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Poder
Decreto de Trump elogia urnas brasileiras
Publicado em 27/03/2025 9:54 - Semana On
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Em meio ao julgamento que pode tornar Jair Bolsonaro réu por tentativa de golpe de Estado, o silêncio oficial do governo Trump diante da crise institucional brasileira contrasta com movimentações discretas, porém contundentes, para desacreditar a Justiça do país. Ao mesmo tempo, ironicamente, um decreto assinado pelo próprio ex-presidente americano elogia o sistema de urnas eletrônicas brasileiras — o mesmo alvo dos ataques bolsonaristas que culminaram na intentona golpista de 8 de janeiro de 2023.
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Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) avançava no julgamento que pode transformar Jair Bolsonaro em réu, acusado de liderar uma trama para subverter a ordem democrática no Brasil, o governo dos Estados Unidos — sob Donald Trump — adotava uma estratégia que combina silêncio diplomático e gestos políticos ambíguos. À imprensa, o Departamento de Estado respondeu com evasivas: “Por questão de política interna, não comentamos sobre casos judiciais”, afirmou a assessoria da embaixada americana no Brasil ao UOL.
O silêncio, no entanto, não é sinônimo de neutralidade. Segundo informações apuradas pelo jornalista Jamil Chade, o governo americano, embora oficialmente reservado, acompanha “de perto” o desenrolar do julgamento no STF. E, nos bastidores, aliados de Trump avaliam formas de desmoralizar o processo judicial brasileiro, traçando paralelos entre a situação do ex-presidente americano — também envolvido em investigações criminais — e a de Bolsonaro. A narrativa que se constrói busca sugerir que ambos seriam vítimas de perseguições políticas por parte das instituições de seus respectivos países.
A estratégia, contudo, ignora evidências factuais robustas contra o ex-presidente brasileiro. Em sua defesa do recebimento da denúncia contra o ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, por uso indevido da agência na eleição de 2022, o ministro Alexandre de Moraes ressaltou a atuação coordenada para atacar o sistema eleitoral. A ministra Cármen Lúcia foi além: apontou a ironia de que, enquanto bolsonaristas demonizavam as urnas eletrônicas, um recente decreto assinado por Donald Trump as citava como exemplo positivo de segurança eleitoral.
As urnas brasileiras: entre o elogio e a conspiração
Assinado no dia 25 de março, o decreto de Trump que propõe mudanças no sistema eleitoral americano faz referência explícita ao Brasil, colocando-o ao lado da Índia como exemplo de boas práticas na identificação biométrica de eleitores. “A Índia e o Brasil, por exemplo, estão vinculando a identificação do eleitor a um banco de dados biométrico, enquanto os Estados Unidos dependem amplamente da autodeclaração de cidadania”, diz o texto oficial.
A citação embaraçosa ocorre no mesmo momento em que parlamentares bolsonaristas, liderados por Eduardo Bolsonaro, tentam mobilizar apoio internacional contra as instituições brasileiras. A Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou um requerimento para convocar Mike Benz, ex-funcionário da USAID e ligado ao trumpismo, numa tentativa de sugerir que recursos da agência americana foram usados para interferir na eleição de 2022. A estratégia é criar uma contra-narrativa à condenação de Bolsonaro: transformar o julgamento em suposta prova de “censura” e “perseguição”.
Segundo juristas ouvidos pelo UOL nos Estados Unidos, essas movimentações não encontram respaldo no direito internacional. Na prática, configuram ingerência indevida nos assuntos internos de outro país — uma postura que rompe com os princípios da soberania e da diplomacia tradicional.
Trump e o ultraconservadorismo global
A preocupação de Trump com a política brasileira não é ocasional. O movimento ultraconservador global vê a eleição de 2026 no Brasil como peça-chave para seus objetivos ideológicos e geopolíticos. A descredibilização do sistema eleitoral e da Justiça brasileiras é parte de uma estratégia maior, que inclui ataques ao Tribunal Penal Internacional, sanções unilaterais contra países latino-americanos e retaliações a governos progressistas, como os de Cristina Kirchner na Argentina e Cyril Ramaphosa na África do Sul.
Segundo o filósofo e sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “a extrema-direita global age em rede, com financiamentos, discursos sincronizados e objetivos convergentes: desacreditar as instituições democráticas e promover a desinformação como tática de dominação” (CartaCapital, 2023). No caso brasileiro, esse projeto se manifesta na tentativa de reconstruir a imagem de Bolsonaro como mártir, enquanto se questiona, sem fundamentos, a legitimidade das eleições e do Judiciário.
A democracia em jogo
O silêncio de Washington, portanto, não é apenas ausência de ruído. É um silêncio carregado de estratégia, em que cada palavra não dita permite que se instale uma ambiguidade conveniente aos interesses de quem prefere ver democracias instáveis e instituições enfraquecidas.
A ironia — ou hipocrisia — de se elogiar as urnas brasileiras em um decreto, ao mesmo tempo em que se alimenta uma ofensiva para desacreditá-las, revela a contradição fundamental do populismo autoritário: ele precisa se apropriar das instituições que combate para manter uma aparência de legitimidade.
Como advertiu Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo (1951), “os regimes autoritários modernos não destroem a legalidade — eles a subvertem por dentro, usando as próprias leis como instrumento de exceção permanente”.
O Brasil assiste, mais uma vez, a um embate decisivo entre o Estado de Direito e a tentativa de manipulação institucional por forças antidemocráticas. O papel dos Estados Unidos — seja no silêncio, seja nas ações — será lembrado como parte dessa história.
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