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Poder
39% dos brasileiros culpam os Bolsonaro pelos ataques de Trump ao país
Publicado em 18/08/2025 10:27 - Semana On
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O vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PL) acusou governadores de direita de agirem como “ratos” e “oportunistas” ao buscarem herdar o espólio político de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), hoje inelegível e em prisão domiciliar. A declaração, publicada em sua conta no X (antigo Twitter) e endossada por Eduardo Bolsonaro (PL-SP), expôs de forma aberta a disputa interna pela liderança da direita no Brasil.
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O ataque ocorreu um dia após o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), lançar sua pré-candidatura à Presidência da República. Ao lado dele, outros nomes se movimentam para ocupar o espaço deixado pelo ex-presidente: Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), apontado como favorito nos bastidores bolsonaristas, Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Ratinho Jr. (PSD-PR). Todos foram apoiadores de Bolsonaro em 2022 e hoje tentam equilibrar a imagem de herdeiros do ex-presidente com a necessidade de se firmar como lideranças autônomas.
Carlos, porém, descartou qualquer possibilidade de neutralidade. Em sua postagem, afirmou que, enquanto o pai “está preso e doente” e apoiadores enfrentam processos judiciais por envolvimento na “trama golpista” investigada pelo Supremo Tribunal Federal, os governadores silenciam, priorizando “projetos pessoais” e o que “o mercado manda”. “Isso é desumano, sujo, oportunista e canalha”, escreveu.
– Tentei, até agora, ser a pessoa mais paciente possível diante desses chamados “governadores democráticos”. Mas os fatos, todos os dias, me provam que não há como levar nenhum desses sujeitos a sério.
– Enquanto Jair Bolsonaro está preso, doente e sendo lentamente assassinado a…
— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) August 17, 2025
O dilema dos governadores
A crítica de Carlos Bolsonaro recai sobre governadores que, até recentemente, mantinham o discurso de lealdade ao ex-presidente. Romeu Zema, no lançamento de sua pré-candidatura, não descartou abrir mão da disputa se Bolsonaro assim pedisse, destacando que “ajustes são possíveis” em campanhas políticas. Também elogiou Tarcísio de Freitas, considerado por analistas como o nome mais competitivo à sucessão bolsonarista.
Essa ambiguidade revela a armadilha política em que os governadores se encontram: ao mesmo tempo em que buscam capitalizar a herança eleitoral de Bolsonaro, precisam se descolar das investigações e da crise de legitimidade que atingem o ex-presidente e seu núcleo mais próximo.
O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, já havia advertidoque a dependência excessiva de lideranças regionais em relação a Bolsonaro poderia comprometer sua autonomia. “O risco é ficarem presos a uma figura política enfraquecida, sem conseguirem construir uma identidade própria”, afirmou.
O peso da herança bolsonarista
A reação do clã mostra que, mesmo isolado, Bolsonaro mantém o poder de fragmentar a direita brasileira. Eduardo Bolsonaro, atualmente nos Estados Unidos, compartilhou a publicação do irmão e tem defendido sanções ao Brasil em alinhamento com Donald Trump, reforçando a internacionalização da retórica bolsonarista.
O episódio também escancara o dilema da direita: romper ou não com o bolsonarismo. Tarcísio, Caiado, Ratinho Jr. e Zema se apresentam como alternativas modernas e moderadas, mas hesitam em se afastar do eleitorado radical que ainda idolatra o ex-presidente. Como advertiu o cientista político Jairo Nicolau, “quem quiser liderar a direita precisará lidar com a sombra de Bolsonaro por muito tempo”.
Rachadura irreversível?
A hostilidade de Carlos não apenas fragiliza as pontes entre governadores e o clã Bolsonaro, mas sinaliza que a sucessão do ex-presidente será marcada mais pela disputa fratricida do que por unidade estratégica. Se o objetivo era consolidar uma frente única contra a esquerda, a troca pública de ataques transforma a direita em um campo de armadilhas internas.
O resultado é previsível: governadores que se acorrentaram à imagem de Bolsonaro agora enfrentam o risco de se verem devorados pelo mesmo eleitorado que buscavam herdar. Em outras palavras, como resumiu a própria postagem de Carlos, a ratoeira já foi armada.
Quem são os culpados?
A imposição de tarifas de 50% pelo governo Donald Trump contra o Brasil, em represália ao julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, abriu uma nova frente de desgaste para a extrema direita brasileira. Desde o anúncio das sanções, o clã Bolsonaro tem operado em rede para convencer a população de que o verdadeiro responsável seria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mas, segundo pesquisa Datafolha divulgada no sábado (17), a narrativa encontra limites: 39% dos brasileiros culpam diretamente Jair Bolsonaro (22%) ou seu filho Eduardo (17%), contra 35% que responsabilizam Lula. O ministro Alexandre de Moraes, relator do processo no Supremo Tribunal Federal, aparece com 15%.
O resultado indica uma divisão estreita, dentro da margem de erro, mas suficiente para mostrar que a ofensiva de comunicação bolsonarista não rompeu a barreira do seu próprio campo ideológico. Como destaca a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Cebrap, “a força do bolsonarismo está na fidelidade de seu núcleo, mas a dificuldade é expandir além dele”.
A guerra da narrativa
O governo federal, por sua vez, não conseguiu consolidar a percepção de que as sanções norte-americanas foram estimuladas pelo próprio Eduardo Bolsonaro, que nos Estados Unidos tem insuflado a retórica de Trump contra o Brasil. A tentativa do Planalto de enquadrar o tarifaço como resultado direto da ofensiva bolsonarista ainda não conquistou apoio majoritário, embora impeça que a extrema direita monopolize o discurso.
Na prática, o Datafolha mostra que a operação de desgaste liderada pelo clã Bolsonaro tem efeitos limitados. Entre os eleitores de Bolsonaro em 2022, 83% culpam Lula (58%) ou Moraes (25%). Já entre os eleitores de Lula, 73% responsabilizam Jair (38%) ou Eduardo (35%). A fidelidade ideológica, portanto, se mantém, mas sem capacidade de alterar a percepção fora das bolhas políticas.
O cientista político Oliver Stuenkel, da FGV, observou em artigo na Foreign Policy que a estratégia de internacionalizar conflitos domésticos, acionando Trump como aliado, “é um movimento de alto risco, pois fragiliza a soberania brasileira e pode ter consequências diplomáticas graves”.
Eduardo Bolsonaro na linha de fogo
A leitura do Datafolha reforça a expectativa de responsabilização de Eduardo Bolsonaro. Do ponto de vista jurídico, ele é acusado de instigar um país estrangeiro a retaliar o Brasil, o que pode resultar não apenas em condenação judicial, mas também em perda de mandato. Mesmo que o Congresso não avance numa cassação direta, a pressão institucional tende a crescer à medida que os efeitos econômicos do tarifaço se tornem palpáveis.
Para o Judiciário, a acusação de incitação externa deve agravar sua situação. O ministro Alexandre de Moraes, ainda que atacado nas redes, vem sendo respaldado por investigações da Polícia Federal e decisões colegiadas do Supremo. A articulação, nesse caso, reforça o caráter institucional das respostas ao golpismo, reduzindo a chance de que a narrativa bolsonarista prospere fora das bolhas digitais.
História repetida, farsas recicladas
O episódio também se insere numa longa tradição brasileira de tensões políticas atravessadas por pressões externas. Em 1964, parte da conspiração golpista contou com apoio norte-americano para desestabilizar João Goulart. Em 2025, a ironia histórica é ver um ex-presidente, derrotado eleitoralmente e réu por tentativa de golpe, convocando de forma indireta a intervenção estrangeira para tentar escapar da Justiça.
“Os livros de história ensinam que o autoritarismo nunca chega sozinho: ele se ancora em alianças externas, interesses econômicos e manipulação de narrativas”, escreveu o historiador Marcos Napolitano, professor da USP. A estratégia do clã Bolsonaro, nesse sentido, repete velhas fórmulas, mas enfrenta agora uma sociedade que, em sua maioria, rejeitou a aventura golpista no 8 de janeiro.
O limite da mentira conveniente
O tarifaço imposto por Trump impõe custos econômicos imediatos e riscos políticos de médio prazo. Mas, paradoxalmente, ele também revelou os limites da máquina de desinformação bolsonarista: barulhenta, eficaz no curto prazo, mas incapaz de gerar consenso fora do próprio círculo. A narrativa contra Lula pode até servir de consolo momentâneo, mas dificilmente conseguirá transformar a chantagem de Trump em vitória política duradoura.
Como advertiu o sociólogo Manuel Castells, em Comunicação e Poder (2009), “a mentira política pode convencer durante algum tempo, mas a realidade sempre se impõe, cedo ou tarde”. No caso brasileiro, os números do Datafolha sugerem que esse momento de confronto entre narrativa e realidade já começou.
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