeira Turma
A Primeira Turma do STF já havia referendado decisões anteriores de Alexandre de Moraes envolvendo medidas cautelares contra Bolsonaro. Em julho, os ministros validaram a imposição de tornozeleira eletrônica, apreensão de celular, proibição de uso de redes sociais e de contato com embaixadores.
Moraes justificou as medidas pelo risco de fuga, obstrução das investigações e ameaça à soberania nacional. À época, Cármen Lúcia, Zanin e Dino acompanharam o relator. O ministro Luiz Fux foi o único a divergir, mas hoje não participa da votação, por integrar a Segunda Turma.
No julgamento da tentativa de golpe, Moraes sustentou que Bolsonaro e seu filho Eduardo atuaram com autoridades norte-americanas para atacar instituições brasileiras. Fux, no voto vencido, considerou que as restrições impostas comprometiam, de forma desproporcional, liberdades fundamentais como a de expressão e locomoção.
Bolsonaro violou medidas cautelares ao menos cinco vezes antes de ser preso
A prisão preventiva de Jair Bolsonaro não foi um episódio isolado, tampouco repentino. A decisão do Supremo Tribunal Federal foi resultado de uma escalada contínua de desrespeito às medidas cautelares impostas ao ex-presidente ao longo de dois anos. O histórico, composto por uma série de episódios que vão de suspeitas de tentativa de fuga a violações explícitas, consolidou, na visão dos ministros, um padrão de afronta deliberada à Justiça.
Desde 2024, Bolsonaro demonstrava incômodo com as restrições judiciais — e passou a tratá-las como extensão de sua estratégia política. Em diversas ocasiões, adotou um discurso de vitimização, minimizando as acusações e testando gradualmente os limites das decisões impostas pelo STF. Cada episódio, ainda que pontual, reforçava a impressão de que o ex-presidente buscava se colocar acima das determinações legais.
Linha do tempo das violações
O primeiro episódio de maior repercussão ocorreu em fevereiro de 2024, quando Bolsonaro passou dois dias hospedado na embaixada da Hungria, em Brasília, logo após ter seu passaporte apreendido. A revelação posterior da visita levantou suspeitas de tentativa de obter proteção diplomática. Questionado, o ex-presidente negou qualquer intenção de deixar o país e classificou as especulações como parte de uma “perseguição política”.
A partir dali, os sinais de desobediência se tornaram recorrentes:
Embaixada da Hungria (fev. 2024): permanência de dois dias no local, o que gerou suspeitas de busca por asilo, contrariando restrições de viagem.
Discurso com tornozeleira (21 de jul. 2025): vídeo publicado nas redes sociais por aliados mostrou Bolsonaro discursando no Congresso e exibindo o equipamento eletrônico. Disse ser vítima de “humilhação”, em violação à proibição de uso, direto ou indireto, das redes sociais.
Participação em ato público (3 de ago. 2025): mensagem enviada por telefone e amplamente divulgada por filhos e apoiadores em manifestação na Avenida Paulista. O episódio levou à substituição das cautelares pela prisão domiciliar.
Contato com investigados: relatório da Polícia Federal indicou comunicação com o general Braga Netto, também investigado na tentativa de golpe, além da elaboração de um rascunho de pedido de asilo, o que configurou nova infração.
Recebimento de visitas não autorizadas: mesmo proibido de manter contato com terceiros, Bolsonaro recebeu aliados e parlamentares em sua residência. Após a repercussão, a defesa solicitou formalização de uma lista de visitantes.
Dano à tornozeleira eletrônica (21 de nov. 2025): o episódio que levou à prisão preventiva. Bolsonaro danificou o equipamento com um ferro de solda. Questionado, respondeu: “Mete ferro quente aí. Curiosidade.”
A sucessão de condutas ampliou o desgaste institucional e sinalizou, ao STF, que medidas alternativas já não surtiam efeito. A desobediência ao monitoramento eletrônico foi interpretada como ponto de ruptura.
Um padrão de conduta
Ao fim de dois anos de medidas cautelares, o histórico de Bolsonaro inclui:
– suspeita de tentativa de driblar restrição de saída do país;
– duas violações da proibição de uso de redes sociais;
– quebra da regra de não manter contato com investigados;
– desrespeito ao isolamento domiciliar;
– e violação direta do monitoramento eletrônico.
Não se tratou de uma infração pontual, mas de uma sucessão de atos que, somados, tornaram insustentável a manutenção do ex-presidente em regime domiciliar. A decisão do Supremo, portanto, se baseou não apenas na gravidade do episódio mais recente, mas na constatação de um comportamento reiterado de confronto com o Judiciário.
Tornozeleira queimada é símbolo do derretimento moral e político do bolsonarismo
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