Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Poder

Carta de Bolsonaro acirra guerra sucessória no clã

Ao ungir Flávio como herdeiro político, ex-presidente aprofunda disputa com Michelle

Publicado em 27/12/2025 10:37 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Antes de ser submetido a uma cirurgia nesta semana, Jair Bolsonaro escreveu uma carta de próprio punho para deixar explícito o que, até aqui, vinha sendo tratado nos bastidores: a escolha do senador Flávio Bolsonaro como seu herdeiro político e candidato do bolsonarismo à Presidência da República em 2026. O gesto, feito num momento de fragilidade pessoal e jurídica do ex-presidente, não pacificou o campo que ele próprio lidera. Ao contrário: funcionou como um estopim para a guerra sucessória dentro do clã Bolsonaro e do Partido Liberal.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Na carta, lida publicamente por Flávio, Jair Bolsonaro buscou afastar qualquer dúvida sobre coerção ou improviso. “Trata-se de uma decisão consciente, legítima e amparada”, escreveu. A frase, curta e calculada, carrega mais do que uma justificativa pessoal: é um recado ao partido, ao centrão e, sobretudo, à família. Ao reafirmar o filho como sucessor, Bolsonaro reforça a lógica que marcou sua trajetória política — a centralidade do sobrenome e a desconfiança em relação a aliados que não compartilham o laço de sangue.

O problema é que, enquanto os filhos se organizam para ocupar o espaço deixado pelo patriarca, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também se movimenta. Longe de aceitar um papel decorativo, Michelle vem ampliando sua presença pública, dialogando diretamente com o eleitorado evangélico e feminino e construindo pontes políticas fora do controle direto dos enteados. No universo bolsonarista, esse protagonismo é lido como insubordinação — não apenas ao pai, mas à hierarquia informal que os filhos tentam impor.

A tensão ficou explícita quando Flávio, Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro criticaram publicamente Michelle por ataques à tentativa de costurar uma aliança com Ciro Gomes no Ceará. A estratégia avaliava apoiar Ciro em uma disputa estadual como forma de enfraquecer o governador petista Elmano de Freitas e, por tabela, reduzir a votação de Lula. Após visitar o pai, Flávio recuou parcialmente, pediu desculpas públicas à madrasta e tentou conter o desgaste. Mas, no mesmo movimento, anunciou que Jair havia endossado sua pré-candidatura ao Planalto.

Michelle, que comanda o PL Mulher, aparece bem posicionada em pesquisas internas e levantamentos de opinião como potencial candidata à Presidência ou, ao menos, à vice em uma chapa liderada pelo governador paulista Tarcísio de Freitas — nome preferido de parcelas do centrão e do mercado financeiro. A decisão de Jair de “ungir” Flávio desde já foi mal recebida por ela, que vê na antecipação do gesto uma tentativa de fechar o jogo antes que sua própria viabilidade eleitoral se consolide.

Nesse contexto, Bolsonaro chegou a prometer uma entrevista ao portal Metrópoles para reafirmar publicamente a escolha do filho. A conversa, no entanto, foi cancelada. A iniciativa não interessava nem a Michelle nem aos advogados do ex-presidente, que atuam para tentar uma prisão domiciliar por razões humanitárias e temem que novas declarações públicas agravem sua situação judicial. O risco de uma fala intempestiva — a “groselha”, no jargão dos próprios aliados — falou mais alto.

A assimetria de acesso a Bolsonaro durante a internação também alimentou a crise. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, autorizou Michelle a acompanhar o marido durante todo o período hospitalar, enquanto a entrada dos filhos passou a depender de autorizações pontuais. O acesso contínuo da ex-primeira-dama ao ex-presidente, por dias ou até semanas, abriu a possibilidade concreta de reorientação da decisão sucessória — o que ajuda a explicar a pressa de Flávio em divulgar a carta escrita antes da cirurgia.

A movimentação do senador também responde a um cálculo mais amplo. Ao se lançar como pré-candidato, Flávio pressiona o centrão a avançar em iniciativas que possam aliviar a situação penal do pai, seja por meio de anistia, seja pela redução de penas. O chamado PL da Dosimetria, aprovado no Congresso, segue esse caminho: deve ser vetado por Lula e contestado no STF. Para Bolsonaro, o temor é duplo: ser abandonado por um sucessor que não seja da família e, pior, perder o posto de principal líder da direita brasileira. Rei morto, rei posto — e ele não pretende sair de cena.

Pesquisas recentes passaram a registrar Flávio como um dos nomes da direita com melhor desempenho no primeiro turno e competitividade semelhante à de governadores no segundo. O dado animou sua militância — e também setores do lulismo, que veem no senador um adversário mais previsível —, mas esfriou o entusiasmo do centrão e da Faria Lima, que preferem alternativas consideradas mais “palatáveis” ao establishment.

Sem Jair Bolsonaro no centro do tabuleiro, o bolsonarismo corre o risco de se fragmentar em múltiplas versões de si mesmo — uma “franquia sem franqueador”, em que cada liderança reivindica o selo original. Michelle, ao vocalizar um ultraconservadorismo religioso com forte apelo popular, tenta puxar para si o eixo gravitacional do movimento. Os filhos, por sua vez, disputam o mesmo espaço com o argumento da legitimidade familiar.

O que está em jogo vai além da eleição de 2026. Quem herdar esse espólio simbólico disputará também o direito de definir o significado do próprio bolsonarismo no futuro. A carta escrita por um líder enfraquecido, mais próximo das enfermarias do que dos palanques, não encerra a disputa. Ao contrário: reacende a chama de uma batalha interna que promete marcar os próximos anos da direita brasileira. Em Brasília, como na ficção, cartas raramente selam a paz. Quase sempre, anunciam a guerra.

Moraes, Banco Central e Lei Magnitsky: Banco Master esteve em pauta?


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *